1Pedro 5.1-4 – Pastoreando o Rebanho

  1. Análise de detalhes
  • AUTORIA:

Há consenso quase unânime da autoria do Apóstolo Pedro na carta de I Pedro, tanto dos pais da igreja como Policarpo, Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano e Eusébio, assim como reformadores e estudiosos. O questionamento sobre a autoria de Pedro apenas foi levantada por alguns teólogos liberais no século 19, em oposição às abundantes provas e evidências de quase dois milênios.

Werner Kummel, em oposição a essas evidências diz que a linguagem em um grego impecável, traz citação do Antigo Testamento provenientes da Septuaginta. Desta maneira, segundo este escritor alemão, fica inconcebível que tal carta tenha sido escrita por um pescador galileu como Pedro.1 Contudo, Simon Kistemaker discorda de Kummel, tendo como base tanto evidências internas como externas, além de considerações históricas e estilísticas, é aceito que 1 Pedro seja um livro apostólico escrito por Pedro. Segundo Kistemaker, o ponto de vista tradicional é mais razoável do que qualquer hipótese alternativa.2

A mensagem da carta está intimamente ligada aos discursos de Pedro, conforme registrados no livro de Atos.

Pedro foi um pescador galileu, natural de Betsaida, irmão de André que era antigo seguidor de João Batista, que por testemunho deste, se torna seguidor de Jesus.

Seu nome é Cefas em aramaico, ou seja, Simão, porém conhecido em grego como Pedro, que quer dizer rocha ou fragmento de rocha. Foi escolhido por Jesus como apóstolo e fazia parte de um grupo seleto de discípulos mais próximos de Jesus. Foi o porta-voz dos 12 discípulos. Enquanto o nome de Paulo é mencionado 162 vezes, e os nomes de todos os outros apóstolos juntos são citados 142 vezes, Pedro é citado nominalmente 210 vezes.3

Mesmo tendo negando a Cristo, foi restaurado por Ele, sendo encarregado e comissionado por Cristo a apascentar o rebanho do Senhor e fortalecer a seus irmãos.

MyerPearlman escreve: “Esta epístola nos oferece uma ilustração esplêndida de como Pedro cumpriu a missão que lhe foi dada pelo Senhor: Tu, pois, quando te converteres, fortalece os teus irmãos (Lc 22.32).4

  • CONTEXTO HISTÓRICO E CARACTERÍSTICAS GERAIS:

A epístola possivelmente foi enviada de Roma, citada em 1Pe 5.13 como Babilônia, que também é intitulada desta maneira por João no livro de Apocalipse de forma metafórica. Foi provavelmente escrita por volta de 63d.C., como defente o erudito estudioso de Novo Testemento Robert Gundry: “O tema perseguição aos cristãos, que percorre essa epístola toda, sugere que Pedro a escreveu por volta de 63 d.C., pouco antes de seu martírio em Roma, por ordens de Nero, o que sucedeu em 64 d.C.”5.

Foi destinada aos cristãos, judeus e gentios, que viviam na parte norte da Ásia Menor (hoje a Turquia), espalhados nas províncias do Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1Pe 1.1). Seu destino foi a a região de Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia, Bitínia.
A carta de 1 Pedro é considerada a mais pastoral e terna do Novo Testamento. Um dos pontos principais que Pedro destaca é que seus leitores se mantenham firmes em sua conduta mesmo diante da perseguição.

Matthew Henry afirma que a principal intenção de Pedro em escrever esta carta foi preparar os cristãos para o sofrimento. 6

Uma carta que foi escrita a fim de animar os crentes diante do sofrimento, e fazer com que busquem santidade. Pedro se dirige aos cristãos da Ásia como um verdadeiro pastor que cuida do seu rebanho, obedecendo ao mandamento recebido de Cristo (Jo 21.15-17).7

Algumas características especiais podem ser notadas neste epístola:

Em primeiro lugar, a carta tem, segundo alguns estudiosos, um dos melhores gregos do Novo Testamento. Um grego bastante culto.8 Sendo assim, alguns comentaristas chegam a rejeitar a autoria de Pedro, dado que era considerado um pescador iletrado e inculto. Contudo, quanto a isto temos as seguintes ponderações:

  1. Pedro era natural da Galileia, a região mais influenciada pelo helenismo, ou seja, pela cultura de língua grega. Consequentemente, os galileus falavam grego e estavam familiarizados com a septuaginta, versão grega do Antigo Testamento. 9
  2. Pedro diz que escreveu esta epístola em parceria com Silvano (5.12), um dos homens “notáveis” da igreja primitiva (At 15.22). Esse Silvano é o mesmo Silas que acompanhou Paulo em sua segunda viagem missionária. Era um cidadão romano e também profeta (At 15.32). Poderíamos também imaginar Pedro como autor da carta e Silvano, sendo seu amanuense.

 

  • Texto Grego

1 Pedro 5:1Πρεσβυτέρους οὖν ἐν ὑμῖν παρακαλῶ ὁ συμπρεσβύτερος καὶ μάρτυς τῶν τοῦ Χριστοῦ παθημάτων, ὁ καὶ τῆς μελλούσης ἀποκαλύπτεσθαι δόξης κοινωνός·

2 ποιμάνατε τὸ ἐν ὑμῖν ποίμνιον τοῦ θεοῦ [ἐπισκοποῦντες] μὴ ἀναγκαστῶς ἀλλὰ ἑκουσίως κατὰ θεόν, μηδὲ αἰσχροκερδῶς ἀλλὰ προθύμως,

3 μηδ᾽ ὡς κατακυριεύοντες τῶν κλήρων ἀλλὰ τύποι γινόμενοι τοῦ ποιμνίου·

4 καὶ φανερωθέντος τοῦ ἀρχιποίμενος κομιεῖσθε τὸν ἀμαράντινον τῆς δόξης στέφανον.

 

TRADUÇÃO:

Portanto, rogo aos presbíteros entre vocês, na qualidade de presbítero, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e também participante da glória que será revelada,

Pastoreiem o rebanho de Deus, não por constrangimento, mas por boa vontade, como Deus quer. Nem por ganho desonesto, mas com desejo de servir.

Nem como dominadores da porção que foi confiada a vocês, mas se tornando exemplo do rebanho.

Pois assim que se manifestar o Supremo Pastor, vocês receberão a coroa de glória que não perece.

2Pedro 5:1-4

  • OCORRÊNCIA DE PALAVRAS EM OUTROS TEXTOS

Uma das palavras mais fortes nesta perícope é o imperativo plural poimánate, que quer dizer “Pastoreiem”. Uma das últimas palavras que Pedro ouve do Supremo Pastor, Jesus, é: “Pastoreie as minhas ovelhas” em João 21.16. Agora, aquelas palavras não apenas fazem sentido para Pedro, como também, se sente na obrigação de repassá-las aos outros presbíteros como ele. Assim, como recebeu esse mandamento de Jesus, Pedro repassa o mandamento aos outros presbíteros.

Outra importante palavra deste texto é repetida por Paulo em 2 Coríntios 9.7: Cada um dê conforme determinou em seu coração, não com pesar ou por obrigação, pois Deus ama quem dá com alegria. (NVI) A palavra por obrigação no grego é mê anankastôs. Assim como não devemos dar o dízimo e ofertas por obrigação, ou seja, sem alegria por obedecer, da mesma forma não devemos pastorear o rebanho por obrigação, mas por voluntariedade.

Quando Paulo direciona Timóteo acerca das qualificações dos Bispos e Presbíteros, ele diz em 1Tm 3.3: não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro (NVI).A palavra não apegado ao dinheiro, no grego mê aischrokerdôs, significa não ganancioso, ávido por lucro desonesto. Novamente Paulo direciona a Tito em Tt 1.7: Por ser encarregado da obra de Deus, é necessário que o bispo seja irrepreensível: não orgulhoso, não briguento, não apegado ao vinho, não violento, nem ávido por lucro desonesto (NVI). Assim, Pedro se une a Paulo e novamente diz aos presbíteros: Pastoreiem com desejo de servir, e não por desejo de lucrar com isso.

  1. IDEIA CENTRAL

O pastor do rebanho de Deus deve almejar cuidá-los de livre vontade, desejando servir e consequentemente não dominando-os, mas antes sendo exemplo de serviço, assim como Jesus, o Supremo Pastor foi.

  1. ESBOÇO EXEGÉTICO
  2. Exortação aos presbíteros sobre como pastorear o rebanho de Deus (I Pe.5.1-4)
    • Pedro se coloca entre iguais e exorta-os como também foi exortado pelo Senhor (5.1)
    • Como o rebanho de Deus deve ser pastoreado (5.2,3)
      • Pastoreiem o rebanho do Senhor (5.2)
      • Não por constrangimento, mas por boa vontade (5.2)
      • Não por ganho desonesto, mas com desejo de servir (5.2)
      • Não como dominadores, mas como exemplo (5.3)
  • O Supremo Pastor se manifestará para dar a coroa de glória que não murcha aos verdadeiros pastores (5.4)

 

  1. COMENTÁRIO EXEGÉTICO

Este capítulo é a conclusão da primeira carta de Pedro. Desta forma, ele faz as últimas exortações à igreja do Senhor, tanto para os líderes como aos jovens, para então fazer uma aplicação geral a todos os cristãos.

  1. Exortação aos presbíteros sobre como pastorear o rebanho de Deus (I Pe.5.1-4)

1.1 Pedro se coloca entre iguais e exorta-os como também foi exortado pelo Senhor (5.1)

1 Pedro 5.1Portanto, rogo aos presbíteros entre vocês, na qualidade de presbítero, e testemunha dos sofrimentos de Cristo, e também participante da glória que será revelada

Neste versículo vemos Pedro fazendo um apelo aos líderes da igreja. Mesmo se apresentando como apóstolo no início da carta (1.1), quando se dirige aos presbíteros, Pedro se apresenta como sympresbyteros, co-presbítero com eles. Como apóstolo, sua responsabilidade é pela igreja universal, todas as igrejas, mas isso não o isenta de ser presbítero, um líder local de cristãos. Desta forma, Pedro não se coloca como alguém superior, mas faz uma exortação entre pares. Aqui podemos perceber quão distante ficou a atitude de Pedro e a posição que o catolicismo o colocou. Os católicos colocam Pedro como o primeiro papa, pedra fundamental onde a igreja foi edificada, o bispo universal. Sendo que o único cabeça, a pedra angular e fundamental sobre a qual a igreja está edificada é Cristo. Desta forma, Pedro não se coloca em uma posição superior, antes fala aos presbíteros como iguais.

Da mesma maneira, vemos um distanciamento muito grande da atitude de muitos líderes de igrejas chamadas cristãs hoje em dia. Que se intitulam “apóstolos”, “patriarcas”, “pais”. Enquanto apóstolos como Paulo (Rm 1.1) e Pedro (II Pe 1.1) se intitulam doulos, ou seja, escravos de Cristo, servos, hoje vemos líderes buscando posições de superioridade, ao passo que o cristianismo deveria nos colocar na posição de diákonos, “aquele que serve” (Lc 22.27).

Neste texto podemos perceber que não é o início de um novo pensamento, para a conclusão para algo que já foi falado anteriormente. Pedro utiliza a palavra oun, que quer dizer “portanto”. Depois de exortar a igreja à santidade na vida, no amor, a ter uma vida exemplar, praticar o bem e direcioná-los nos deveres de uns para com os outros, Pedro, conclui sua carta direcionando a liderança da igreja.

A palavra grega parakalo, “rogo”, vêm de parákletos, “consolador”. Tal palavra é um apelo, porém com ternura. Fazendo uma transposição cultural, hoje em um linguajar mais popular seria o nosso: “Pelo amor de Deus”. Desta forma, Pedro roga com um senso de urgência, não com uma imposição, mas como um pedido urgente.

Pedro roga aos presbyterous, “anciões”, aqueles que cuidam do pastoreio da igreja. Onde quer que a igreja nascesse, presbíteros eram eleitos (At. 14.23). Normalmente, não era apenas um pastor, mas um grupo de presbíteros.

1.2 Como o rebanho de Deus deve ser pastoreado (5. 2, 3)

1 Pedro 5. 2, 3 – Pastoreiem o rebanho de Deus, não por constrangimento, mas por voluntariedade. Nem por ganho desonesto, mas com desejo de servir.

Nem como dominadores da porção que foi confiada a vocês, mas se tornando exemplo do rebanho.

  • Pastoreiem o rebanho de Deus

Pedro se lembra as palavras de Jesus a ele: ποίμαινε τὰ πρόβατά μου (póimaine tá próbatá) em Jo 21:16, que quer dizer: Pastoreie as minhas ovelhas. Estas palavras provavelmente “martelaram” na cabeça de Pedro por todo o seu ministério, e agora, estas palavras estão tão lúcidas em sua mente do que a cerca de 30 anos atrás quando as ouviu da boca do Mestre. E agora elas fazem muito sentido. Pedro dedicou sua vida até o martírio pastoreando o rebanho do Senhor, e não apenas o fez, como também agora exorta aos seus pares para que dediquem suas vidas e façam o mesmo.

E não basta apenas pastorear, é necessário lembramos que o rebanho é τοῦ θεοῦ (tou Theou), que está no genitivo no grego, e significa que o rebanho tem um dono, é de Deus. O pastor não é dono das ovelhas. O presbítero é um mero servo de Deus que serve as ovelhas. As ovelhas são do Senhor, e ai dos pastores que não cuidarem destas ovelhas da maneira que agrada ao Senhor, eles serão cobrados por isto e responderão diante do Senhor por isto.

  • Não por constrangimento, mas por boa vontade (5.2)

O presbítero não é dono do rebanho, nem possui direito de posse das ovelhas. Porém, cabe a ele alimentar, direcionar, proteger este rebanho.

Ninguém pode ser coagido a se tornar um líder, nem ser constrangido a ocupar qualquer posição de liderança. O presbiterato deve ser um ministério aspirado, desejado e buscado pelo líder que o ocupa.

A contrapartida positiva à palavra mê anankastôs, “não por constrangimento”, é a palavra grega hekousiôs. Tal expressão é uma atitude espontânea, voluntária e ainda qualificada pela expressão “como Deus quer”, que segundo Kirschner: “impõe a prioridade de entrar ou estar no ministério com a finalidade de, acima de tudo, agradar a Deus, de fazer as coisas “segundo” Deus.”10

Naquele contexto de perseguição, a liderança era a mais pressionada, aqueles que estavam mais sujeitos à tortura e morte. Desta maneira, podemos imaginar que muitos poderiam ser pressionados a se tornarem líderes, e o perigo era de os pastores traírem o cristianismo para salvarem suas vidas. 11 Desta forma, Pedro exorta-os que o presbítero deve exercer sua função por boa vontade, voluntariamente, sem qualquer pressão ou aspiração que não seja agradar ao Senhor.

A expressão κατὰ θεόν (katá Theon) quer dizer como Deus quer. Aquele que se dedica ao ministério de maneira alguma tem flexibilidade para agir da maneira que quiser, ele estará sempre submetido ao que Deus quer. Há muitos líderes cristãos que não se afadigam na palavra, que não se dedicam ao ministério como deveriam, outros que apascentam apenas a si mesmos em vez de cuidarem do rebanho. Muitos buscam glórias para si, reconhecimento e aplausos e pouco se importam se as ovelhas perecem. O Dr. Martin Lloyd-Jones, pastor presbiteriano, no final de sua vida disse em uma entrevista que só deve estar no ministério aquele que não conseguir viver fora dele.

  • Não por lucro desonesto, mas com desejo de servir (5.2)

As palavras gregas mê aischrokerdôs significam “não por ganância”, ou “desejo de ganho desonesto/ilícito”. Paulo também diz o mesmo quando fala sobre como devem ser os pastores e presbíteros, cf. “não ganancioso” (1 Tm 3:3); “não ávido por lucro desonesto” (Tt 1:7). Em oposição a esta palavra, Pedro traz as palavras prothymôs, “disposição, entusiasmo” e hekousiôs, “livre vontade”, ou seja, a real motivação do obreiro deve ser de servir ao rebanho e não de ser servido pelo rebanho.12 Infelizmente hoje vemos muitos pastores que querem ser servidos, que buscam lucro através do rebanho. Tem motivações escusas e não são imitadores do mestre Jesus. Da mesma forma, podemos imaginar que naquela época, os obreiros tinham algum tipo de sustento financeiro por parte da igreja, cf. 1 Tm 5.17,18. Entretanto sabemos que poderiam existir oportunidades de haver lucro desonesto por parte dos presbíteros, afinal, eram eles que faziam a administração da coleta. Certamente, poderiam existir líderes desviando verbas que deveriam ser destinadas às viúvas e órfãos, porém que estavam buscando o enriquecimento próprio, ou pelo menos um conforto maior.

Tais palavras de Pedro nunca foram tão atuais para nós. Hoje impera em nosso país igrejas que sustentam e pregam a falsa “teologia” da prosperidade. Onde multidões são atraídas para templos com os motivos errados de enriquecimento, de vitória financeira, cura para todas as doenças, etc. O objetivo de tais pastores não é a transformação integral do indivíduo, não pregam aquilo que as ovelhas precisam ouvir, mas aquilo que elas querem ouvir com o objetivo de conseguir mais dinheiro para si mesmos. Em nosso país, temos pastores riquíssimos e todos eles se enriqueceram às custas de suas igrejas. Sem sombra de dúvidas, podemos encontrar nas mesmas igrejas onde tais pastores pregam, pessoas que sequer têm condições para pagar a condução para ir à igreja, e que muitas vezes, deixam o dinheiro da condução nas urnas de tais igrejas, depois de serem constrangidas a isto, e voltam à pé para suas casas. Enquanto estes mesmos pastores possuem carros importados e aviões particulares. Não seria isso um ganho desonesto? O que poderia ser mais pernicioso do que isto?

O pastor é chamado a servir suas ovelhas. De maneira nenhuma o pastor pode se colocar primeiro do que suas ovelhas. E aqui, provavelmente Pedro se lembra das palavras de Jesus: “Pois aquele que entre vocês for o menor, este será o maior” (NVI) Lc 9.48 e também: “Mas não sereis vós assim; antes o maior entre vós seja como o menor; e quem governa como quem serve.” Lc 22.26 (ACF)

  • Não como dominadores, mas como exemplo (5.3)

O exemplo negativo que Pedro deixa aqui é κατακυριεύοντες (katakirieuontes) que quer dizer “dominar, subjugar, exercer senhorio sobre”. Pedro então diz: Não exerçam domínio sobre o rebanho, mas antes: τύποι γινόμενοι τοῦ ποιμνίου, que quer dizer, se tornem exemplo para o rebanho. A palavra tupói no grego significa marca, uma figura ou imagem dos deuses, exemplo ou modelo a ser seguido. Desta forma poderíamos entender: Não dominem sobre o rebanho, mas se tornem um exemplo a ser seguido sendo uma imagem de Cristo para o rebanho.

O pastor é chamado a ser uma imagem viva de Jesus para o seu rebanho. E novamente, quando Pedro diz aos presbíteros para que não dominem sobre o rebanho, aqui ele se lembra de como Jesus exercia sua liderança entre os discípulos: “Pois bem, se eu, sendo Senhor e Mestre de vocês, lavei-lhes os pés, vocês também devem lavar os pés uns dos outros.” Jo 13.14.

Um pastor não tem autoridade para exercer domínio sobre as ovelhas, assim como não possui autoridade para dizer quem irá para o céu ou não. O pastor cuida de ovelhas do Supremo Pastor. Ele é um mero mordomo do Senhor. Infelizmente hoje muitos líderes se esquecem do porque foram chamados pelo Senhor. Quando Deus nos chama, é com o objetivo de glorificar a Ele e não a nós mesmos. Quando qualquer pastor passa a buscar dominar sobre o rebanho, ele está procurando uma glória que não é sua e isto é um pecado grave.

Hoje temos visto em nosso país muitos ministérios personalistas com pastores de grandes multidões e que buscam apenas sua autopromoção. Querem fama, prestígio, aplausos e reconhecimento, querem ser servidos pelas ovelhas ao invés de alimentá-las, se deixarem gastar pelas ovelhas, e amarem-nas até o fim. Como podemos ver no episódio da multiplicação dos pães e peixes:

“Havia muita gente indo e vindo, a ponto de eles não terem tempo para comer. Jesus lhes disse: “Venham comigo para um lugar deserto e descansem um pouco”.
Assim, eles se afastaram num barco para um lugar deserto.
Mas muitos dos que os viram retirar-se, tendo-os reconhecido, correram a pé de todas as cidades e chegaram lá antes deles.
Quando Jesus saiu do barco e viu uma grande multidão, teve compaixão deles, porque eram como ovelhas sem pastor. Então começou a ensinar-lhes muitas coisas.
Já era tarde e, por isso, os seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Este é um lugar deserto, e já é tarde.
Manda embora o povo para que possa ir aos campos e povoados vizinhos comprar algo para comer”.
Ele, porém, respondeu: “Dêem-lhes vocês algo para comer”.”
Marcos 6.31-37 (NVI)

Nesta passagem podemos perceber que Jesus sequer tinha tempo para comer, entretanto alimentou suas ovelhas. O pastor que é chamado pelo Senhor para apascentar as Suas ovelhas, deve ter em mente que sua responsabilidade é muito grande, pois “Se alguém fizer tropeçar um destes pequeninos que crêem em mim, seria melhor que fosse lançado no mar com uma grande pedra amarrada no pescoço.” Mc 9.42

Desta forma, reitero o que dizia o Dr. Martin Lloyd-Jones, só deve se dedicar integralmente à obra do Senhor, aquele que não conseguir viver sem fazer isto. Seu amor pelas ovelhas deve ser o mesmo que Jesus teve por elas, a ponto de estar disposto a entregar sua vida por elas. Se houver qualquer interesse que passe disso, é melhor que se afaste do ministério, para que não sofra um juízo muito maior.

  • O Supremo Pastor se manifestará para dar a coroa de glória que não murcha aos verdadeiros pastores (5.4)

Aos pastores que cuidarem bem do seu rebanho, não por constrangimento, mas por boa vontade; não por ganho desonesto, mas com desejo de servir; e não como dominadores, mas se tornando exemplo do rebanho, estes serão grandemente recompensados.

Pois o Supremo Pastor (ἀρχιποίμενος – archipoimenos), o cabeça da Igreja, aquele que os comissionou, se encontrará com estes homens dos quais este mundo não era digno para entregar pessoalmente o prêmio. Aqueles homens viviam por causa de Cristo, e saber que o próprio Cristo iria ao encontro deles para dizer: “‘Muito bem, servo bom e fiel! Você foi fiel no pouco; eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!” Mt 25.21. Tal é a nossa esperança. Jesus Cristo é a razão última pela qual fazemos todas as coisas. Ele é o Senhor Cósmico do Universo, o dono de nossas vidas, a razão do nosso ser e do nosso respirar, e um dia nos encontraremos com Ele. Naquele dia, quando Ele se manifestar, nós receberemos uma coroa de glória que não murcha.

As palavras gregas usadas aqui são: ἀμαράντινον τῆς δόξης στέφανον (amarantinon tês dóxes stéfanon) que pode ser traduzido por: coroa de glória que não murcha, feita de amarantos. Para os cidadãos da época de Pedro no primeiro século, eram comuns os jogos onde os atletas corriam para ganhar a coroa de louros. O vencedor teria a coroa de louros, porém tal coroa murchava e logo perecia. Aqui Pedro faz uma comparação com algo que aquela comunidade compreendia muito bem.

O pastor deve completar a sua carreira, correr em busca de um prêmio que não murcha, não em busca de lucro desonesto, poder ou aplausos, todas essas coisas perecerão, contudo, a coroa que o Supremo Pastor nos dará, não é de louros, seu material, é a flor amaranto (amarantinon), uma flor que na cultura romana era considerada sagrada, pois devido a sua longevidade, tinha uma aparência de sempre viva. Para eles, era um flor imortal. E aqui Pedro usa essa referência para dizer que a coroa que receberemos de Cristo, não é de louros, passageira, mas uma coroa que não perece, pois é eterna.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 

  1. KUMMEL, Werner G. Introduction to the New Testment. Nashville, TN: Abingdon, 1966, p. 297.
  2. KISTEMAKER, Simon. Epístolas de Pedro e Judas, p. 17.
  3. ORR, Guilherme W. 27 Chaves para o Novo Testamento. São Paulo: Imprensa Batista Regular, 1976, p.57,58.
  4. PEARLMAN, Myer. Através da Bíblia. Miami: Vida, 1987, p.323.
  5. GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1978, p.390.
  6. HENRY, Matthew. Comentário Bíblico Atos-Apocalipse. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p.857.
  7. LOPES, Hernandes D. 1 Pedro, com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos, 2012, p. 18.
  8. MUELLER, Ênio R. I Pedro: Introdução e Comentário. 19.
  9. LOPES, Hernandes D. 1 Pedro, com os pés no vale e o coração no céu. São Paulo: Hagnos, 2012, p. 19.
  10. KIRSCHNER, Estevan F. A vida do Ministro de Deus segundo o NT: Reflexões a partir de 1 Pedro 5.1-4, p. 2.
  11. KIRSCHNER, Estevan F. A vida do Ministro de Deus segundo o NT: Reflexões a partir de 1 Pedro 5.1-4, p.2.
  12. KIRSCHNER, Estevan F. A vida do Ministro de Deus segundo o NT: Reflexões a partir de 1 Pedro 5.1-4, p.3.

 

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