Colossenses 1.15-20 – A Supremacia de Cristo na Criação e na Redenção

Sermão: Colossenses 1.15-20

Tema: A Supremacia de Cristo na criação e na redenção

Introdução

A maioria das pessoas admira Jesus Cristo. Dificilmente alguma religião do mundo falará mal dos ensinos, da moral, pessoa e obra de Jesus. Contudo, somente os cristãos reconhecem sua divindade. Os muçulmanos elogiam Jesus, confiam em seus milagres, acreditam em seu nascimento virginal (está escrito no Corão), porém para eles, Jesus não é filho de Deus. Os budistas crêem que Jesus atingiu o nirvana. Outros defendem que ele é um profeta, um mártir, um revolucionário. Os testemunhas de Jeová crêem que ele é o “mestre de obras” da criação. A primeira e mais elevada criatura, utilizando inclusive esse texto, que será exposto, para defender suas crenças. Contudo, conforme dizia C. S. Lewis, é impossível crer que ele é um grande mestre da moral, ou um bom homem, pois não nos foi deixada essa opção.

Contexto Histórico

Para entendermos o texto de Cl 1.15-20 precisamos conhecer o contexto da igreja de Colossos, bem como a heresia que ameaçava aqueles irmãos. A igreja de Colossos foi plantada provavelmente durante o ministério de Paulo em Éfeso (At 19.10), e possívelmente fundada por um dos colossenses, de nome Epafras (Cl 1.7, 4.12). É provável também que Paulo não tenha conhecido pessoalmente os colossenses (1.4; 2.1), mas obteve as informações sobre a Igreja através de uma visita que Epafras lhe fez na prisão (Fm. 23), com o objetivo de relatar a situação da igreja, sua firmeza na fé e especialmente o perigo da heresia dentro dela.

Podemos, à luz do conteúdo da carta, perceber os ensinos dos falsos mestres, relatado por Epafras, e a correção por parte do Apóstolo Paulo. À luz do capítulo segundo é possível perceber que a heresia de Colossos era altamente sincrética.

A “heresia dos Colossos” era uma mistura de legalismo judaico, especulação filosófica grega e misticismo oriental combinados com um sabor cristão.[1] Usava a máscara do cristianismo, mas não tinha nada de Cristo.  Essa heresia era em sua essência uma combinação do judaísmo e do paganismo filosófico, com um rótulo de cristianismo. Essa heresia negava a suficiência de Cristo na redenção da alma e plenitude da vida, por isso resistiam em oferecer a Jesus o lugar supremo na igreja.

Diante disso, um dos propósitos de Paulo ao escrever esta carta foi o de combater essa heresia presente na igreja, mostrando a supremacia e suficiência de Cristo.

As ideias erradas que estavam sendo ensinadas pelos falsos mestres pré-gnósticos (pré-gnosticismo, uma vez que o gnosticismo surge apenas no século II d.C.), as quais foram refutadas por Paulo, são[2]:

1) Falsa Filosofia (Cl 2.8), que apesar de afirmar ter descoberto segredos e terem tido visões, negam a preeminência e a suficiência total de Cristo. Não viam em Cristo a única fonte de salvação, insistindo que era possível encontrar a Deus por meio do conhecimento secreto e especial. Em contraste, Paulo afirma que uma pessoa pode ser salva somente por meio de Cristo.[3]

2) Proto-gnosticismo, que considerava a matéria como má, e o imaterial como bom. Portanto diziam que Deus não poderia ter vindo à terra como um ser humano verdadeiro. Porém Paulo afirma que Cristo é a imagem exata de Deus e ao mesmo tempo morreu na cruz como homem. Acreditavam que Deus não tinha criado o mundo, porque um Deus bom não pode ter criado um mundo mau como o nosso. Paulo responde que Jesus Cristo, que também é Deus, é o Criador tanto do céu como da terra.

3) Cerimonialismo Judaico (Cl 2.11,16,17;3.11), que considerava especial o ritual da circuncisão física, às dietas de alimentos e à observância de datas especiais referentes à Lei.

4) Adoração de Anjos (Cl 1.16;2.15;2.18), que também desvalorizada a singularidade de Cristo. Considerando que estes seres angelicais poderiam servir de intermediários para chegar-se a Deus.

Estrutura da Carta

O apóstolo Paulo começa a carta com uma saudação aos santos de Colossos (1.1-2), acompanhada de uma oração de ações de graças (1.3-8). Paulo começa o corpo da carta com uma nota positiva, na qual ele descreve a suficiência de Cristo (1.9–2.7). Em seguida, apresenta uma declaração negativa, na qual ele argumenta contra a opinião dos hereges de Colossos (2.8-3.4). Por fim, ele traz uma convocação para viver a vida cristã à luz da suficiência de Cristo (3.5-4.6) e termina com saudações finais (4:7-18).[4]

A primeira parte da seção apresenta a suficiência de Cristo sobre todas as coisas. Após orar para que os colossenses crescessem no conhecimento e na produtividade (1.9-14), sem um “amém” para a oração, Paulo continua ressaltando a supremacia de Cristo (1.15-20).

 

Argumentação

1) JESUS CRISTO É IGUAL AO PAI (vs 15a)

15 Este é a imagem do Deus invisível (15. ὅς ἐστιν εἰκὼν τοῦ θεοῦ τοῦ ἀοράτου.)

O Filho é “a imagem (εἰκών) do Deus invisível. A própria natureza e caráter de Deus foram perfeitamente revelados nele; nele o invisível tornou-se visível.

Tanto Antigo como Novo Testamento deixam claro que “ninguém jamais viu a Deus.” O quarto Evangelista, no entanto, acrescenta que “o Filho unigênito, que está no seio do Pai, o tornou conhecido” (João 1.18). Uma declaração semelhante é feita em outros lugares por Paulo, que, provavelmente, com a experiência da estrada de Damasco em mente, afirma que “a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus (εἰκὼν τοῦ θεοῦ)” tinha amanhecido sobre dele (2 Co 4.4). O mesmo ponto é feito de outra maneira pelo escritor aos Hebreus que Cristo é o “brilho (ἀπαύγασμα) da glória de Deus e a própria expressão do seu ser” (Hebreus 1.3).

Deus jamais permitiu que fizessem imagem dele. Seria uma quebra do Segundo mandamento. O homem tem o desejo de ver, mas Deus é invisivel. Filipe, em João 14, diz a Jesus: mostra-nos o Pai e a resposta do Senhor é: Quem me vê, vê o Pai.

Muitas vezes a igreja procurou representações físicas de Deus utilizando de imagens. E por isso pecou contra o Senhor e caiu em idolatria.

Contudo, Paulo afirma que Jesus Cristo é a imagem do Deus invisível. A segunda pessoa da trindade é aquele que revela a Deus. O verbo de Deus. Ele é quem faz Deus conhecido através de suas palavras, ensino, obra e atitude.

No AT muitas vezes temos Deus se revelando em teofanias, as quais alguns teólogos defendem ser o filho revelando o Pai. Calvino defende que o Anjo do Senhor no AT é o próprio Cristo.

A palavra traduzida por “imagem” (εἰκὼν – substantivo nominativo feminino singular) é usada no grego em outros textos como: 1. Uma imagem de César sobre uma moeda (Mt 12.16). 2. Uma representação da estátua de Nabucodonosor (LXX: Dn 3.1). 3. O homem, criado como uma representação visível de Deus (1 Co.11.7).

Podemos ver que em ambos os textos onde Paulo afirma que Cristo é a εἰκών (“imagem”) de Deus (aqui e em 2 Coríntios 4.4), o foco está na revelação de Cristo como sendo igual em essência a Deus.

Jesus Cristo é a expressão exata do ser de Deus. A perfeita imagem do Pai. O ápice da revelação de Deus. Ao olhar para Cristo, vemos plenamente a Deus:

– o mesmo Deus que acalmou o mar e tempestade, é o mesmo Deus que abriu o mar vermelho.

– o mesmo Deus que multiplicou pães, é o Deus que fez pão cair do céu.

– o mesmo Deus que purifica o templo, é o Deus que destrói Nadabe e Abiú por levantarem fogo estranho perante o Senhor.

– o mesmo Deus que veio buscar e salvar o perdido, é o Deus que deseja salvar os homens no AT.

Jesus Cristo revela plenamente a Deus por meio de suas obras e atributos (perdão de pecados, criação, autoridade sobre a criação, sobre o mundo espiritual, etc). Além disso, tanto o AT quanto o NT apontam para sua plena divindade (Is 9.6, Mq 5.2, Jo 1.1, Jo 8.58, Jo 14.6).

Não há nada maior em termos de revelação da parte de Deus. Não há nada mais a ser buscado fora da pessoa de Cristo.

2) A Supremacia de Cristo na Criação

Dos versos 15b a 16, Paulo fala da Supremacia e centralidade de Cristo em relação à criação, e mostra que o universo foi criado no Filho (ἐν αὐτῷ – a esfera da criação) por meio dele (ἐν αὐτῷ – como o agente divino da criação), para ele (εἰς αὐτόν – como o objetivo ou alvo da criação).[5]

o primogênito de toda a criação;

O termo grego primogênito (πρωτότοκος) pode se referir tanto a primeiro na ordem do tempo, como um primeiro filho, ou poderia se referir a alguém que é de destaque na classificação. O primogênito (como traz a ARA, NVI e ACF) era filho mais velho de uma família ou uma pessoa de posição preeminente. A LXX usa este termo para descrever o rei Davi no Salmo 89.27. Aqui a ênfase parece estar sobre a prioridade de classificação de Jesus acima e além da criação.[6] Esse termo, frequentemente foi usado na LXX para designer aquele que teve um lugar especial no amor do pai. Israel é chamado de “meu amado filho” (υἰὸς πρωτότοκός μου, Ex 4:22), uma frase que expressa a relação particularmente estreita entre Deus e Israel.

De toda criação: genitivo de subordinação (sobre toda a criação). Não é no sentido de fazer parte, mas de preceder toda criação e ser soberano sobre ela.

16 pois, nele, foram criadas todas as coisas, (16. ὅτι ἐν αὐτῷ ἐκτίσθη τὰ πάντα.)

A declaração sobre a posição única de Cristo como “o primogênito de toda a criação” é dado agora a prova mais explícita nas palavras: “porque (ὅτι) nele todas as coisas foram criadas”.

Nele (ἐν αὐτῷ): dativo locativo. Ele é a base sobre a qual todas as coisas podem existir. Deve ser entendido como “em sua mente” ou “em sua esfera de influência e responsabilidade”. Isso significa que Jesus concebeu a criação e as suas complexidades.[7] Hendriksen ilustrou esta verdade dizendo que Jesus é a pedra angular de todo o edifício que leva a sua orientação e direção.[8]

nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades.

“Céus” correspondem a “invisível” assim como a “terra” corresponde a “visível”. Todas as coisas foram trazidas à existência pelo ato criativo de Deus em Cristo.[9]

Dentro deste mundo criado, Paulo destaca as coisas invisíveis, listando em quatro classes de poderes angelicais: “tronos” (θρόνοι) e “domínios” (κυριότητες, cf. 1 Co 8.5.); “principados” (ἀρχαί) e “poderes” (ἐξουσίαι). Estes poderes provavelmente representavam na filosofia pré-gnóstica a maior ordem do reino angelical. Assim, Paulo afirmou que Cristo é superior a todos os seres angélicos, inclusive os mais sublimes (cf. Hb 1.1-14). Bons ou ruins todos eles estão sujeitos a Cristo como Criador. Com a heresia de Colossos em mente, o apóstolo insiste que qualquer outro ser criado é totalmente incapaz de rivalizar com Cristo.[10]

O argumento que Paulo desenvolve no capítulo 2 é que eles foram vencidos por esse mesmo Senhor. Nada precisa ser aplacado. Eles derivam sua existência dele, e eles devem a sua obediência a ele por meio do qual eles foram conquistados (2.10,15). Como dizia Lutero: até o diabo, é diabo de Deus”.

Tudo foi criado por meio dele e para ele.

Nele foram criadas… tudo foi criado por meio dele e para ele

O primeiro verbo criar está no aoristo enquanto o segundo está no perfeito. Sendo que inicialmente revela o ato histórico de todas as coisas serem criadas em Cristo. Porém ao final do versículo, Paulo enfatiza o estado permanente da criação (contínua existência).[11] Não é que ele criou apenas, o que foi criado, permanece por causa dele, e para ele. Isso inclui cada um de nós.

Após falar da supremacia de Cristo sobre a criação (verso 15), Paulo passa a descrever a centralidade de Cristo na mesma. No verso 16, ele cita três formas específicas em que Cristo e a criação são relacionados: “nEle foram criadas todas as coisas”… “Tudo foi criado por meio dele” e finalmente “tudo foi criado para ele”.

Por meio dele (διʼ αὐτοῦ): deve ser entendido como o instrumento pelo qual todas as coisas foram criadas. Jesus, que é a imagem de Deus, e o primogênito de toda a criação, é o instrumento pelo qual Deus usou para criar todas as coisas. (cf. Jo 1 e Gn 1).

Por fim, o Apóstolo assevera que além de ser o início e o meio, Cristo é também o τέλος (fim) da criação. Ele é a razão para a qual todas as coisas existem, a meta para a qual todas as coisas tinham a intenção de se mover. Toda criação é destinada “para servir a Sua vontade, contribuir para a Sua glória”.[12] Ele é o propósito da existência de todas as coisas. O universo é cristocêntrico.

17 Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.

Possivelmente envolvendo uma antítese com alguns erros da Igreja de Colossos. Paulo começa dizendo novamente que ele (Jesus) e nenhum outro existe antes dele.

Em Jo 8.58 temos o fato de que Jesus existe antes de Abraão. Não apenas existe, mas é o EU SOU. Por isso Paulo diz que ELE É, existe antes de todas as coisas, e além disso, tudo permanece por ele.

Por causa dele, por meio dele, tudo continua. Tudo existe. Tudo pode continuar existindo. Porque ele é o sustentador de todas as coisas (Hb 1.3).

O verbo subsiste (συνέστηκεν – verbo indicativo perfeito ativo 3a pessoa singular) significa, neste contexto, “manter juntos”, “coerentes”.[13] O tempo perfeito, aponta para o fato que, o universo teve e continua tendo sua coerência contínua em Cristo.

Calvino lembra que o Criador não esqueceu a criação. Ele diariamente mantém o equilíbrio no universo.[14] Sem ele, a gravidade deixaria de funcionar, os planetas não permaneceriam em suas órbitas. Ele é o sustentador do universo e o princípio unificador de sua vida. Para além da sua atividade de sustentação contínua (συνέστηκεν – tempo perfeito) tudo se desintegraria.[15]

Cristo é o elo que une todas as coisas. Ele sustenta todas as coisas com a palavra do seu poder.

 

3) A Supremacia de Cristo na Redenção

18 Ele é a cabeça do corpo, da igreja.

Jesus Cristo não apenas tem a supremacia sobre toda a criação porque é a origem e o meio pelo qual todas as coisas foram criadas, como também todas essas coisas são para ele. Ele também é supremo em tudo aquilo que é redimido por ele. Ele é a origem e o meio pelo qual a criação é redimida.

Paulo novamente envolve uma antítese entre Cristo e os demais poderes espirituais. Paulo começa dizendo novamente que, Ele e nenhum outro, é o cabeça do corpo. A analogia feita por Paulo lança luz a esta ideia. O corpo (igreja) e a cabeça (Cristo) formam um organismo vivo, composto por membros. Juntos, eles constituem uma unidade viva. O corpo não permanece vivo sem a cabeça. Os hereges diziam que era possível viver plenamente sem Cristo. Paulo afirma que somente Ele é a cabeça que dá vida ao corpo. Calvino afirma que Cristo, como cabeça da igreja, é o seu chefe, que a guia e rege. Ele tem autoridade para governar a Igreja, a quem os fiéis devem olhar e seguir, e a quem a unidade do corpo depende somente.[16] Em suma, Cristo é a esfera na qual a igreja foi criada (v. 15,16), a fonte de sustento (17) e a direção (18).

Paulo se coloca contra os falsos mestres que ensinavam que a experiência espiritual final tinha que ser encontrado em lugares fora de Cristo, tais como filosofia (2: 8-10), legalismo (2: 11-17), misticismo (2:18-19), asceticismo (2:20-23), Paulo mostra que se Cristo é o único Senhor da igreja tudo que precisamos reside Nele. A igreja depende dele tanto para a salvação quanto para a vida.

Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos,

Ele é o princípio de todas as coisas. Ilustração: Tales de Mileto. Anaxímeres. Anaximandro. Busca pelo arché (ἀρχή). Pelo princípio de todas as coisas.

No verso 15, primogênito (πρωτότοκος) sugere tanto a precedência no tempo como a supremacia. Aqui temos uma ideia predominante de precedência cronológica. Cristo é o primeiro a ressuscitar sem morrer novamente (diferentemente das pessoas que foram ressuscitadas, mas voltaram a morrer). Ele é o que inicia a ressurreição escatológica (cf. 1Co. 15.20). Jesus Cristo é o inaugurador de uma nova humanidade.[17]

para em todas as coisas ter a primazia,

Paulo já havia afirmado a precedência de Cristo na criação, mas agora menciona sua primazia na ressurreição. Em ambas (criação e nova criação) tudo vem dele e é para ele. Ele tem a primazia tanto na criação quanto na nova criação.

O verbo “ter a primazia” (πρωτεύω) ocorre apenas aqui no Novo Testamento e traz a ideia de “ter o primeiro posto”. É a intenção do Pai que todas as coisas sejam resumidas em Cristo (Ef 1.10).[18]

19 porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude

A palavra ὅτι (“porque”) é uma conjunção de subordinação causal, que introduz a razão pela qual o Filho é supremo na igreja. A supremacia de Cristo também está ligada ao propósito eterno de Deus, de que única e exclusivamente nele toda a plenitude habitasse.

O verbo “aprouve” (εὐδοκέω) que significa “estar satisfeito”, e que muitas vezes aparece na AT revelando o beneplácito de Deus (Sl 44.3; 147.11; 149.4) é particularmente utilizado para designar eleição divina.

De especial significado é a conexão entre a escolha de Deus e a sua morada. Esta conjunção ocorre repetidamente e, na ocasião, os mesmos dois verbos de Colossenses 1.19, εὐδοκέω (aprouve) e κατοικέω (habitar) são empregados. Sião é “a montanha em que aprouve a Deus habitar” (εὐδόκησεν ὁ θεὸς κατοικεῖν ἐν αὐτῷ – LXX Sl 67.17; cf. LXX Sl 131.13,14).

Em Colossenses 1.19, na pessoa de Cristo, vemos que ele é a pessoa em quem Deus, teve o prazer de fazer habitar toda a sua plenitude. Todos os atributos e atividades de Deus: o seu Espírito, palavra, sabedoria e glória residem perfeitamente em Cristo.

O verbo aoristo “residisse” (κατοικῆσαι) é um aoristo constativo e faz uma referência ao fato de que a plenitude de Deus habita em Jesus Cristo.

A palavra plenitude (πλήρωμα) tem um paralelo com “plenitude da divindade” (2.9). Nesse sentido o Filho encarnado era e é a plenitude de Deus, ou seja, possui todos os atributos da essência divina.

Os falsos mestres em Colossos estavam convidando os cristãos para experimentar “plenitude” verdadeira, seguindo sua filosofia (2.8) e regras humanas (2.16-23), a que Paulo responde: a plenitude que vocês estão procurando só pode ser encontrada em Cristo. Paulo enfatiza que Cristo era a única coisa que os cristãos de Colossos precisavam para receber a redenção da alma e plenitude da vida.

20 e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz,

Paulo continua mostrando que a cruz é o instrumento vital para a reconciliação. É na cruz que Cristo se tornou o substituto do corpo que é a igreja e pagou o preço pelos pecados de cada eleito.  Essa mensagem da Cruz, que para os filósofos era loucura, para os legalistas era escândalo, mas é o meio de reconciliação e salvação para os que creem.

Embora não tenha havido afirmação da queda, o pressuposto é que a harmonia do cosmo sofreu uma desordem, uma ruptura, exigindo, portanto, a reconciliação, a redenção por meio de Cristo, que é o criador, e aquele que redime o universo caído para uma nova criação.

por meio dele,

Cristo é o único meio de reconciliação com o Pai. “Por meio dele” envolve mais uma vez uma antítese entre Cristo e os demais poderes espirituais. Ele aponta para Cristo como o único agente de reconciliação. Os falsos mestres estavam dizendo que os anjos poderiam de alguma forma aproximar os homens a Deus.  Em contrapartida, Paulo diz que, Jesus Cristo é o único meio de reconciliação e sua morte na cruz, o único método que Deus escolheu para usar. O Pai que soberanamente, quis reconciliar todas as coisas através do Filho.[19]

reconciliasse consigo mesmo

O verbo reconciliasse (ἀποκαταλλάξαι), que ocorre apenas duas vezes em outras partes do Novo Testamento (Cl 1.22; Ef 2.16), diferente de outros termos que possibilita a reconciliação por meio da ação bilateral, ou seja, duas pessoas que trabalham juntas em prol da reconciliação, o verbo usado por Paulo aponta para uma reconciliação unilateral. Além disso, traz a ideia de “mudança de inimizade para amizade”, “nova harmonia” e “nova paz”. Segundo Vaughan, a maneira que ele foi colocado aqui, provavelmente tem a força intensiva: “para mudar completamente”, ou, “mudar de modo a remover toda a inimizade”.[20]

todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus.

Por fim, Paulo nos mostra que essa reconciliação se estende a “todas as coisas… na terra ou nos céus”. Isso não tem nada a ver com universalismo, no sentido de todos os homens, mas uma restauração universal, uma vez que o pecado do homem afetou toda a criação (cf. Gn 3,17-19). Respondendo a isso, a reconciliação afeta não só o homem, mas o universo criado. A própria criação geme e está cheia de dor enquanto espera o dia da sua redenção (Rm 8.22).

Hoekema afirma que para entender completamente o sentido da história, devemos ver a redenção de Deus em dimensões cósmicas. Uma vez que a expressão “céus e terra” é a descrição bíblica de todo o cosmos, é possível dizer que o alvo da redenção é nada menos do que a renovação do cosmos. Uma vez que a queda do homem no pecado afetou não apenas a ele, mas também, ao resto da criação, a redenção do pecado deve igualmente envolver a totalidade da criação de Deus.[21]

Conclusão:

Diante de tudo que vimos, precisamos compreender a centralidade de Cristo no Evangelho da salvação. Além disso, precisamos mostrar a suficiência de Cristo para a salvação e plenitude da vida. Muitas pessoas estão buscando algo que substitua a fé por alguma moda que tenha um colorido cristão. Todavia, Cristo é o único suficiente para vida cristã. As escrituras sagradas não deixam dúvida alguma quanto a divindade de Cristo e sua supremacia na criação e na redenção do mundo.

Quando não há uma visão correta sobre a pessoa do Redentor, a igreja não adora da forma correta e não vive da maneira correta. Cristo é o Deus Todo-Poderoso. O criador e sustentador de todas as coisas. E por meio dele, criação manchada pelo pecado é redimida, feita nova criação. Tudo se trata dele, tudo ocorre por causa dele, por meio dele e para ele. A Ele pois a glória eternamente, amém!

Aplicação:

  • Não pode haver em nós qualquer insatisfação quanto ao que Deus já revelou. Os falsos mestres em Colossos ensinavam que Deus só poderia ser conhecido por meio de experiências místicas e extraordinárias. Muitas vezes, dente de ouro, revelações modernas, profecias tem chamado a atenção em alguns momentos mais do que a pessoa de Cristo. Não existe experiência de Deus maior do que Jesus Cristo. Nele eu vejo exatamente quem é Deus. Infinito, Eterno e Imutável em seu ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade (pergunta 4 do Breve Catecismo).
  • Pare de procurar alegria e proteção em coisas criadas. Cristo é a origem, o meio e o fim de todas as coisas. Tudo que foi feito aponta para Cristo. Tudo deve nos levar à realização e segurança em Cristo.
  • Nada pode tirar a preeminência de Cristo na igreja. Seja no culto, seja na pregação, seja nas decisões tomadas pela igreja. Pregação Cristocêntrica, Culto Cristocêntrico, Igreja Cristocêntrica, Vida Cristocêntrica, Universo Cristocêntrico.
  • No que diz respeito à criação somos chamados a apontar para o Criador, mas não podemos redimir a cultura. Somente Cristo pode redimir. Não podemos fazer um mundo melhor. Não depende de nós. Somente Jesus Cristo. O que podemos fazer é apontar para ele, aquele que pode redimir todas as coisas.

 

Bibliografia 

[1] WALLACE, Daniel. Colossians: Introduction, Argument, Outlin.

[2] Hendriksen, Comentário 1 e 2 Tessalonissenses, Colossenses e Filemon, p.273, 274

[3] MOO, Douglas J.: The Letters to the Colossians and to Philemon. Grand Rapids, MI : William B. Eerdmans Pub. Co., 2008

[4] CARSON, D. A; MOO, Douglas J.; MORRIS, Leon; Introdução ao Novo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 1997.

[5] O’BRIEN, Peter T.: Word Biblical Commentary : Colossians-Philemon. Dallas: Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 44)

[6] Ibid

[7] MELICK, Richard R.: Philippians, Colissians, Philemon. electronic ed. Nashville : Broadman & Holman Publishers, 2001, c1991

[8] HENDRIKSEN, William. Comentário do Novo Testamento – Colossenses e Filemon. Tradução de Ézia Cunha de Mullins. 1. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1993.

[9] O’BRIEN, Peter T.: Word Biblical Commentary : Colossians-Philemon. Dallas: Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 44

[10] MOO, Douglas J.: The Letters to the Colossians and to Philemon. Grand Rapids, MI : William B. Eerdmans Pub. Co., 2008

[11] WALLACE, Daniel B. Gramática grega: uma sintaxe exegética do novo testamento. São Paulo: Batista Regular, 2009.

[12] MELICK, Richard R.: Philippians, Colissians, Philemon. electronic ed. Nashville : Broadman & Holman Publishers, 2001, c1991

[13] A única ocorrência no NT com um significado semelhante é 2 Pe 3.5.

[14] CALVINO, João. Calvin’s New Testament Commentaries Series, Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1994.

[15] O’BRIEN, Peter T.: Word Biblical Commentary : Colossians-Philemon. Dallas : Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 44)

[16] CALVINO, João. Calvin’s New Testament Commentaries Series, Wm. B. Eerdmans Publishing Company, 1994.

[17] RIDDERBOS, Herman N. A teologia do apóstolo Paulo: a obra definitiva sobre o pensamento do apóstolo aos gentios. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 58

[18] O’Brien, Peter T.: Word Biblical Commentary: Colossians-Philemon. Dallas: Word, Incorporated, 2002 (Word Biblical Commentary 44)

[19] Ibid.

[20] VAUGHAN, Curtis: Colossians. In: Gaebelein, Frank E. (Hrsg.): The Expositor’s Bible Commentary, Volume 11: Ephesians Through Philemon. Grand Rapids, MI : Zondervan Publishing House, 1981, p. 172

[21] HOEKEMA, Anthony A. A Bíblia e o futuro. 2. ed. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 2001. p. 43, 44.

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