Colossenses 1.9-14 – Uma oração que agrada a Deus

Introdução:

Ashbel Green Simonton (20/01/1833).

Em resposta ao chamado, em julho de 1855, ingressou no Seminário de Princeton, a fim de preparar-se para o ministério. Ainda no primeiro semestre, ouviu, na capela do seminário, um sermão que o despertou para missões. “O pregador era o Dr. Charles Hodge, eminente teólogo e professor do seminário, que o fez pensar seriamente na possibilidade de devotar-se à obra missionária no estrangeiro. Aquele sermão tocou profundamente o coração sensível do jovem seminarista Simonton, levando-o a pensar seriamente, pela primeira vez, sobre o trabalho missionário”.

Com o consentimento de sua mãe, no dia 27 de novembro de 1858, com apenas 25 anos, encaminhou à Junta de Missões Estrangeiras o pedido formal para ser missionário, mencionando o Brasil como campo da sua preferência, deixando, no entanto, a decisão final aos cuidados da Junta. Foi aceito e ordenado pastor, começando os preparativos para a viagem no ano seguinte.

Na manhã do dia 18 de junho 1859, despediu-se, no porto de Baltimore, de sua mãe e de seu irmão John que o acompanharam até o navio.

No meio de 1862, voltou a sua terra para visitar sua mãe que estava enferma. Infelizmente, quando chegou ela já havia partido para o Senhor. Teve a oportunidade de rever seus irmãos pela última vez, descrevendo assim esse encontro: “a noite passada, ficamos conversando até tarde sobre o passado e sobre os que partiram. Cada um contribuía com maior ou menor parte dos tesouros de sua memória; muitos incidentes e lembranças foram revividos e a conexão do presente com o passado parecia completa”.[1]

Ainda no final daquele ano Simonton conheceu a jovem Helen Murdoch com quem casara em 19 de março de 1863. Em seguida, vieram para o Brasil e aqui Helen viveu cerca de um ano e veio a falecer por causa de complicações no parto. Simonton enlutado e sozinho escreveu suas mais dolorosas palavras: “Deus tenha piedade de mim agora, pois águas profundas rolaram sobre mim. Helen está estendida em seu caixão, na salinha de entrada. Deus a levou de repente que ando como quem sonha”.[2]

A morte da esposa foi uma perda irreparável em 1864, um golpe do qual jamais se recuperou. No entanto, continuou o seu ministério com muito ardor. Morreu com apenas 34 anos.

Última frase de seu diário escrita no dia 31 de dezembro de 1866, menos de um ano antes de sua morte: “Quem me dera um batismo de fogo que consumisse todas as minhas escórias, quem me dera um coração inteiramente de Cristo”.[3]

Um homem que em seu tempo desejou conhecer a Deus com todo seu coração e viver de modo digno desse conhecimento.

Frase de Transição: Quando olhamos para este texto (Cl 1.9-14) percebemos o desejo de Paulo para que os colossenses tivessem a mesma atitude e desejo de Simonton.

Contextualização:

O autor

Paulo escreve esta carta após receber um relatório de Epafras, que nunca fora visitada por Paulo. Contudo, Epafras, fruto do ministério de Paulo, e provavelmente o fundador das igrejas de Colossos, Hierápolis e Laodicéia. Colossos era a cidade menos importante entre as três no vale do rio Lico, uma região fértil e próspera. É possível encontrar vestígios de riqueza até hoje na arqueologia de Hierápolis e Laodicéia, mas não existe nenhum vestígio de Colossos. Provavelmente a cidade menos importante que recebeu uma carta do Apostolo Paulo, e ainda assim, uma das cartas mais belas no NT que trata da supremacia de Cristo.[4]

Uma igreja que estava crescendo na fé, buscando viver o evangelho de Cristo, porém havia alguns perigos iminentes para a fé daqueles irmãos.

A Heresia de Colossos

A chamada heresia colossense se caracterizada por alguns pontos[5]:

Falsa Filosofia (Cl 2.8), que apesar de afirmar ter descoberto segredos e terem tido visões, negam a preeminência e a suficiência total de Cristo.

Proto-gnosticismo, que considerava a matéria como má, e o imaterial como bom. (Cl 1.15)

Cerimonialismo Judaico (Cl 2.11,16,17;3.11), que considerava especial o ritual da circuncisão física, às dietas de alimentos e à observância de datas especiais referentes à Lei.

Adoração de Anjos (Cl 1.16;2.15;2.18), que também desvalorizada a singularidade de Cristo.

Paulo ao receber o relatório de Epafras sobre todas essas coisas escreve esta epístola, estando preso em sua primeira prisão.

Paulo ora. Não apenas por coisas ruins. Mas quando ouve boas notícias da igreja de Colossos por parte de Epafras. Paulo não ora para que ele seja liberto a fim de visita-los. Paulo não ora para que Deus tire as perseguições e tentações que eles pudessem passar. A oração de Paulo não está focada em Deus tirar todo tipo de ameaça para a igreja, sua oração é profunda e é descortinada para nós nesta passagem.

Ideia Exegética: Paulo ora pelos colossenses para que transbordem do verdadeiro conhecimento da vontade de Deus visando viver de modo digno do Senhor para agradá-lo.

Ideia Homilética: O conteúdo, o propósito e o resultado garantido de uma oração que agrada a Deus.

Frase de Transição: Diante disso iremos aprender hoje sobre como orar, por que orar, e como viveremos de acordo com nossa vida de oração.

  1. O conteúdo da oração

Depois de Paulo dizer aos seus leitores que ele sempre agradecia a Deus pela sua fé, esperança e amor, ele continua dizendo (por isto – Διὰ τοῦτο) que nunca para de orar e pedir que eles fossem cheios (ἵνα πληρωθῆτε) com o conhecimento da vontade de Deus.

Muitas vezes nossa oração tem conteúdo temporal e limitado. Liste cinco motivos de oração neste momento com toda a sinceridade do seu coração. Quantos destes motivos desaparecerão dentro de 5, 10, 20 anos?

Ilustração: Lembro-me da história da jovem que era muito egoísta em suas orações.  Uma vez alguém a desafiou a orar UMA vez, sem mencionar a si mesma na oração. Ela topou o desafio, e fez bem, até o final de sua oração quando disse, “E por favor, Senhor, dê um lindo genro a minha mãe!”

Paulo ora por coisas eternas.

Paulo usa termos que eram conhecidos pelos colossenses e utilizados por falsos mestres no seu esforço por seduzir os membros da igreja em geral.[6]

Primeiramente Paulo ora para que transbordassem, fossem cheios do correto conhecimento da vontade de Deus. Paulo usa o termo na voz passiva, o que assemelha aos que defendiam os proto-gnósticos. Defendiam a busca por um conhecimento oculto, que era recebido por alguns. Contudo, Paulo ora para que os colossenses recebessem esse conhecimento da parte de Deus. Deus é quem dá o conhecimento. Mas seria um conhecimento oculto? Na verdade não. Em total contraposição à heresia da época, esse conhecimento a ser buscado estava plenamente revelado.

Que conhecimento da vontade de Deus era esse?

A palavra conhecimento no grego (gnosis) era muito utilizada e havia um gnosticismo incipiente naquele lugar. A ideia de um conhecimento oculto a ser buscado. Paulo busca corrigir o significado das palavras gregas para o real sentido que deveriam ter. Ele não usa apenas a palavra gnosis – conhecimento, mas epignosis que quer dizer um conhecimento correto, pleno, verdadeiro. Diferentemente do que pregavam os proto-gnosticos, Paulo ora para que a igreja fosse preenchida por Deus do verdadeiro conhecimento de sua vontade. Justamente, porque a falta desse conhecimento os levaria à destruição.

Oseias 4.6 – “o meu povo perece por falta de conhecimento.”

Ou quando Jesus diz aos saduceus que não criam na ressurreição: “Errais não conhecendo as escrituras e nem o poder de Deus.” (Mt 22.29)

Pecamos como pastores não apenas quando falamos além das escrituras, mas quando deixamos de ensinar algo que o povo deveria conhecer.

Sejam transbordados[7] trata tanto da intenção da oração quanto do seu cumprimento. Ele pede que Deus os faça transbordar, não depende deles, mas de Deus dar o conhecimento de sua vontade. Essa busca não vem do homem, mas de Deus revelar sua vontade. A vontade de Deus é revelada nas escrituras. Não é algo que ninguém sabe e deva ser buscado de maneira transcendental e exclusiva, mas por meio do estudo da palavra de Deus. E esse estudo não pode ser entendido meramente pelo intelecto humano, mas pela iluminação do Espírito Santo que abre nossos olhos espirituais. (Ef 1.15-23)

No AT, a palavra vontade significa aquilo que traz prazer ao Senhor.

Quando falamos de vontade de Deus neste texto, sobre qual vontade Paulo está falando?

Temos algumas distinções. Existe a vontade decretiva e a vontade preceptiva de Deus. A vontade decretiva é aquela que Deus determina desde a eternidade, e muitas vezes está oculta para nós. Não é dessa vontade que Paulo está falando. Já a vontade preceptiva é a vontade de Deus que é prescrita para nós nas escrituras. O que Paulo nos diz então é que o seu desejo para os colossenses, é de que Deus os transbordasse com o desejo de que eles conhecessem profundamente aquilo que agrada a Deus, a saber, andar nos seus caminhos, guardar seus mandamentos. Paulo ora para que eles lessem a bíblia com entendimento. Não é mero estudo da palavra de Deus, isso faziam os fariseus e escribas. É compreender o sentido, significado e aplicação das escrituras em nosso modo de viver. Compreender que Deus tem um propósito e devemos persegui-lo. Não é legalismo, não é um conhecimento oculto, pelo contrário, é simples e está revelado e seu resumo é amar a Deus acima de todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.

Qual a diferença então de sabedoria para conhecimento?

Paulo pede por Sabedoria espiritual. Ele fala mais sobre sabedoria (sophia) que qualquer outro autor do NT. 44 das 71 ocorrências.[8]

Sabedoria no contexto judaico divide-se em três aspectos: pensamento, discurso (ensino) e ação.[9] O conhecimento da vontade de Deus deve levar-nos a vivê-la. Não basta saber boa teologia, é preciso que a boa teologia nos leve a viver de modo piedoso. É inaceitável um calvinista orgulhoso, nossa teologia deveria nos levar a viver de modo humilde, pois sabemos que não depende de nós.

Cristo é apresentado em João 1 como o logos de Deus. A palavra encarnada, a sabedoria de Deus para o mundo. Ele é a personificação do que é a sabedoria. Somente dele podemos adquirir sabedoria, e somente imitando a ele podemos agir de forma sábia.

Em Pv 2.6 – Porque o Senhor dá a sabedoria; e da sua boca vem a inteligência e o entendimento.

Ilustração: É comum vermos estudantes de teologia calvinistas zombando de arminianos, considerando-se superiores porque conhecem mais de teologia e tem uma base muito mais sólida e histórica.

Contudo, o mero conhecimento teológico não implica em conhecer a vontade/prazer de Deus. Afinal, o conhecimento deve levar à prática. E a doutrina que mais nos humilha é o calvinismo. Devemos necessariamente, buscar imitar a Cristo em nossas ações.

Frase de Transição: Diante disso, vemos que o conteúdo da oração de Paulo não é temporal, muito menos carnal. Ele ora para que transbordem do conhecimento correto da vontade de Deus e por sabedoria. Muitas vezes vemos pessoas buscando isso, mas com propósitos errados. Paulo descortina para nós em sua oração, também o propósito de buscar essas coisas.

2) O propósito da oração

Quando sou transbordado do conhecimento correto da vontade de Deus em toda sabedoria e entendimento espiritual então serei levado a viver de modo digno do Senhor.

Viver de modo digno do Senhor para seu inteiro agrado[10]:

Essa é a principal ideia da passagem[11]. Viver (περιπατῆσαι) é um verbo que nos dá a ideia de propósito e explica o motivo dos colossenses serem cheios do conhecimento da vontade de Deus: para andar de modo digno do Senhor. Assim, o propósito último pelo qual Paulo ora é para que Deus os capacite a andar de modo digno dele. Como nós veremos tudo que se segue expressa o significado desse modo digno de viver.

Se isso é o propósito último da oração de Paulo, então talvez haja alguma coisa a aprender sobre as prioridades de nossas orações. Talvez também nós devamos pedir mais frequentemente que Deus dê aos outros e a nós, sabedoria e entendimento espiritual, assim poderemos andar de modo digno e fiel.

Viver de modo digno do Senhor é um dos incentivos prediletos de Paulo[12]

1 Ts 2.12 – Pois vocês sabem que tratamos cada um como um pai trata seus filhos,
exortando, consolando e dando testemunho, para que vocês vivam de maneira digna de Deus, que os chamou para o seu Reino e glória.

Fp 1.27 – Não importa o que aconteça, exerçam a sua cidadania de maneira digna do evangelho de Cristo, para que assim, quer eu vá e os veja, quer apenas ouça a seu respeito em minha ausência, fique eu sabendo que vocês permanecem firmes num só espírito, lutando unânimes pela fé evangélica,

Ef 4.1 – Como prisioneiro no Senhor, rogo-lhes que vivam de maneira digna da vocação que receberam.

Em cada um destes casos Paulo está apelando para seus convertidos ficarem à altura da sua confissão como povo de Deus.

A primeira cláusula que modifica o viver de modo digno, expressa o objetivo do andar de modo digno: (εἰς πᾶσαν ἀρεσκείαν) para seu inteiro agrado (Deus).

Para seu inteiro agrado traduz um substantivo (areskeia) achado somente aqui em todo o Novo Testamento. Isso significa satisfazê-lo em todas as coisas.[13]

Ilustração: Hetty Green—mulher mais miserável na face da terra. Tinha 95 milhões de dólares no início do século, porém comia aveia fria para não gastar. Guardava sobras de sabonete. Demorou tanto procurando uma clínica gratuita na sua cidade, que seu filho sofreu a amputação de uma perna. Por quê?  Sendo rica, escolheu viver como miserável.

CALVINO: Um dos emblemas que aparecem nas obras de Calvino mostra uma mão segurando um coração e as palavras latinas “Cor meum tibi offero Domine, prompte et sincere” (O meu coração te ofereço, ó Senhor, de modo pronto e sincero). Essa frase é dita por Calvino ao responder Farell sobre sua volta de Estrasburgo para Genebra após ter sido exilado.

O pensamento do reformador de Genebra era de que uma vez conhecida a verdade, devemos praticá-la. Não importa o preço. Ele tinha ênfase no correto conhecimento das Escrituras, e isso o levou a ser uma influência em todas as áreas práticas de Genebra. No trabalho, na educação, na política, na evangelização e na arte.

Frase de Transição: Uma vez que somos transbordados do pleno conhecimento da vontade de Deus, e vivemos de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado, então, verei os resultados práticos dessa oração.

3) O resultado da oração

Paulo lista quatro caminhos específicos[14] que são resultado do andar de modo digno do Senhor. Três desses são de modo ativo[15] e expressam nossa responsabilidade. Nós devemos frutificar em toda boa obra, o que ecoa Jesus ensinando que nós conhecemos os verdadeiros discípulos pelos seus frutos. Nós devemos ativamente buscar um conhecimento profundo de Deus. E nós devemos continuamente dar graças com alegria a Deus que nos capacitou para receber a parte que nos cabe da herança dos santos. O quarto caminho é passivo: “sendo fortalecidos com a força do seu poder” E não se esqueça de que Deus é quem inicia o processo dando a nós sabedoria e entendimento espiritual que nos capacita a viver de modo digno e começa o processo. Então, no meio do processo, Deus nos dá poder, força suficiente para cumprir seus propósitos. Essa força vem de sua glória, a fim de que nós o glorifiquemos.

– frutificando em toda boa obra:

O correto conhecimento da vontade de Deus geraria nos colossenses boas obras. Podemos entender de duas maneiras: seja pela vida piedosa, onde o fruto do Espírito é percebido na vida do cristão (Gl 5.22,23), seja pela obra evangelística visando gerar frutos expandindo a obra de Deus. Ambos os frutos são requeridos e são evidência do correto conhecimento da vontade de Deus na vida do cristão.

– crescendo no conhecimento de Deus:

Dando frutos e assim crescemos mediante um conhecimento mais profundo de Deus. Quando me aprofundo no conhecimento da vontade de Deus, em obediência aos seus mandamentos, começo a andar com ele, e aprofundarei no conhecimento de quem é Deus. Ele é conhecido por meio da sua palavra, quando é lida e praticada.

– sendo fortalecidos com poder segundo a força da sua glória:

É a única passiva, que nos mostra que Deus nos capacita em face das dificuldades e provações. O alvo desta oração é que os colossenses não fracassem frente os ataques das heresias ou mesmo desencorajamentos. Deus fortalece o seu povo, e esse povo é cada vez mais fortalecido uma vez que cresce no conhecimento de quem Deus é. Quanto mais percebo a grandeza de Deus, mais maravilhado fico e menores são as tentações e probabilidade de cair em alguma heresia (tenho uma visão do céu).

Ilustração: Constroem um prédio de 15 andares em uma pequena cidade. Um homem do interior que mora em São Paulo a muito tempo, voltando a sua cidade, mostram-lhe o “grande prédio” como se fosse uma das coisas mais espantosas já vistas. Porém, para ele, é apenas um prédio comum.

– com perseverança e alegria e dando graças ao Pai

Fazem parte do fruto de Gl 5.22,23. Longanimidade.

Alegria do cristão frente às intempéries da vida (Fp 2.17,18). As duas palavras são juntadas em um contexto escatológico (2 Co 6.4ss, 2 Tm3.10) no sentido de descrever as virtudes que os crentes devem ter quando entrarem em conflito com os poderes do mal no tempo do fim.[16]

Uma vez que são transbordados com o conhecimento da vontade de Deus e o conhecimento correto de quem é Deus, então, mesmo em face dos aflições, deverão ter alegria pois reconhecem que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Reconhecem que Deus está no controle e haveremos de reinar com Ele por toda a eternidade. Seus olhos não estão no aqui e no agora, mas no porvir. Isso certamente nos levará a ter um coração grato ao pai.

Frase de Transição: Uma vez que transbordo do conhecimento correto da vontade de Deus e de sabedoria, a fim de viver de modo digno do Senhor para o seu inteiro agrado, frutificando em toda boa obra, crescendo no conhecimento de Deus, sendo fortalecido com seu poder, com alegria e ações de graças, eu descubro a fonte e a garantia de que receberei todas essas coisas.

  • A garantia do resultado

Ele é quem vos fez idôneos. Para receber a herança é necessária a regeneração. Deus não aceita pecadores não-regenerados (parábola das bodas). Deus não apenas os revela a sua vontade, mas também os capacita a viver de acordo com ela, caso contrário seriam completamente frustrados, ao saber o que deveriam fazer, contudo não conseguiriam viver de modo digno caso o Senhor não intervisse.

À parte que vos cabe da herança dos santos na luz:

Vs 12 – repleto de ecos do Antigo Testamento. Parte que vos cabe da herança dos santos na luz relembra a promessa feita a Abrão (Gn13.14-17) e repetida ao povo hebreu (Nm 26.52ss, 34.2,13; Dt 32.9, Js 19.9).

Herança era a terra prometida, mas em Cristo, recebem uma herança mais rica. A Canaã que nos é prometida não é temporária, é celestial. Novos céus e nova terra. Um corpo glorificado, livre da condenação, do poder e da presença do pecado. Essa é nossa esperança.

Ilustração: William Tyndale escreve uma carta de encorajamento para seu amigo John Frith que estava prestes a morrer na fogueira por sua lealdade à palavra de Deus:

“Tua causa é o evangelho de Cristo, uma luz que deve ser alimentada com o sangue da fé… Se somos fustigados e sofremos fazendo o bem, devemos sofrer e suportar com paciência… o que é aceitável e agradável a Deus, pois para esse fim fomos chamados. Porque também Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo para que nós sigamos suas pisadas, Ele, que não cometeu pecado jamais. E nisto temos conhecido o Seu amor, que Ele deu a Sua vida por nós, por isso nós também devemos dar a nossa vida pelos irmãos… não deixe seu corpo esmorecer… Se a dor estiver acima de suas forças, lembre-se, tudo quanto pedirdes em Seu nome, Ele concederá. Ore ao Pai então no nome precioso de Cristo, e Ele vai te dar forças para sofrer, aliviar a dor ou encurtá-la neste mundo… Amém!” William Tyndale também foi martirizado 3 anos depois por começar a traduzir a bíblia para o inglês.

O texto continua: Vs. 13,14 – ele nos transportou do império das trevas para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção.

Oposto de luz são trevas. Alguns acreditam que esses versículos fazem parte da perícope posterior, que fala acerca da supremacia da pessoa de Cristo sobre tudo e todos. Contudo, percebemos que aqui, Paulo ainda fala do Pai e do que Ele fez por nós a fim de que vivêssemos de modo digno do Senhor para seu inteiro agrado. Seria impossível que fôssemos regenerados a não ser por Cristo.

Essa herança é presente ou futura? Já e ainda não. Eles já foram transportados para o reino do Filho do seu amor, no entanto a possessão plena pertence ao futuro.

A idoneidade, o viver de modo digno, só são possíveis porque foram tirados das trevas e transportados para reino de Cristo.

Aqui temos o resumo da obra divina da redenção.

Negativamente nos libertou e positivamente nos transportou para o reino do filho do seu amor. Esta é a mesma palavra utilizada para o transporte de escravos conquistados naquela época.

Resgatou-nos: estávamos em trevas. Não havia luz.

João 1.4,5 Jesus é a luz dos homens. Os homens viviam em trevas, mas Cristo veio para trazer luz. Após a queda, apesar do haja luz que fora dito em Gênesis 1, a humanidade permaneceu em trevas espiritualmente. Escravos do império das trevas, destinados à perdição. Porém, por causa do seu amor, agora em João 1, temos a revelação do Deus unigênito, pelo qual foram criadas todas as coisas, ele vem para trazer luz ao mundo. O Pai, por meio do filho, nos oferece a remissão de pecados, a redenção. Ambos ligados à figura da escravidão na época.

A salvação não está em nenhum outro. Somente nele. A obra é totalmente de Deus por meio de Cristo. Tudo se trata do Deus Trino. Tudo é para ele, por meio dele e por causa dele.

A soberania de Deus é que nos traz segurança. O resultado não depende de nós, é garantido por Deus desde a eternidade.

Aplicação:

1) Devemos buscar ser preenchidos pelo correto conhecimento da vontade de Deus:

– em constante estudo teológico e bíblico “de joelhos”

– nossa teologia deve nos levar a dobrar nossos joelhos e vivê-la.

2) Devemos viver de modo digno do Senhor para seu inteiro agrado:

– de nada adianta saber muito para se exaltar. O propósito de nosso conhecimento correto é viver para o prazer de Deus, sua glória e exaltação.

– minha teologia deve me levar a um modo de viver piedoso e santo. Quanto temos sido perseguidos por isso (2 Tm 3.12)?

– qual o propósito de tirar 10, passar de matéria ou se formar? A glória de Deus. O agrado de Deus.

3) Quanto fruto tenho dado em meu ministério em termos de santificação e evangelização?

– Quantas pessoas estão na igreja porque eu falei de Cristo?

– É necessário que vivamos para a glória de Deus em todos os momentos. Ser semelhantes a Jesus, vistos assim pelos vizinhos, parentes, etc.

– É necessário que minha esposa/filhos/pais vejam esse fruto em mim diariamente. Se não sou um bom cristão em casa, não sou um bom pastor.

4) Qual tem sido o conteúdo de minha oração? Será que tenho buscado a Deus apenas por conveniência?

– O conteúdo de minha oração e o tempo que devo passar buscando-o não devem depender das necessidades imediatas, mas de seus propósitos eternos. Quantas vezes o conselho dobra seus joelhos apenas quando há problemas financeiros.

5) Devo reconhecer que tudo vem de Deus e é para Deus.

– qualquer fruto que tenhamos deve nos levar a dobrar nossos joelhos em gratidão ao Pai das luzes de quem vem toda boa dádiva e todo dom perfeito. Tudo é para sua glória e louvor. Não temos nada em nós de bom que não nos tenha sido dado graciosamente por Ele por meio de Cristo.

Conclusão:

Simonton, apesar de jovem e vindo para uma terra que ninguém gostaria de vir naquela época. Decidiu viver de modo digno do Senhor. Seu trabalho e obra refletiram seu coração. Hoje, quase 150 anos depois de sua morte, vemos o impacto do seu modo de viver idôneo e digno do Senhor. Milhões de pessoas alcançadas no Brasil. Provavelmente a denominação mais idônea que temos. Porque um homem, 150 anos atrás decidiu viver de modo digno do Senhor para seu inteiro agrado, mesmo em face da morte.

Fomos libertos, por isso podemos conhecer a vontade de Deus e vivê-la.

Então, se nós queremos agradar a Deus, nós primeiramente necessitamos de sua graça a fim de nos capacitar nos fazendo transbordar do conhecimento correto de sua vontade e de sabedoria, então nós deveremos ativamente buscar viver nestes caminhos para honrar ao Senhor, frutificando em toda boa obra, conhecendo cada vez mais a Deus, sendo fortalecidos pelo Senhor, em gratidão e alegria porque ele nos capacitou a viver de modo digno para recebermos a herança dos santos. Vivendo um antegozo do céu hoje, e quando nos encontrarmos com Cristo para todo o sempre. Que esta também seja nossa oração, assim como foi a de Paulo. Que Deus nos ajude.

[1] O Diário de Simonton, Ed. Cultura Cristã, p.154

[2] Ibid.164

[3] Ibid., P.173

[4] Comentário Colossenses, Vida Nova, p.17

[5] Hendriksen, Comentário 1 e 2 Tessalonissenses, Colossenses e Filemon, p.273, 274

[6] Comentário Colossenses, Vida Nova, p. 61

[7] Aoristo subjuntivo passivo – uma oração de propósito que tem resultado, utilizado juntamente com iva.

[8] Hawthorne, Martin, Reid, Dicionário de Paulo e suas cartas, p. 1117

[9] Ibid., p. 1118

[10] Ação completa – aoristo infinitivo ativo – resultado de ser preenchidos com o correto conhecimento de Deus. O infinitivo é usado para indicar propósito, alvo da ação.

[11] Wallace, Daniel B., Uma sintaxe exegética do Novo Testamente, p. 590

[12] Comentário Colossenses, Vida Nova, p.62

[13] Comentário Colossenses, Vida Nova, p.62

[14] As quatro frases participiais podem ser particípios adverbiais tanto de modo como resultado.

[15] αὐξανόμενοι é passivo, mas tem significado ativo

[16] Comentário Colossenses, Vida Nova, p.63

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