Atos 2.42-47 – As marcas da Verdadeira Igreja

Introdução

O presente trabalho exegético visa expor o texto de Atos 2.42-47 demonstrando a partir de uma pesquisa histórico-gramatical, além de teológica utilizando o texto grego a fim de compreender como viviam os convertidos da igreja primitiva, sob a perspectiva do autor do livro. Essa igreja perseverava na dotrina, nas orações e na comunhão, e tinham uma só mente. Além disso, vendiam suas propriedades à medida que alguém tinha necessidade. A igreja hoje deve agir da mesma maneira? Tal atitude seria uma espécie de comunismo? Analisaremos dentro do contexto tais implicações e traremos para a vida da igreja hoje.

Muito se fala em avivamento, em crescimento de igrejas, como se dão essas coisas? O texto em questão também nos trará respostas sobre esses assuntos.

Esse trabalho exegético não abordará toda a questão , contudo, sendo uma tarefa acadêmica, o propósito é que possa de alguma forma contribuir para uma melhor compreensão desse assunto tão relevante, porém, tão mal compreendido tantas vezes.

 

1) Estudo Contextual

1.1) Contexto Histórico

A narrativa de Atos 2.42-47 relata o que ocorre na história da igreja após o Pentecostes. Essa festa, que é a Festa das Semanas no AT (Ex 34.22; Nm 28.17; Dt 16.10), é a segunda das três grandes festas de peregrinação em Israel e conclui o ciclo de tempo iniciado na Páscoa.[1] É chamada de Pentecostes porque ocorre no quinquagésimo dia após a Páscoa (primeiro dia após sete semanas). A festa era de alegria e ação de graças pela conclusão da colheita e nela o trabalho era proibido. Nesse contexto, milhares de judeus e prosélitos de todas as partes do mundo subiam a Jerusalém para celebrar a festa de Pentecostes. Entre estes se encontram aqueles que foram alcançados pela pregação de Pedro que atingiu cerca de três mil homens e então dá-se início à igreja neotestamentária.

O período narrado em Atos 2.42-47 cobre cerca de três a cinco anos da igreja primitiva[2], mostrando como viviam os convertidos pela pregação do apóstolo Pedro após a festa de Pentecostes durante os primeiros anos da igreja.

A partir do exílio para a Babilônia, os judeus passaram a reunir-se em sinagogas, quando foram privados do templo. As sinagogas eram casas de reunião, estudo e oração dos judeus. Mesmo quando os judeus voltaram para Jerusalém, as sinagogas continuaram como uma instituição do judaísmo palestino. Nas sinagogas[3] liam-se as Escrituras e os rabinos explicavam, havia uma recitação do Shema (“Ouve Israel, o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR) e da Amidah, que era uma oração central em silêncio, que contemplava a Deus e lhe dava graças pelo sábado e pelas bênçãos humanas. Quando a igreja primitiva passa a se reunir, também seguem uma estrutura das sinagogas, porém com administração de sacramentos cristãos. Porém, seguindo inicialmente a estrutura que já conheciam de sinagoga.

 

1.2) Contexto Literário

1.2.1) Contexto Próximo

O texto de At 2.42-47 conclui o capítulo dois de Atos, que começa com a descida do Espírito Santo. Após o Pentecostes, os cristãos recebem o Espírito Santo e testemunham de Cristo para os judeus que participavam da festa em Jerusalém. Em seguida, Pedro passa a pregar àqueles homens e ao final de sua pregação cerca de três mil pessoas. Essas três mil pessoas não tinham um local específico para adorar, a não ser o templo (onde Pedro e João entram logo após a perícope de At 2.42-47), e as sinagogas. Além disso, os cristãos passam a reunir-se em casas para cultuar a Deus.

Logo após Lucas mostrar como viviam os convertidos, relata os sinais e prodígios feitos pelos apóstolos, onde na entrada do Templo, Pedro e João curam um coxo e passam a testemunhar aos judeus que se encontravam no templo. Posteriormente, Lucas mostra o início da perseguição à igreja com a prisão de Pedro e João.

 

1.2.2) Contexto Remoto

            Uma das características de Lucas nos primeiros capítulos de Atos é mostrar de tempos em tempos na sua narrativa, pequenos quadros de como estava a igreja primitiva naqueles momentos para servirem de exemplo e modelo para a igreja. O texto de Atos 2.42-47 é o primeiro quadro revelado por Lucas. Outros quadros são narrados em At 4.32-35; 5.12-16; 9.31; 12.24.[4]

É possível vermos em cada quadro, uma foto da igreja após a expansão terrotorial e geográfica explicitada no resumo do livro em Atos 1.8 “mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda Judéia e Samaria e até aos confins da terra”. Após o primeiro quadro que será exposto neste presente trabalho, Lucas mostra o segundo quadro em At 4.32-35, onde retrata a foto da igreja depois da primeira perseguição. Nesse texto relata que a igreja estava unânime (era um o coração), não consideravam exclusivamente seu o que possuía, apóstolos faziam milagres e sinais. No terceiro quadro, após a morte de Ananias e Safira em At 5.12-16, Lucas mostra que na igreja haviam sinais e prodígios feitos pelos apóstolos, reuniam-se em comum acordo no pórtico de Salomão, crescia a multidão dos crentes, e doentes eram curados. O quarto quadro, em At 9.31, ocorre após a morte de Estevão e depois de Filipe pregar em Samaria e estes receberem o Espírito Santo por meio dos Apóstolos. De Jersusalém, para a Judéia e agora a igreja também está em Samaria. Neste momento o autor relata que a igreja tinha paz em toda Judéia, Galiléia e Samaria e crescia em número. Por fim, o último quadro, que retrata os confins da terra em At 1.8, Lucas relata após a descida do Espírito Santo aos gentios Cornélio e sua casa, e depois do início do ministério de Paulo, Lucas diz em At 12.24 que a igreja crescia em número.

É possível ainda vermos que a palavra unânimes (“omothimadon”) ocorre seis vezes em todo o Novo Testamento, sendo cinco delas no livro de Atos: At 1.14, 2.46, 4.24, 7.57, 12.20, 15.25, sempre relacionados à atitude da igreja.

 

1.2.3) Estrutura de Contexto

1.3) Contexto canônico  

Lucas nos dá um retrato da igreja em At 2.42-47, e é possível vermos que as atitudes da igreja primitiva em Atos, são imperativos nas cartas de Paulo para as igrejas que são plantadas posteriormente.

Em Romanos 12.12, Paulo exorta a igreja que sejam perseverantes na oração. Em paraledo com At 2.42 quando a igreja perseverava na oração. O mesmo ocorre em Colossenses 4.2 quando o apóstolo Paulo traz um imperativo: perseverai na oração. A perseverança em oração não é apenas algo admirável, mas um mandamento para a igreja fiel.

Em 1 Co 14.26, Paulo quando fala sobre a liturgia da igreja diz que um tem salmo, outro doutrina. Que tudo seja para a edificação. A doutrina, o ensino da palavra de Deus por meio do ensino dos apóstolos deve estar presente no culto e na vida da igreja.

Já em Romanos 15.5, 6, Paulo diz: “o Deus da paciência e da consolação vos conceda o mesmo sentir de uns para com os outros, segundo Cristo Jesus, para que concordemente e a uma voz glorifiqueis ao Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo.” O mesmo sentimento que a igreja incipiente de Atos 2.42-47 tinha, sendo unânimes, isso também deve estar presente nas igrejas de Cristo em todo o mundo.

Por fim, em Romanos 15.26, Paulo fala sobre comunhão quando diz que Acaia e Macedônia fizeram uma coleta em benefício dos pobres de Jerusalém. E em 2 Coríntios 8.4, quando ele diz que as igrejas da Macedônia pediram para participarem da assistência aos santos. Em ambos casos, a palavra comunhão é utilizada para o contexto de coleta, de partilhar os bens com a obra de Cristo.

 

2) Estudo Textual

2.1) Tradução do Texto

2.1.1) Texto Grego

Atos 2.42-47
42 ἦσαν δὲ προσκαρτεροῦντες τῇ διδαχῇ τῶν ἀποστόλων καὶ τῇ κοινωνίᾳ, τῇ κλάσει τοῦ ἄρτου καὶ ταῖς προσευχαῖς.
43 Ἐγίνετο δὲ πάσῃ ψυχῇ φόβος, πολλά τε τέρατα καὶ σημεῖα διὰ τῶν ἀποστόλων ἐγίνετο.
44 πάντες δὲ οἱ πιστεύοντες ἦσαν ἐπὶ τὸ αὐτὸ καὶ εἶχον ἅπαντα κοινά,
45 καὶ τὰ κτήματα καὶ τὰς ὑπάρξεις ἐπίπρασκον καὶ διεμέριζον αὐτὰ πᾶσιν καθότι ἄν τις χρείαν εἶχεν·
46 καθʼ ἡμέραν τε προσκαρτεροῦντες ὁμοθυμαδὸν ἐν τῷ ἱερῷ, κλῶντές τε κατʼ οἶκον ἄρτον, μετελάμβανον τροφῆς ἐν ἀγαλλιάσει καὶ ἀφελότητι καρδίας,
47 αἰνοῦντες τὸν θεὸν καὶ ἔχοντες χάριν πρὸς ὅλον τὸν λαόν. ὁ δὲ κύριος προσετίθει τοὺς σῳζομένους καθʼ ἡμέραν ἐπὶ τὸ αὐτό.

2.1.3) Tradução

Vs 42
Tradução E eles estavam perseveravando na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.
ARA e perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.
ACF E perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.
NVI Eles se dedicavam ao ensino dos apóstolos e à comunhão, ao partir do pão e às orações.
Católica Perseveravam eles na doutrina dos apóstolos, na reunião em comum, na fração do pão e nas orações.

 

Comentário: A tradução católica traduz comunhão como reunião em comum, ao passo que todas as outras traduzem como comunhão.

 

Vs 43
Tradução E havia temor em cada alma, muitos prodígios e sinais eram feitos por meio dos apóstolos.
ARA Em cada alma havia temor, e muitos prodígios e sinais eram feitos pelos apóstolos.
ACF E em toda a alma havia temor, e muitas maravilhas e sinais se faziam pelos apóstolos.
NVI Todos estavam cheios de temor, e muitas maravilhas e sinais eram feitos pelos apóstolos.
Católica De todos eles se apoderou o temor, pois pelos apóstolos foram feitos também muitos prodígios e milagres em Jerusalém e o temor estava em todos os corações.

 

Comentário: A tradução católica traduz o versículo optando pelos manuscritos P74 e o Sinaítico[5] incluindo “em Jerusalém e o temor estava em todos os corações” que não está presente nas demais traduções. Todas as demais seguem a versão NA28.

 

 

Vs 44
Tradução E todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum.
ARA Todos os que criam estavam unidos e tinham tudo em comum.
ACF E todos os que criam estavam juntos, e tinham tudo em comum.
NVI Todos os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum.
Católica Todos os fiéis viviam unidos e tinham tudo em comum.

 

Comentário: Não há grandes diferenças entre as traduções.

 

Vs 45
Tradução E vendiam tanto as propriedades quanto os bens e distribuiam entre todos segundo a necessidade que as pessoas tinham.
ARA E vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um.
ACF E vendiam suas propriedades e bens, e repartiam com todos, segundo cada um havia de mister.
NVI Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade.
Católica Vendiam as suas propriedades e os seus bens, e dividiam-nos por todos, segundo a necessidade de cada um.

 

Comentário: A ARA e a ACF traduzem o verbo imperfeito “διεμέριζον” como repartiam. Já a versão Católica traduz como dividiam-nos. Tanto a NVI como nossa tradução optou por distribuíam.

 

Vs 46
Tradução E diariamente perseverando com uma só mente no templo e partindo o pão em cada casa, tomavam refeição em alegria e sinceridade de coração,
ARA E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam com alegria e singeleza de coração,
ACF E, perseverando unânimes todos os dias no templo, e partindo o pão em casa, comiam juntos com alegria e singeleza de coração,
NVI Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e sinceridade de coração,
Católica Unidos de coração freqüentavam todos os dias o templo. Partiam o pão nas casas e tomavam a comida com alegria e singeleza de coração,

 

Comentário: A NVI não traduz a palavra “ὁμοθυμαδὸν”, traduzindo como continuavam. A ARA e ACF traduzem como “unânimes”, enquanto a Católica traduz como “unidos de coração”. Nós optamos por “com uma só mente”.

A palavra “ἀφελότητι” é traduzida como “singeleza” pela ARA, ACF e Católica, enquanto a NVI e nós optamos por “sinceridade”.

 

Vs 47
Tradução louvando a Deus e tendo a graça de todo o povo. E o Senhor acrescentava lhes os que iam sendo salvos diariamente.
ARA louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E cada dia acrescentava-lhes o Senhor os que iam sendo salvos.
ACF Louvando a Deus, e caindo na graça de todo o povo. E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar.
NVI louvando a Deus e tendo a simpatia de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava todos os dias os que iam sendo salvos.
Católica louvando a Deus e cativando a simpatia de todo o povo. E o Senhor cada dia lhes ajuntava outros que estavam a caminho da salvação.

 

Comentário: “ἔχοντες χάριν” é traduzido como “cativando a simpatia” na versão Católica. Enquanto é traduzida como “caindo na simpatia” na ARA e ACF e “tendo a simpatia” na NVI e na tradução do presente trabalho.

O verso “προσετίθει τοὺς σῳζομένους καθʼ ἡμέραν ἐπὶ τὸ αὐτό ” é traduzido como “cada dia lhes ajuntava outros que estavam caminho da salvação”. Todas as demais seguem o texto grego.

 

2.1.4) Estrutura do Texto

 

E eles estavam (oração principal)

perseverando na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações. (sentença participial)

E havia temor em cada alma,

e muitos prodígios e sinais eram feitos por meio dos apóstolos.

E todos os que creram (sentença participial)

estavam juntos (oração principal)

e tinham tudo em comum. (oração coordenada)

E vendiam tanto as propriedades quanto os bens (oração principal)

e distribuiam entre todos segundo a necessidade que as pessoas tinham. (oração coordenada)

E diariamente perseverando com uma só mente no templo (sentença participial)

e partindo o pão em cada casa, (sentença participial)

tomavam refeição em alegria e sinceridade de coração, (oração principal)

louvando a Deus (sentença participial)

e tendo a graça de todo o povo. (sentença participial)

E o Senhor acrescentava (oração principal)

os que iam sendo salvos diariamente para ele mesmo. (sentença participial)

 

2.1.5) Comentário

Vs. 42 ἦσαν δὲ προσκαρτεροῦντες τῇ διδαχῇ τῶν ἀποστόλων καὶ τῇ κοινωνίᾳ, τῇ κλάσει τοῦ ἄρτου καὶ ταῖς προσευχαῖς.

Vs. 42 E eles estavam perseverando na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações.

Lucas registra como viviam os novos convertidos pela pregação de Pedro após o Pentecostes. Ele inicia com o verbo ἦσαν (estavam), que está no imperfeito habitual, nos dando uma ideia de uma atividade que ocorre regularmente no passado.[6] Em seguida, Lucas enfatiza quatro elementos da vida da igreja naquele momento. O verbo particípio “perseverando” é um particípio de modo que mostrara como eles estavam continuamente perseverando. Segundo Marshal[7], esses quatro elementos caracterizam uma reunião cristã na igreja primitiva, mais do que uma visão de elementos independentes. Os quatro elementos citados após o verbo “perseveravam” são dativos de modo[8], ou seja, especificam como a igreja persevera.

O primeiro elemento citado por Lucas é “na doutrina dos apóstolos” (τῇ διδαχῇ τῶν ἀποστόλων). Essa doutrina era proveniente dos apóstolos de Cristo, que eram os guardiões das palavras de Jesus e foram ensinados diretamente por ele e testemunhas de sua ressurreição. Eles se voltavam constantemente para o ensino apostólico a fim de receberem instrução do evangelho de Cristo[9]. Essa doutrina deveria ser a base de sustentação e direcionamento da igreja. Em At 2.43, o ensinamento dos apóstolos está diretamente ligado aos sinais e maravilhas que estes realizaram, relembrando o verso de At 1.1, que remonta ao evangelho de Lucas, onde foi registrado tudo o que Jesus começou “a fazer e ensinar”.[10]

O segundo elemento é “e na comunhão” (καὶ τῇ κοινωνίᾳ). Alguns afirmam que essa palavra tem a ver com uma refeição comum ou uma experiência religiosa da qual todos participavam[11]. A palavra κοινωνίᾳ vem de κοινός, “comum”. Uma relação entre indivíduos que tem interesses mútuos em comum que leva a uma participação ativa e interesse nas necessidades do próximo. [12] Assim, a tradução mais comum é “comunhão”, como em 1 Coríntios. 10.16; 2 Co 13.14. Em Filipenses 1.5: “a sua cooperação no evangelho”, significando a cooperação no sentido mais amplo; participação em simpatia, sofrimento e trabalho. Ocasionalmente, ele é usado para expressar a forma particular que o espírito de comunhão assume; como em Rm 15.26; Hb 13.16, onde ele significa a doação de esmolas, mas sempre com ênfase no princípio da comunhão cristã em compartilhar a necessidades dos irmãos. A primeira declaração denota uma prática geral, universal: todos os que criam estavam no mesmo lugar e tinham tudo compartilhado (2.44). A unidade da comunidade é empiricamente demonstrado pela sua partilha de todos os bens. Essa prática é desenvolvida em 2.45: Eles estavam vendendo suas propriedades e posses e distribuindo a todos, segundo cada um havia uma necessidade.[13]

O terceiro elemento que demonstra como a igreja perseverava é “no partir do pão” (τῇ κλάσει τοῦ ἄρτου) que é a maneira utilizada pelo Apóstolo Paulo para se referir à ceia do Senhor. O verbo “partir” (κλάσει) é usado por Lucas apenas na frase partir do pão. O κλάζω verbo parentesco ou κλάω, “para quebrar”, ocorre frequentemente, mas, como o substantivo de partir o pão. Daí usado para designar a celebração da Ceia do Senhor.[14] É possível que Lucas esteja falando tanto da festa Ágape[15] de comunhão, quanto de refeições em comum, quanto da Ceia do Senhor. Partindo … pão (2.46) é uma abreviação de Lucas para a Ceia do Senhor e refere-se a um aspecto da adoração corporativa da igreja primitiva. Além disso, ao partilhar o alimento com alegria e humildade, a comunidade estava seguindo o exemplo de Jesus. Mais do que qualquer dos outros relatos evangélicos, o Terceiro Evangelho descreve regularmente Jesus à mesa. Como um comentarista colocou, no Evangelho de Lucas, Jesus é “ou vai, a partir de, ou em uma refeição!”.[16]

O último elemento citado por Lucas é “nas orações”. É possível que aqui os cristãos observavam as horas de oração marcadas pelos judeus (At 3.1)[17] Os crentes se dedicavam à oração (2.42d) e é dado o conteúdo em At 2.47: Eles louvaram a Deus e tiveram seu favor. Sua oração tem uma dimensão vertical na comunidade louvando a Deus (Lc 24.53), e uma dimensão horizontal levando-os a contarem com a simpatia do povo.[18]

Portanto, percebemos que Lucas destaca os elementos essenciais presentes na igreja primitiva: a doutrina, a comunhão, o partir do pão e as orações na prática religiosa da igreja cristã em Jerusalém. É possível vermos um paralelismo entre os quatro elementos citados neste versículo e o conteúdo desse resumo exposto nos versículos a seguir, a saber: 1a) doutrina e 1b) sinais dos apóstolos no vs 43; 2a) comunhão e 2b) todas as coisas em comum no vs 44; 3a) no partir do pão e 3b) partiam pão de casa em casa no vs 46; 4a) nas orações e 4b) louvor a Deus no vs 47. A seguir explicaremos cada um dos versículos que estão em paralelo com o resumo do vs 42.

Vs. 43 Ἐγίνετο δὲ πάσῃ ψυχῇ φόβος, πολλά τε τέρατα καὶ σημεῖα διὰ τῶν ἀποστόλων ἐγίνετο.

Vs. 43 E havia temor em cada alma, muitos prodígios e sinais eram feitos por meio dos apóstolos.

O verbo “havia” (Ἐγίνετο) é um imperfeito iterativo[19], ou seja, uma ação repetida no passado. O temor veio e continuava sobre os cristãos da igreja primitiva. O termo “sobre toda alma” (πάσῃ ψυχῇ) é dativo de possessão[20] que mostra que a alma foi empossada de temor. O temor sobreveio e ficou sobre eles. Lucas descreve aqui a impressão de que toda a ocorrência e, em particular, a conversão inegavelmente sincero de um número tão grande feito da multidão, mesmo em não-convertidos. Um temor santo os domina, pois estavam inconscientemente levados a reconhecer a mão de Deus, e eles viram e sentiram seu poder. Eles também podem temporariamente ter tido um pressentimento de que “ira vindoura”, que virá sobre os inimigos obstinados de Deus e perceberam que estavam nessa situação.[21] Além disso podiam sentir a proximidade Deus em seu meio e isso causa temor.[22] No vs. 43 e em outros lugares escritos por Lucas (Lucas 1.12, 65; 7.16; Atos 5.5,11; 19.17) o termo φοβος é usado para se referir a reverência religiosa, por causa dos sinais e maravilhas (4.30; 5.12), para vir sobre “cada alma” (ψυθη παση). Lucas demonstra que o efeito dos milagres é a autenticidade da obra de Deus na vida dos seguidores de Jesus. Jesus dotou os apóstolos de autoridade para realizar milagres. As palavras “muitos prodígios e sinais” ecoam com a profecia de Joel e constituem seu cumprimento (Joel 2.19; 2.30).[23]

O verbo “eram feitos” (ἐγίνετο) é um imperfeito médio-passivo, que revela tanto a continuidade dos sinais feitos pelos apóstolos, quanto o interesse particular dos apóstolos em efetuar os sinais a fim de comprovarem sua autoridade apostólica no ensino, como enviados pelo Senhor Jesus, e fazendo os mesmos sinais que ele fazia. Em At 2.43, o ensinamento dos apóstolos está diretamente ligado aos sinais e maravilhas que estes realizaram, relembrando o verso de At 1.1, que remonta ao evangelho de Lucas, onde foi registrado tudo o que Jesus começou “a fazer e ensinar”.[24]

 

Vs. 44, 45 πάντες δὲ οἱ πιστεύοντες ἦσαν ἐπὶ τὸ αὐτὸ καὶ εἶχον ἅπαντα κοινά, καὶ τὰ κτήματα καὶ τὰς ὑπάρξεις ἐπίπρασκον καὶ διεμέριζον αὐτὰ πᾶσιν καθότι ἄν τις χρείαν εἶχεν·

Vs 44, 45 E todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum, e vendiam suas propriedades e bens e os repartiam por todos, segundo a necessidade de cada um.

A partir de agora Lucas aparentemente trata de uma descrição mais geral a respeito da vida dos cristãos da igreja primitiva.[25] Tanto no culto, quanto também em suas vidas, mostrando que o culto influenciava no modo de viver dos novos convertidos. Os vs. 44-45 devem ser considerados juntos. O verbo “estavam juntos” (ἦσαν ἐπὶ τὸ αὐτὸ) é um imperfeito que mostra a continuidade da comunhão que tinham. A frase επι το αυτο é um passo importante, e parece tanto aqui como no vs. 47 (assim como em outros lugares nos quatro primeiros capítulos de Atos, 1.15; 2.1; 4.26).. A intenção de usar a frase quer dizer algo sobre a unidade ou a união dos primeiros cristãos, mesmo que a sua tradução precisa pode ser debatida. Geralmente parece significar algo como “juntas”, ou em v. 47 “na comunidade”, ou “de comum acordo” ou “na montagem.” Ele se refere a um grupo reunido em harmonia uns com os outros. Curiosamente, o equivalente hebraico (hayahad) é algo de um termo técnico para a comunidade de Qumran.[26]

Além disso “tinham” (εἶχον) tudo em comum (κοινά). Aqui Lucas relata o tipo de comunhão que os cristãos tinham em Jerusalém. Não era uma comunhão aparente, ou em algumas áreas, mas tinham tudo em comum. Neste caso é necessário entender o que significa o “ter tudo em comum” e também o verbo “vendiam” (ἐπίπαρασκον) seus bens (κτήματα, imobiliário, ὑπάρξεις, bens pessoais). Neste caso, cada cristão que tinha alguma propriedade ou bem pessoal, não considerava isso exclusivamente seu, antes compartilhava com seus irmãos e colocava seus bens à serviço do Reino.[27] O caso aqui não significa que todos venderam todas as suas propriedades, mas que quando havia necessidade de vender, seja para cumprir a lei, seja para ajudar os necessitados, eles o faziam e “distribuíam” (διεμέριζον) conforme a necessidade de cada um. Deve-se notar que essa comunidade vendia seus bens de maneira voluntária, pois não tinha ninguém ou lei que a obrigasse a vender os que tinham[28].

O verbo pretérito imperfeito aqui sugere que esta não era uma ocorrência de uma única vez, mas sim uma prática passada recorrente, presumivelmente realizada sempre necessidade surgiu. Aqui, é suficiente assinalar que tomados em conjunto, os vs. 44-45 de maneira nenhuma sugerem uma espécie de comunismo, ou algum tipo de sistema onde não havia propriedade privada. Em vez disso, o que é descrito aqui é que ninguém estava reivindicando qualquer direito exclusivo de propriedade que tinha, e quando a necessidade surgiu os primeiros cristãos prontamente venderam alguns bens que tinham para cuidar das necessidades companheiros dos crentes. Podemos perceber isso mais claramente em Atos 4.32-5.11, quando Ananias e Safira são censurados, não porque eles não deram tudo (Pedro frisa que não tinham nenhuma obrigação de dar nada), mas porque eles mentiram sobre a quantia que deram. [29]

 

Vs. 46 καθʼ ἡμέραν τε προσκαρτεροῦντες ὁμοθυμαδὸν ἐν τῷ ἱερῷ, κλῶντές τε κατʼ οἶκον ἄρτον, μετελάμβανον τροφῆς ἐν ἀγαλλιάσει καὶ ἀφελότητι καρδίας,

Vs. 46 E diariamente perseverando com uma só mente no templo e partindo o pão em cada casa, tomavam refeição em alegria e sinceridade de coração,

Lucas descreve a vida cristã e utiliza o termo todos os dias para isso. Os cristãos vão ao templo, reunindo-se nos pátios, provavelmente no pórtico de Salomão (Atos 3.11; 5.12) para oração e louvor a Deus.[30] Além disso, se reúnem nas casas para comer pão em unidade. Eles estavam às vezes no templo, às vezes em uma casa particular. Os cristãos primitivos repetiam fielmente suas visitas ao templo, como o ponto central do culto israelita, e o santuário comum de toda a nação. Eles não queriam, mesmo que remotamente, fundar uma seita, ou tornar-se separatistas, ou desejavam organizar uma comunhão religiosa diferente da antiga aliança formando algo novo. Pelo contrário, eles participaram com tanto zelo e fervor como quaisquer outros, nos serviços do templo, e cumprido todas as horas prescritas de oração; e este curso ajudou na assegurando-lhes o favor de todas as pessoas conforme veremos no vs. 47. Mas eles também regularmente estavam juntos em uma casa privada (κατ’ οἶκον), onde formaram uma comunhão própria.

A palavra “uma só mente” (ὁμοθυμαδὸν) é traduzida muitas vezes como unânimes. Essa palavra ocorre doze vezes em todo Novo Testamento, sendo dez delas no livro de Atos. É uma palavra que está intimamente ligada com a igreja primitiva. Era uma igreja singular porque tinha uma só mente. Essa palavra nos dá a ideia de em uníssomo, trazendo uma imagem musical, onde um conjunto de notas, mesmo diferentes, harmonizam em grau e tom. Assim como os diferentes instrumentos entram em harmonia em uma orquestra dirigida por um maestro, assim o Espírito Santo harmoniza a vida dos membros da igreja de Cristo. A expressão “uma só mente” é tipicamente hebraica”[31] pois no Antigo Testamento essa expressão era utilizada como em Deuteronômio 6.5: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força”, e isso se repete em Dt 10.12, 11.13 e 13.3. Além disso, o Senhor Jesus reafirmou essas palavras em Marcos 12.30: “Amarás, pois o Senhor Teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força”. Dessa forma, como todos amavam a Deus com toda sua mente, então tinham um entendimento único, voltado para Deus.

Em seguida, Lucas enfatiza que eles “partiam o pão de casa em casa” (κλῶντές τε κατʼ οἶκον ἄρτον) mostrando a maneira pela qual os crentes partilhavam tanto da comida diária quanto a ceia do Senhor. Afrase κλᾷν ἄρτον inclui também o elemento sagrado do culto. Assim, a vida do corpo e da vida do espírito reciprocamente era alimentada tanto pelas refeições diárias de casa em casa, quanto na ceia do Senhor instituída pelo Senhor Jesus para a comunhão da igreja.[32] O destaque especial é dado ao ato de partir pão (κλᾷν ἄρτον), que dificilmente seria digno de nota, uma vez que era algo que necessariamente deveria acontecer. Porém Lucas utiliza esta frase mostrando que a harmonia dos cristãos no templo expandia para os lares, onde comiam juntos com alegria e humildade de coração. Em Atos, a palavra alegria (ἀγαλλιάσει) é repetida muitas vezes, dando ênfase à influência do Espírito Santo (Atos 8.8, 39; 13.48, 52; 15.3; 16.34).[33] Por outro lado, a palavra sinceridade (ἀφελότητι) ocorre apenas uma vez em todo Novo Testamento. É uma palavra proveniente de φελλoς que era uma pedra na qual se bate o pé, um terreno plano e macio, sem qualquer pedra que deixe o terreno acidentado.

 

Vs. 47 αἰνοῦντες τὸν θεὸν καὶ ἔχοντες χάριν πρὸς ὅλον τὸν λαόν. ὁ δὲ κύριος προσετίθει τοὺς σῳζομένους καθʼ ἡμέραν ἐπὶ τὸ αὐτό.

Vs. 47 louvando a Deus e tendo a graça de todo o povo. E o Senhor acrescentava lhes os que iam sendo salvos diariamente.

Lucas conclui dizendo que o Senhor acrescentava novos convertidos à igreja. Nesse caso, Lucas emprega o título de Senhor (κύριος) como o agendte na obra de salvar seu povo, cumprindo a profecia de Joel 2.32 “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo”. Esse termo deve ser considerado como “estavam sendo salvos”, não em um sentido gradual de salvação individual, mas em salvação diária de indivíduos, que iam sendo acrescentados à igreja.[34] Esses primeiros cristãos foram caracterizados por terem alegria e serem sinceros diante de Deus e isso os levou a louvarem a Deus, e com a boa vontade dos judeus locais em geral. O resultado foi que Deus diariamente adicionava os que iam sendo salvos a essa comunidade. A sua presença e testemunho eram contagiantes.[35] A palavra graça (χάριν) que também significa “favor”, mostra  que os habitantes de Jerusalém viam os cristãos com bons olhos e assim o público em geral tinha uma impressão favorável acerca da comunidade cristã[36]. Portanto aqui a expressão graça de modo geral significa benevolência ou boa vontade, a qual a igreja tinha da multidão por meio da graça de Deus. Calvino menciona que por ajudar tão generosamente os necessitados, eles encontraram favor de pessoas de fora da igreja.[37]

A palavra acrescentava (Προσετίθει) é um imperfeito iterativo[38] que é utilizado como uma ação repetida no passado em um longo período de tempo, dando a ideia de que Deus estava repetidademente acrescentando. A última frase do capítulo é testemunha de que o crescimento externo da igreja não cessou após o dia de Pentecostes, mas, pelo contrário, de forma constante prosseguiu, embora não na mesma maneira impressionante. Este crescimento, porém, não deve ser visto como um processo natural, mas como uma operação da graça, como um ato do exaltado Senhor da Igreja (ὁ κύριος προςετίθει).[39]

 

2.1.6) Mensagem para a Época da Escrita

Lucas escreve o livro de Atos para Teófilo, mas com certeza também tinha em mente que essa mensagem chegasse à igreja e esperava que a sua exposição lhes desse a certeza da sua fé e fortalecesse o compromisso dos cristãos perseguidos[40]. É possível vermos o livro dividido em dois públicos: judeus e gentios.

À medida que desenvolve sua narrativa, mostra uma progressão geográfica de Jerusalém, Samaria e até os confins da terra. Podemos entender que a mensagem da salvação não é apenas para judeus, mas é expandida para todas as nações, gentes de todas as tribos, povos e raças. Lucas ao relatar a perícope de 2.42-47 tem por propósito mostrar aos destinatários como viviam os novos convertidos após a pregação de Pedro em Pentecostes. Revela que a comunidade da fé não era uma comunidade que viviam de aparência, ou que tinham apenas um pensamento em comum, mas uma comunidade que era unânime, com uma só mente, que tinha um cuidado em cuidar dos necessitados, na vida em comunhão, na adoração a Deus. Mostrando-se os verdadeiros cumpridores da lei: amando a Deus acima de todas as coisas e ao seu próximo como a si mesmos. E por causa desse amor, a comunidade percebia que eram verdadeiros discípulos de Jesus e por isso contavam com o favor do povo.

 

2.1.7) Mensagem para todas as Épocas

A mensagem de Lucas é atual e fala para todas as épocas também. Podemos perceber nessa passagem os sinais do verdadeiro avivamento como um modelo a ser seguido, e colocado em contraste com “avivamentos” atuais. A vida da igreja primitiva nos mostra uma igreja que ama, que se doa, que evangeliza, que tem comunhão, que serve e louva a Deus. A igreja era unânime, tinha uma só mente. Essa unidade da igreja envolvia o trabalho tanto na adoração e quanto no serviço. Isso deve ser seguido por nós hoje. Uma igreja bíblica deve perseverar na doutrina dos apóstolos, no ensino correto da palavra de Deus, na comunhão dos santos, partilhando das necessidades do próximo e cuidando dos necessitados da igreja, à medida que surgem. Além disso é chamada a ser uma igreja que persevera na oração, na adoração e que testemunha de Cristo. Assim, Deus é quem acrescentará à igreja aqueles que serão salvos. A igreja não é chamada a buscar padrões ou métodos de crescimento, isso é responsabilidade do Senhor. A igreja deve tão somente viver em obediência à palavra, tanto na mente quanto na prática diária.

 

2.1.8) Teologia do Texto

2.1.8.1) Implicações para a Teologia Bíblica

Culto no Novo Testamento          

A perícope tratada nos traz uma visão do culto cristão no Novo Testamento. Enquanto no Antigo Testamento, tínhamos a figura do Sumo Sacerdote como mediador e líder da comunidade no ensino e nos sacrifícios, agora, no Novo Testamento, temos a figura da doutrina dos apóstolos como base fundante da igreja, e a ceia do Senhor substituindo os sacrifícios. A igreja continua cuidando dos necessitados, como é previsto na lei de Moisés, perseverando nas orações, e adorando a Deus no Templo e nas casas.

2.1.8.2) Implicações para a Teologia Sistemática

Eclesiologia

A primeira lição que o texto nos traz é a perseverança da igreja na doutrina dos apóstolos. A igreja só conseguia viver em unidade, na comunhão, porque perseveravam na doutrina. Em segundo lugar percebemos que a igreja perseverava na comunhão e no partir do pão. A ceia do Senhor era central no culto da igreja primitive, além de os irmãos viverem em união e compartilhando das necessidades uns dos outros, vivendo em obediência aos mandamentos. Por fim, a igreja perseverava nas orações e na adoração. A centralidade da vida da igreja é a adoração a Deus, e quando glorifica ao Senhor, a igreja cresce, tanto em extensão, quanto em profundidade.

Soteriologia

O texto nos mostra a igreja perseverando depois de terem credo, e outros sendo alcançados para a fé cristã pelo testemunho da igreja. Vemos essa salvação levando a igreja à obediência. A verdadeira fé alcança o coração e leva a uma vida regenerada[41]. Essa fé levou os cristãos a praticar boas obras entre os necessitados. Além disso, os apóstolos faziam sinais e maravilhas, comprovando que sua doutrina, de fato era proveniente do Senhor Jesus, uma vez que faziam os mesmos sinais que ele fazia.

2.1.8.3) Implicações para a Teologia Prática

O texto nos leva a entender que a igreja deve buscar um profundamento do conhecimento das escrituras para então viver na prática tais doutrinas. Além disso, é possível entendermos como os cristãos devem se envolver no cuidado dos necessitados, assim como Deus demandava do seu povo no Antigo Testamento. A santidade não está ligada apenas a evitar pecados, mas também em servir o próximo e cuidar daqueles que necessitam. Por fim, vemos que a oração e a adoração a Deus são sinais da verdadeira igreja de Cristo. A igreja cresce em santificação e então cresce numericamente. Não é possível buscar flexibilizar a santidade da igreja para buscar números, isso é anti-biblico. A igreja também deve crescer em comunhão, e então viverá um crescimento em extensão, essa comunhão é a prática do mandamento de amar o próximo como a si mesmo. Por fim, percebemos que o aumento externo da igreja foi resultado do seu crescimento interno. A harmonia e alegria dos cristãos fazia com que os incrédulos os admirasse e posteriormente lhes dessem ouvidos e cressem.[42]

3) Sermão

Título do Sermão: O verdadeiro avivamento

Tema: As marcas de uma igreja verdadeira

Doutrina: Eclesiologia

Necessidade: Os cristãos necessitam de uma visão correta de como a igreja deve viver e buscar ser vista. Não buscando métodos de crescimento, mas uma vida santa e obediente ao Senhor.

Imagem: O ano do Jubileu, era o sábado dos sábados, onde todas as dívidas eram quitadas e todos escravos libertos. Em Atos 2.42-47 vemos os cristãos dispostos e viverem o Jubileu sem ter que esperar por 49 anos para isso. Cristo proclama liberdade e a igreja vive de forma prática essa liberdade em todos os sentidos, seja espiritualmente, seja materialmente.

Objetivo: Causar uma mudança na visão de uma igreja egoísta, centralizada emu ma pessoa apenas, ou que busca métodos de crescimento. Enfatizar a obediência à doutrina, a vida de oração e a comunhão como elementos da verdadeira igreja de Jesus que cresce saudavelmente debaixo da soberania de Deus.

Esboço:

Introdução

Muitas igrejas buscam flexibilizar suas liturgias, suas músicas e sua doutrina a fim de alcançar o máximo de pessoas possível. A igreja primitiva, era obediênte à doutrina dos apóstolos até ao ponto de estarem dispostos à morte e abrir mão de seus bens. O Senhor abençoava aqueles irmãos e a igreja crescia.

Pontos e Subpontos

  • A verdadeira igreja deve perseverar na doutrina (vs 42a, 43)

A igreja aprendia a doutrina dos apóstolos e obedecia. Essa doutrina era ratificada pelos sinais que eram semelhantes aos de Jesus.

  • A verdadeira igreja deve perseverar na comunhão (vs. 42b, 44, 45 e 46)

Eles eram unânimes na doutrina e na prática. Eles tinham tudo em comum e partilhavam das necessidades dos seus próximos. Além de partilhar da mesa do Senhor.

  • A verdadeira igreja deve perseverar nas orações e na adoração (vs. 42c, 47)

A igreja deve perseverar em oração e na adoração a Deus. Não deve enfatizar apenas a doutrina e o serviço, mas também deve viver para glorificar a Deus verticalmente.

Conclusão e Aplicação

Deus chama uma igreja santa para adorá-lo. Essa igreja deve perseverar até o fim. Na doutrina dos apóstolos, na comunhão e nas orações e adoração a Deus.

Diante disso devemos:

  • Buscar a palavra de Deus e o conhecimento aprofundado da doutrina dos apóstolos. Rejeitar cabalmente qualquer doutrina ou mestre que contraria às escrituras.
  • Buscar viver em comunhão com os irmãos. Na ceia do Senhor e partilhando das necessidades dos irmãos. Conhecer os irmãos para compartilhar de suas necessidades, sejam físicas, sejam espirituais.
  • Buscar uma vida devocional ativa de oração e leitura da palavra. Ter práticas de oração diária.

 

Conclusão

Podemos perceber, após esse trabalho de Atos 2.42-47, que a igreja dos novos convertidos perseverava na doutrina dos apóstolos, na comunhão, nas orações e na adoração. Além disso, vendiam suas propriedades para suprir necessidades, não como algo que todos deveriam, ou eram impostos a fazer, mas como algo voluntário, e que ocorria somente quando surgiam necessidades específicas, mas não sendo jamais contra a propriedade privada. Podemos afirmar então categoricamente que não se trata de comunismo, mas um cristianismo verdadeiro que entende o que é mordomia cristã.

Ao viverem o amor cristão, contavam com a simpatia do povo, e adoravam a Deus. E Deus acrescentava à igreja aqueles que iam sendo salvos. Portanto, percebemos que a igreja não é chamada a buscar o crescimento, mas sim conhecer e obedecer à doutrina dos apóstolos, viver em comunhão, oração e adoração a Deus, e assim, Deus dará o crescimento à igreja conforme sua soberania. A igreja não é chamada a buscar resultados, mas a viver em santidade.

 

 

Bibliografia 

[1] TENNEY, Merril; Enciclopédia da Bíblia; São Paulo: Editora Cultura Cristã; 2008, p. 914

[2] GAEBELEIN, Frank E.; The Expositors Bible Commentary – John & Acts; Michigan: Zondervan, 1981, p. 288

[3] ELWELL, Walter A.; Enciclopédia Histórico Teológica da Igreja Cristã; São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 396

[4] WILLIAMS, David John; Atos; São Paulo: Editora Vida, 1996, p. 75

[5] OMANSON, Roger L.; Variantes Textuais do Novo Testamento – Análise e Avaliação do aparato critic de “O Novo Testamento Grego”; Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010; p. 223

[6] WALLACE, Daniel B.; Gramática Grega: Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento; São Paulo: Editora Batista Regular do Brasil, 2009 p. 548

[7] MARSHAL, I. Howard; The Gospel of Luke; Grand Rapids: Eerdmans, 1992, p. 204-206

[8] WALLACE, Daniel B.; Gramática Grega: Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento; São Paulo: Editora Batista Regular do Brasil, 2009 p. 161

[9] KISTEMAKER, Simon; Comentário do Novo Testamento: Atos; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 154s

[10] PARSONS, M. C. Acts. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008, p. 48-51

[11]MARSHAL, I. Howard; Atos; São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 83

[12] VINCENT, M. R.. Word studies in the New Testament. New York: Charles Scribner’s Sons, 1887, volume 1. p. 456s

[13] PARSONS, M. C. Acts. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008, p. 48-51

[14] VINCENT, M. R.. Word studies in the New Testament. New York: Charles Scribner’s Sons, 1887, volume 1. p. 456s

[15] A Festa Agápe era uma refeição comum entre os cristaos na igreja primitiva que se tornou comum no primeiro e Segundo século.

[16] PARSONS, M. C. Acts. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008, p. 48-51

[17] MARSHAL, I. Howard; Atos; São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 83

[18] PARSONS, M. C. Acts. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008, p. 48-51

[19] WALLACE, Daniel B.; Gramática Grega: Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento; São Paulo: Editora Batista Regular do Brasil, 2009 p. 546

[20] WALLACE, Daniel B.; Gramática Grega: Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento; São Paulo: Editora Batista Regular do Brasil, 2009 p. 149

[21] LANGE, J. P., SCHAFF, P., GOTTHARD, V. L., GEROK, C., & SCHAEFFER, C. F. (2008). A commentary on the Holy Scriptures: Acts. Bellingham, WA: Logos Bible Software, p. 56–60

[22] KISTEMAKER, Simon; Comentário do Novo Testamento: Atos; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 156

[23] KISTEMAKER, Simon; Comentário do Novo Testamento: Atos; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 156

[24] PARSONS, M. C. Acts. Grand Rapids, MI: Baker Academic, 2008, p. 48-51

[25] KISTEMAKER, Simon; Comentário do Novo Testamento: Atos; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 156

[26] WITHERINGTON, B., The Acts of the Apostles: a socio-rhetorical commentary ; Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1998, p. 159-163

[27] LANGE, J. P., SCHAFF, P., GOTTHARD, V. L., GEROK, C., & SCHAEFFER, C. F. (2008). A commentary on the Holy Scriptures: Acts. Bellingham, WA: Logos Bible Software, p. 56–60

[28] PATON, Gloag James; A Critical And Exegetical Commentary on the Acts Of the Apostles; p. 163.

[29] WITHERINGTON, B., The Acts of the Apostles: a socio-rhetorical commentary ; Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1998, p. 159-163

[30] KISTEMAKER, Simon; Comentário do Novo Testamento: Atos; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 158

[31] KISTEMAKER, Simon; Comentário do Novo Testamento: Atos; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 234

[32] LANGE, J. P., SCHAFF, P., GOTTHARD, V. L., GEROK, C., & SCHAEFFER, C. F. (2008). A commentary on the Holy Scriptures: Acts. Bellingham, WA: Logos Bible Software, p. 56–60

[33] KISTEMAKER, Simon; Comentário do Novo Testamento: Atos; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 159

[34] KISTEMAKER, Simon; Comentário do Novo Testamento: Atos; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 160

[35] WITHERINGTON, B.; The Acts of the Apostles: a socio-rhetorical commentary; Grand Rapids, MI: Wm. B. Eerdmans Publishing Co., 1998, p. 159-163

[36] KISTEMAKER, Simon; Comentário do Novo Testamento: Atos; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 236

[37] CALVIN, John; Calvin’s Commentaries on the Bible: Acts; in Olive Tree App

[38] WALLACE, Daniel B.; Gramática Grega: Uma Sintaxe Exegética do Novo Testamento; São Paulo: Editora Batista Regular do Brasil, 2009, p. 546

[39] LANGE, J. P., SCHAFF, P., GOTTHARD, V. L., GEROK, C., & SCHAEFFER, C. F. (2008). A commentary on the Holy Scriptures: Acts. Bellingham, WA: Logos Bible Software, p. 56–60

[40] Thielman , Frank. Teologia do Novo Testamento ; uma aborgagem Canônica e Sintética. São Paulo; Schedd Publicações 2007, p. 250.

[41] BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001, p. 463.

[42] Lange, J. P., Schaff, P., Gotthard, V. L., Gerok, C., & Schaeffer, C. F. (2008). A commentary on the Holy Scriptures: Acts (p. 56–60). Bellingham, WA: Logos Bible Software.

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