Daniel 7.1-14 – A vinda do Filho do Homem

1. INTRODUÇÃO

1.a. Autoria

1.a.1. Quem está falando?

Há três pessoas falando nessa perícope: a) Narrador (vs. 1, 2a); b) Daniel (vs. 2b-14 –exceção de vs. 5b); c) Aqueles que diziam ao segundo animal (vs. 5b).

 

1.a.2. Quem redigiu o texto?

No cap. 7. 1 temos o relato que Daniel tinha visões e escrevia logo a suma do que vira. Mesmo que Daniel não seja o autor, aquele que intelectualmente gerou aquele texto, Daniel é quem recebeu e redigiu a suma. Isso nos dá condições de afirmar que a maioria do texto é da mão do próprio Daniel. Seja transcrevendo o que ouviu, seja redigindo o que entendeu do que viu.

No texto em questão, Daniel 7.1-14 temos uma transcrição do texto. A maior parte do texto é escrito em primeira pessoa. Transcrição de uma experiência que ele não é o autor intelectual do que está acontecendo, ele apenas está descrevendo com detalhes aquilo que viu.

 

1.a.3. Quem é o autor final?

Temos pelo menos duas evidências claras de trabalho editorial (1.21; 5.31). Esses versículos mostram alguém que tinha uma visão do todo. Além disso o livro não está em ordem cronológica. Do capítulo 1 a 5 temos uma ordem cronológica, porém do cap. 6 a 12 está em ordem lógica.

Desta maneira, é possível que o autor final do livro de Daniel não seja Daniel, mas alguém que organizou o livro posteriormente. Sugerimos que tenha sido Esdras, pois tinha competência para isso.

 

1.b. Data e composição

1.b.1. Data do evento

Conforme as datas citadas no livro (Dn 1.1) tem como data de 605 a.C. como a chegada de Daniel à Babilônia. Segundo Daniel 1.21, Daniel permaneceu ali até o primeiro ano de Ciro (538 a.C.), porém sua última visão registrada, segundo Daniel 10.1, ocorreu às margens do rio Tigre, no terceiro ano de Ciro, no ano de 536 a.C. O decreto de Ciro foi promulgado em 538 a.C.

O nome de Daniel aparece também no livro de Ezequiel (Ez 14.14, 20; 28.3), que é um contemporâneo de Daniel na Babilônia, porém profetizando junto aos exilados à margem do rio Quebar (Ez 1.1), o que corrobora para uma data entre 605 a.C. e 536 a.C.

Há uma posição de uma data no período dos macabeus, posterior à Antíoco IV, situando o livro no segundo século. Isso por causa de Daniel 11 que, segundo Baldwin: retrata “a era dos persas, passando para a dos gregos e se tornando mais e mais detalhado à medida em que se aproxima do tempo de Antíoco IV”. (BALDWIN; 2011; p. 44). Com base nisso, alguns autores como Driver: “(…)Há fortes razões para pensar que a divisão em três partes representa três estágios na coleção e canonização dos livros sagrados do A.T., o Pentateuco foi canonizado primeiro, então os “Profetas” (no sentido judeu da expressão), e por fim os Escritos. A coleção dos “Profetas” poderia ter sido completada antes do terceiro século a.C., e o livro de Daniel ter existido naquele tempo, e ser crido como trabalho de um profeta, é difícil pensar que isso não teria sido classificado corretamente, e sido incluído com os escritos dos outros profetas”. (DRIVER, 1900, p. 47s). Segundo Driver, por estar situado nos “escritos” e não entre os profetas, Daniel provavelmente foi escrito posteriormente, durante o segundo século, pois se tivesse sido escrito antes, provavelmente estaria na segunda coleção dos “Profetas” e não na terceira, nos “Escritos”. Além disso, defendem que por ser uma literatura apocalíptica, o texto pode ter uma pseudonímia (atribuição a um personagem conhecido do passado para dar credibilidade), sendo atribuído a Daniel. Além de, segundo Hill, o “vaticinium ex evento (latim, o registro de acontecimentos passados como se o autor vivesse antes deles)” (HILL, 2007, p. 502).

Entretanto, com a descoberta dos manuscritos de Qumran, em 1947, há evidências suficientes para rejeitar uma data no segundo século, pois há uma cópia do livro de Daniel datada do segundo século, e segundo Baldwin, uma data macabéia para Daniel é embaraçadora com base nos manuscritos pois “deixa margem tempo muito pequena entre um original dos meados do segundo século e a aceitação do livro como canônico” (BALDWIN, 2011, p. 50).

Há três fatos portanto que nos levam a rejeitar uma data do segundo século: 1) o livro de Daniel consta na Septuaginta, que é datada do final do terceiro século e início do segundo; 2) a presença de Daniel nos manuscritos do mar morto datados do segundo século a.C. e; 3) o uso do aramaico no livro, que aponta para um período anterior ao segundo século. Desta forma, rejeitamos veementemente uma data para o segundo século, baseada apenas em especulações de críticos, e aceitamos a data do sexto século, sendo que Daniel teve as visões de fatos que vão até o segundo século, e até mesmo ao tempo do fim.

O evento portanto, não pode ser datado posteriormente a 536 a.C. Uma vez que temos todas as datas explícitas no texto bíblico.

 

1.b.2. Data do texto

Há pelo menos duas evidências claras de trabalho editorial no livro de Daniel que mostram houve alguém que organizou esse texto na forma final (1.21; 5.31). Daniel (Dn 7.1) redigia a suma das suas visões, porém a organização como está foi posterior aos eventos. Porém havia uma pressa de redigir, sob orientação do anjo, aquilo que estava sendo revelado, o que mostra que a data do texto não foi muito posterior a existência do profeta Daniel. Portanto, provavelmente Esdras, que era um escriba capaz e versado na palavra redigiu o texto final por volta de 400 a.C.

 

1.c. Contexto histórico

Há pelo menos cinco pontos que precisam ser considerados para o contexto histórico, que estão em um contexto mundial entre 605 a.C. até meados de 530 a.C.

1) Nabucodonosor assume o trono da Babilônia em 605 a.C., assumindo o controle de todos os territórios que eram controlados pela Assíria, incluindo Judá. Entretanto, os filhos de Josias, que ocupavam o trono não se submeteram à Babilônia, se envolvendo em constantes conspirações contra o império babilônico.

2) A chegada de Daniel na Babilônia se deu no terceiro ano do reinado de Jeoaquim, rei de Judá (1.1). Quando Nabucodonosor faz uma série de deportações de judeus para a Babilônia.

3) O incidente do saque dos utensílios de ouro (3.5). A prata e o ouro foram levados por Nabucodonosor quando invadiu a Jerusalém. Em Daniel 5.2 lemos que Belsazar mandou trazer os utensílios de ouro que seu pai tirara do templo para que eles bebessem em sua festa. Após três anos de reinado de Jeoaquim, que era pró-egípcios, se rebelou contra a Nabucodonosor, porém morreu e seu filho Joaquim caiu sob o domínio do exército babilônio que levou cativas muitas pessoas. Onze anos depois, em 587 a.C., Zedequias também se rebelou culminando na aniquilação completa de Jerusalém e deportação da maioria de seus habitantes.

4) A conquista da Babilônia por Ciro em 539 a.C., por meio do seu general Dario que tinha sessenta e dois anos (5.31). A queda da Babilônia, e posterior decreto de Ciro em seu primeiro ano de reinado para a reconstrução do templo (2Cr 36.22,23).

 

1.d. Contexto literário

O livro de Daniel é dividido em duas partes. A primeira vai de 1.1 a 6.28, e a segunda vai de 7.1 a 12.13.

A primeira parte é uma parte histórica, que é cronológica indo desde o primeiro ano de Nabucodonosor, passando por Belsazar e chegando até o reino de Dario, dividida da seguinte maneira: Cap. 1 – a preparação babilônica de Daniel; Cap. 2 – o sonho de Nabucodonosor; Cap. 3 – A estátua de Nabucodonosor; Cap. 4 – O orgulho de Nabucodonosor; Cap. 5 – A queda da Babilônia; Cap. 6 – O decreto de Dario e o livramento de Daniel. Vemos uma progressão das atitudes hostis contra a religião judaica na sequência dos capítulos.

A segunda parte é uma parte apocalíptica e profética que pode ser dividida: Cap. 7 – Os quatro animais, os quatro impérios; Cap. 8 – O carneiro e o bode (que retratam o urso e o leopardo do Cap. 7); Cap. 9 – As setenta semanas e a explicação de Gabriel e; Caps. 10-12 – Os últimos acontecimentos.

Além disso, é possível ver paralelos entre as duas partes. Como podemos ver no quadro a seguir:

Capítulo 2 (estátua de Nabucodonosor). Capítulo 7 (quatro bestas da visão de Daniel). Quatro impérios (Babilônia, Medo-Persas, Grécia e Roma).
Capítulo 3 (Nabucodonosor faz uma imagem e requer adoração para si como um deus). Capítulo 8 (Bode, rei da Grécia que tirou o sacrifício diário e o lugar do santuário). Reis que se exaltam como Deus e interferem na adoração do povo de Deus.
Capítulo 4 (O julgamento de Nabucodonosor) Capítulo 9 (setenta semanas de Daniel) Sete aspectos de julgamento (HILL, 2007, p. 507).
Capítulo 5 (fim do Império Babilônico) Capítulo 10-12 (aproximação do fim) Juízo de Deus

 

 

2. ANÁLISE EXEGÉTICA

A análise exegética apresentada a seguir é o resultado da pesquisa exegética feita na planilha de exegese utilizada no curso. As referências aos tópicos e detalhes do texto dependem do conhecimento e da visualização da estrutura montada na segunda aba da planilha.

 

2.a. Apresentação da Estrutura

O texto analisado nessa exegese pode ser estruturado da seguinte maneira:

Tabela 1: Estrutura de Daniel 7.1-14

BHS Tradução
T1 A visão e o significado das bestas
בִּשְׁנַ֣ת חֲדָ֗ה לְבֵלְאשַׁצַּר֙ מֶ֣לֶךְ בָּבֶ֔ל L1 7.1 No primeiro ano de Belsazar, rei da Babilônia
דָּנִיֵּאל֙ חֵ֣לֶם חֲזָ֔ה וְחֶזְוֵ֥י רֵאשֵׁ֖הֶּ L2 Daniel teve uma visão em sonho e visões diante da sua face
עַֽל־מִשְׁכְּבֵ֑הּ בֵּאדַ֨יִן֙ חֶלְמָ֣א כְתַ֔ב רֵ֥אשׁ מִלִּ֖ין אֲמַֽר׃ L3 Quando estava sobre a cama e então logo escreveu o sonho e disse as principais palavras.
עָנֵ֤ה דָנִיֵּאל֙ וְאָמַ֔ר חָזֵ֥ה הֲוֵ֛ית בְּחֶזְוִ֖י עִם־לֵֽילְיָ֑א L4 2 Falou Daniel e disse: eu estava olhando durante a visão à noite
וַאֲר֗וּ אַרְבַּע֙ רוּחֵ֣י שְׁמַיָּ֔א מְגִיחָ֖ן לְיַמָּ֥א רַבָּֽא׃ L5 E eis que quatro ventos que agitavam o mar grande
וְאַרְבַּ֤ע חֵיוָן֙ רַבְרְבָ֔ן סָלְקָ֖ן מִן־יַמָּ֑א שָׁנְיָ֖ן דָּ֥א מִן־דָּֽא׃ L6 3 Quatro bestas grandes subiam do mar, diferentes uns dos outros.
קַדְמָיְתָ֣א כְאַרְיֵ֔ה וְגַפִּ֥ין דִּֽי־נְשַׁ֖רלַ֑הּ לַ֑הּ L7 4 A primeira (antigo) era como um leão e tinha asas de águia
חָזֵ֣ה הֲוֵ֡ית עַד֩ דִּי־מְּרִ֨יטוּ גַפַּ֜יהְּ L8 Enquanto eu estava olhando foram arrancadas as asas
וּנְטִ֣ילַת מִן־אַרְעָ֗א וְעַל־רַגְלַ֨יִן֙ כֶּאֱנָ֣שׁ הֳקִימַ֔ת L9 e foi levantada da terra e colocada em pé sobre os dois pés como homem
וּלְבַ֥ב אֱנָ֖שׁ יְהִ֥יב לַֽהּ׃ L10 E coração de homem foi dado a ela
וַאֲר֣וּ חֵיוָה֩ אָחֳרִ֨י תִנְיָנָ֜ה דָּמְיָ֣ה לְדֹ֗ב L11 5 E eis que uma outra besta, a segunda, semelhante a um urso
וְלִשְׂטַר־חַד֙ הֳקִמַ֔ת וּתְלָ֥ת עִלְעִ֛ין בְּפֻמַּ֖הּ בֵּ֣ין שִׁנַּ֑יהּ L12 E levantou de um lado e três costelas tinha na boca entre os dentes
וְכֵן֙ אָמְרִ֣ין לַ֔הּ ק֥וּמִֽי אֲכֻ֖לִי בְּשַׂ֥ר שַׂגִּֽיא׃ L13 E então diziam para ela: levanta e come muita carne.
בָּאתַ֨ר דְּנָ֜ה חָזֵ֣ה הֲוֵ֗ית וַאֲר֤וּ אָֽחֳרִי֙ כִּנְמַ֔רְ L14 6 Depois disto, eu estava olhando e eis outra besta, como um leopardo,
וְלַ֨הּ גַּפִּ֥ין אַרְבַּ֛ע דִּי־עֹ֖וף עַל־גַּבַּ֑יהְּ L15 E tinha nas costas quatro asas de pássaro
וְאַרְבְּעָ֤ה רֵאשִׁין֙ לְחֵ֣יוְתָ֔א וְשָׁלְטָ֖ן יְהִ֥יב לַֽהּ׃ L16 E a besta tinha quatro cabeças e foi-lhe dado domínio.
בָּאתַ֣ר דְּנָה֩ חָזֵ֨ה הֲוֵ֜ית בְּחֶזְוֵ֣י לֵֽילְיָ֗אְ L17 7 Depois disto, eu estava olhando nas visões da noite
וַאֲר֣וּ חֵיוָ֣ה רְֽבִיעָיָ֡ה דְּחִילָה֩ וְאֵֽימְתָנִ֨יְ וְתַקִּיפָ֜א יַתִּ֗ירָא L18 E eis a quarta besta, aterrorizante, terrível e extremamente poderosa,
וְשִׁנַּ֨יִן דִּֽי־פַרְזֶ֥ל לַהּ֙ רַבְרְבָ֔ן אָֽכְלָ֣ה וּמַדֱּקָ֔הַ L19 E tinha grandes dentes de aço, devorava e destruía
וּשְׁאָרָ֖א בְּרַגְלַ֣יהּ רָפְסָ֑הַ L20 E o pisoteava o restante
וְהִ֣יא מְשַׁנְּיָ֗ה מִן־כָּל־חֵֽיוָתָא֙ דִּ֣י קָֽדָמַ֔יהּ וְקַרְנַ֥יִן עֲשַׂ֖ר לַֽהּ׃ L21 Ela era diferente de todas as bestas antes dela, e tinha dez chifres.
מִשְׂתַּכַּ֨ל הֲוֵ֜ית בְּקַרְנַיָּ֗א L22 8 Enquanto eu contemplava os chifres
וַ֠אֲלוּ קֶ֣רֶן אָחֳרִ֤י זְעֵירָה֙ סִלְקָ֣ת בֵּֽינֵיהֵ֔ון L23 Eis que outro chifre pequeno subiu entre eles
וּתְלָ֗ת מִן־קַרְנַיָּא֙ קַדְמָ֣יָתָ֔א אֶתְעֲקַ֖רָו מִן־קֳדָמַ֑יהּ L24 E três dos primeiros chifres foram arrancados
וַאֲל֨וּ עַיְנִ֜ין כְּעַיְנֵ֤י אֲנָשָׁא֙ בְּקַרְנָא־דָ֔א L25 E eis que tinha olhos como de homem
וּפֻ֖ם מְמַלִּ֥ל רַבְרְבָֽן׃ L26 E uma boca que falava com altivez.
T2 A Visão do Trono de Deus
חָזֵ֣ה הֲוֵ֗ית עַ֣ד דִּ֤י כָרְסָוָן֙ רְמִ֔יו L27 9 Então eu estava olhando até que tronos foram postos
וְעַתִּ֥יק יֹומִ֖ין יְתִ֑ב לְבוּשֵׁ֣הּ׀ כִּתְלַ֣ג חִוָּ֗ר L28 E o ancião de dias se assentou, sua veste era branca como a neve
וּשְׂעַ֤ר רֵאשֵׁהּ֙ כַּעֲמַ֣ר נְקֵ֔א L29 E o cabelo de sua cabeça como lã pura,
כָּרְסְיֵהּ֙ שְׁבִיבִ֣ין דִּי־נ֔וּר גַּלְגִּלֹּ֖והִי נ֥וּר דָּלִֽק׃ L30 o trono eram chamas de fogo, e as suas rodas queimavam com fogo.
נְהַ֣ר דִּי־נ֗וּר נָגֵ֤ד וְנָפֵק֙ מִן־קֳדָמֹ֔והִי L31 10 Um rio de fogo fluía e saía de diante dele
אֶ֤לֶף אַלְפִים֙ יְשַׁמְּשׁוּנֵּ֔הּ וְרִבֹּ֥ו רִבְוָ֖ן קָֽדָמֹ֣והִי L32 Milhares de milhares o serviam, e dez milhares de dez milhares estavam diante dele
יְקוּמ֑וּן דִּינָ֥א יְתִ֖ב וְסִפְרִ֥ין פְּתִֽיחוּ׃ L33 Assentou-se o tribunal e os livros foram abertos.
חָזֵ֣ה הֲוֵ֔ית בֵּאדַ֗יִן L34 11 Enquanto eu estava olhando então
מִן־קָל֙ מִלַּיָּ֣א רַבְרְבָתָ֔א דִּ֥י קַרְנָ֖א מְמַלֱּלָ֑ה L35 Por causa da voz das palavras altivas que o chifre falava
חָזֵ֣ה הֲוֵ֡ית עַד֩ דִּ֨י קְטִילַ֤ת חֵֽיוְתָא֙ L36 Eu estava olhando até que foi morta a besta,
וְהוּבַ֣ד גִּשְׁמַ֔הּ וִיהִיבַ֖ת לִיקֵדַ֥ת אֶשָּֽׁא׃ L37 e seu corpo foi destruído e foi queimado no fogo.
וּשְׁאָר֙ חֵֽיוָתָ֔א הֶעְדִּ֖יו שָׁלְטָנְהֹ֑ון L38 12 E o restante das bestas lhes foram tirados o domínio
וְאַרְכָ֧ה בְחַיִּ֛ין יְהִ֥יבַת לְהֹ֖ון עַד־זְמַ֥ן וְעִדָּֽן׃ L39 E foi lhes dada prolongação de vida por um período de tempo.
T3 A visão da vinda do Filho do Homem
חָזֵ֤ה הֲוֵית֙ בְּחֶזְוֵ֣י לֵֽילְיָ֔א L40 13 Enquanto eu estava olhando nas visões da noite
וַאֲרוּ֙ עִם־עֲנָנֵ֣י שְׁמַיָּ֔א כְּבַ֥ר אֱנָ֖שׁ אָתֵ֣ה הֲוָ֑ה L41 Eis que com as nuvens do céu como Filho do Homem vinha
וְעַד־עַתִּ֤יק יֹֽומַיָּא֙ מְטָ֔ה L42 E foi até o Ancião de Dias,
וּקְדָמֹ֖והִי הַקְרְבֽוּהִי׃ L43 e foi convocado para estar diante dele.
וְלֵ֨הּ יְהִ֤יב שָׁלְטָן֙ וִיקָ֣ר וּמַלְכ֔וּ L44 14 Foi-lhe dado domínio, e honra, e o reino
וְכֹ֣ל עַֽמְמַיָּ֗א אֻמַיָּ֛א וְלִשָּׁנַיָּ֖א לֵ֣הּ יִפְלְח֑וּן L45 E todos os povos, nações e línguas eram para servi-lo
שָׁלְטָנֵ֞הּ שָׁלְטָ֤ן עָלַם֙ דִּֽי־לָ֣א יֶעְדֵּ֔ה L46 O seu domínio é domínio eterno que não acabará
וּמַלְכוּתֵ֖הּ דִּי־לָ֥א תִתְחַבַּֽל׃ פ׃ L47 E seu reino que não será destruído.

Fonte utilizada: SBL Hebrew (Logos Bible Software)

 

2.a.1. Justificar a estrutura.

O texto de Daniel 7.1-14 se divide em três seções:

  • A visão e o significado das bestas (L1-L26);
  • A visão do Trono de Deus (L27-39);
  • A visão da vinda do Filho do Homem (L40-L47).

A primeira seção se inicia, depois de situar o texto no primeiro ano de Belsazar, cita as palavras chelem hazah vehezev (teve uma visão em sonho e visões). Na sequência temos três cenas vistas por Daniel em sonho e visões da noite. Nessa primeira seção, que vai da L1 até a L26 temos a visão das Bestas, o significado e seu fim.

A segunda seção se inicia com as palavras hazeh haveit (então eu estava olhando), palavras que se repetem da mesma maneira por oito vezes na perícope, dando a ideia da sequência da visão de Daniel. Depois de ver as bestas e o fim delas, Daniel, ainda em visão vê outra cena: o Trono de Deus da L27 até L39. Nessa visão Daniel vê o Ancião de Dias como juiz sobre toda a terra e sobre as bestas.

A terceira seção também se inicia com as palavras hazeh haveit (enquanto eu estava olhando), mostrando a sequência das cenas vistas por Daniel. Em seguida, Daniel, ainda em suas visões da noite, agora vê outra cena: O Filho do Homem vindo com as nuvens que vai da L40 até L47.

 

2.b. Primeiro tema: A visão, o significado e o fim das bestas. (L1-26)

A segunda metade do livro de Daniel se inicia nessa perícope. Aqui temos um paralelo com o texto de Daniel 2, sobre a estátua de Nabucodonosor, onde temos a equivalência:

Daniel 2.37,38: Cabeça de Ouro (Babilônia) Daniel 7.4: Leão com asas e coração de homem (Babilônia)
Daniel 2.39a: Reino de Prata (Medo-Persas) Daniel 7.5: Urso (Medo-Persas)
Daniel 2.39b: Reino de Bronze (Grécia) Daniel 7.6: Leopardo com quatro asas e quatro cabeças (Grécia)
Daniel 2.41: Reino de Ferro e Barro (Roma) Daniel 7.7: Animal terrível, forte e espantoso (Roma)
Daniel 2.44: Reino Eterno (Jesus Cristo) Daniel 7.13,14: O Filho do Homem (Jesus Cristo)

Desta forma, já no primeiro ano de Belsazar, filho de Nabonido, sucessor de Nabuconodosor, Daniel já tem uma visão do que aconteceria com o povo de Israel nos próximos séculos.

Em toda essa primeira seção, todos os verbos estão no perfeito, dando uma ideia de um aspecto momentâneo, um passado definido. Segundo Pinto, o perfeito “denota ação completa numa ocasião no passado indicada pela narrativa” (PINTO, 2013, p.58). Nesse caso, temos uma visão de Daniel de algo que acontecerá no futuro, mas que certamente acontecerá, por isso já relata no perfeito.

Na L3 temos a palavra resh que significa cabeça, principal. Nesse caso, Daniel escreveu as palavras mais importantes referente às visões que teve, a suma de todas as coisas. Além disso temos a palavra ‘edayin que significa logo, depois, imediatamente. Desta forma, Daniel não deixou para escrever as visões muito tempo depois, mas tão logo que despertou do sonho, escreveu a suma, o resumo, as principais palavras referente ao que viu nas visões.

O verbo chazah’ (vendo) ocorre 29 vezes em aramaico. Sendo 28 vezes em Daniel: 7 vezes no Cap. 2 e 7 vezes nessa perícope. A ênfase de nossa perícope está na visão de Daniel, naquilo que é mostrado a ele. Além disso, a expressão ‘aruw (eis que) só ocorre 5 vezes em todo AT, sendo as cinco vezes nessa perícope (7.2; 7.5; 7.6; 7.7; 7.13), em que Daniel está expondo para seus leitores exatamente aquilo que viu. Seu propósito aqui é colocar diante dos seus leitores uma exposição fiel daquilo que ele viu.

A visão se inicia com um mar agitado e quatro bestas subindo do mar. Segundo Dillard, “naquele tempo, o mar era uma imagem evocativa do mal e do caos. Enquanto as montanhas representavam a ordem e o divino, o mar simbolizava confusão e desordem, a maldade e o mal (Salmos 46)” (DILLARD, 2006, p. 336). As quatro bestas trazem uma visão de algo poderoso e grotesco, sendo que as três primeiras são comparadas com animais, e a última é uma fera terrível sem algo igual na criação. O propósito é mostrar os poderes que se levantaram e se levantariam contra o povo de Deus (Dn 7.17).

A primeira besta vista por Daniel (L7-10) é como um leão, tinha asas de águia que foram arrancadas, levantado da terra e colocado sobre dois pés, como homem e dado um coração de homem. Inicia com a preposição ki que significa como, semelhante. Nesse caso, não é exatamente um leão, mas tem semelhança com um leão. A visão nos dá uma imagem que junta leão, águia e homem. O leão com poder de águia nos dá uma ideia de domínio, força e abrangência. Esses animais, no livro de Jeremias, descrevem Nabucodonosor (Jr 49.19-22). O fato de as asas serem arrancadas e a besta ser colocada sobre dois pés como homem, aponta para Daniel 4, para a loucura de Nabucodonosor, quando em sua arrogância demonstra todo seu orgulho dizendo: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade?” (Dn 4.30). Nabucodonosor, tem suas asas arrancadas, e ele que tinha domínio e poder, agora se torna como um animal do campo (Dn 4.16) e quando volta a si em seu entendimento, novamente passa a ter mente (coração) de homem (Dn 4.34).

A segunda besta vista por Daniel (L11-13) é semelhante a um urso, que segundo Baldwin, “o urso marrom da Síria pode chegar a 250 kg de peso e tem um apetite voraz” (Baldwin, 2011, p. 148). Nesse caso, temos uma segunda besta, quase tão poderosa quanto a primeira, e pode ser uma representação do império Medo-Persa (descrito também em Dn 2.32,39). Alguns estudiosos apontam para as três costelas na boca como três reinos conquistados por eles: Lídia, Egito e Babilônia. Contudo a ideia aqui não necessariamente seja de três reinos exatamente pois Ciro subjugou muitas nações. Além disso, há quem defenda que a segunda besta apenas como Média, a terceira como Pérsia e a quarta como Grécia. Independente de qual nação seja, sabemos que as bestas são governos da terra, que recebem domínio do alto, ou seja, não são autossuficientes, são terríveis, têm o seu tempo determinado por Deus e serão destruídos.

A terceira besta vista por Daniel (L14-16) é semelhante a um leopardo com quatro asas de ave, quatro cabeças e foi-lhe dado domínio. O leopardo é um dos animais mais velozes no reino animal, e as asas nas costas aponta para uma rapidez ainda maior, sendo inigualável. Quatro cabeças mostra primeiramente que olha para os quatro pontos cardeais à procura de caça. O fato de ter recebido domínio, mostra que está debaixo de um poder maior, assim como as outras feras. Essa besta, em paralelo com Daniel 2, pode ser identificada com o Império Grego, de Alexandre o Grande. Pois conquistou o mundo com velocidade inigualável, em dez anos apenas. O paralelo com o capítulo 2 de Daniel também pode ser visto pela expressão aramaica ‘athar (depois) que ocorre apenas 4 vezes no livro de Daniel, sendo duas no cap. 2, e duas no cap. 7 (7.6; 7.7), mostrando a sequência da visão de Daniel. Mais tarde, como pode ser visto no capítulo 8, quatro reis sucedem Alexandre o Grande: Selêucio (Ásia Maior), Antígono (Ásia Menor), Cassandro que foi sucedido por Antípater (Macedônia)e Ptolomeu (Egito).

A quarta besta vista por Daniel (L17-26) é um animal terrível, espantoso e sobremodo forte. Daniel utiliza três palavras para descrever a besta. Diferentemente das anteriores que são semelhantes a animais, essa agora não tem nenhum equivalente na criação. Daniel utiliza um particípio passivo para identificar a besta como algo que causa medo, terror (d’hiylah). Em seguida utiliza um adjetivo sinônimo que significa terrível, espantoso (‘eymtaniy), intensificando o significado, primeiramente no que a besta causa em quem a vê, e em segundo lugar no que ela de fato é. Além disso a besta é extremamente forte e poderosa. Segundo Goldingay: “se ela representa a Grécia, então fatores circunstanciais sugerem que seja um elefante” (GOLDINGAY, 1989, p. 163). Entretanto, essa interpretação seria uma interpretação de uma autoria no segundo século, que foi rejeitada neste trabalho. De qualquer maneira, podemos perceber que o animal não é comparado a nada na criação e é mais poderoso que todas os outros que vieram antes dele. Daniel mostra então características físicas e ações da besta: tinha grandes dentes de ferro e dez chifres. A palavra aramaica qeren (chifre) ocorre 10 vezes no AT, somente em Daniel, sendo quatro vezes no Cap. 3, sendo traduzida por trombeta. E 6 vezes em Daniel 7, com o significado de força, governos, reis. Daniel ainda mostra os dentes de ferro que devoravam e destruíam suas presas, pisando aqueles que restavam. Os dez chifres, segundo o versículo 24, são dez reis que se levantarão daquele reino. Esse reino é defendido como Roma, uma vez que a primeira vinda do Messias ocorre no período do Império Romano. Dez reis aponta para um período grande de reinado, com muitas sucessões. Por fim, um chifre pequeno sobe e três chifres são arrancados, abatendo três reis. Esse pequeno chifre tem olhos como de homem e boca que fala com arrogância, insolência. Os olhos apontam para um certo conhecimento daquilo que ocorre ao seu redor, e a boca falando com insolência aponta para sua arrogância e desejo de usurpar uma glória que não é dele. O pequeno chifre, segundo o versículo 24 e 25 aponta para o Anticristo, que se levantará contra os santos buscando mudar os tempos e a lei, tendo os santos em suas mãos por três tempos e meio tempo (vs. 25). Dessa maneira, o período do quarto animal vai desde a vinda do Messias, até a sua segunda vinda, quando virá para tirar o domínio da última besta e destruí-la.

 

2.c. Segundo tema: A visão do Trono de Deus. (L27-39)

Temos aqui uma transição abrupta. Depois de mostrar através das quatro bestas o reino mau do homem, agora Daniel em suas visões passa a ver o reino bom de Deus. Antes, sua visão era de animais grotescos e medonhos, agora ele vê um venerável, um Ancião de Dias.

Na sequência de suas visões: enquanto eu estava olhando (hazeh haveit), Daniel agora vê o Trono de Deus. Nas linhas 27 a 30 temos uma sequência ainda no perfeito, que mostra o Trono de Deus que existe desde a eternidade e permanece, continua no presente. Foram postos uns tronos, contudo, conforme Baldwin “apenas um foi ocupado, e a atenção do vidente é atraída por este, o único que realmente importava” (BALDWIN, 2011, p. 149). Primeiramente Daniel identifica aquele que se assentou no trono como Ancião de Dias. A ideia é mostrar que é um homem idoso assentado no trono, alguém que certamente é sábio (visão dos anciãos como líderes do povo por terem mais experiência e sabedoria) e aponta também para a eternidade de Deus. Em seguida Daniel passa a descrever o Ancião de Dias. Sua veste era branca como a neve apontando para a pureza do Senhor, e seus cabelos são brancos como a lã apontando para sua eternidade. À semelhança da visão de Ezequiel 1.26,27, Daniel vê uma carruagem-trono do Senhor da qual sai um rio de fogo. O trono e suas rodas estão envolto de chamas de fogo e do trono emana um rio de fogo. A palavra aramaica nuwr ocorre 14 vezes no livro de Daniel. Sendo 12 vezes no capítulo 3, do episódio da fornalha de fogo e duas nesta perícope. Neste caso, o fogo aponta para a presença real de Deus e do seu juízo. A sarça que Moisés encontra no deserto estava envolta em fogo, apontando tanto para a santidade de Deus quanto para sua presença (Ex 3.3). Em Malaquias 4.1 temos o juízo de Deus sendo comparado com o fogo de uma fornalha.

Na sequência, das linhas 31 a 33, Daniel muda o tempo dos verbos. Agora não mais no perfeito, mas no imperfeito. Ele diz que milhares de milhares o serviam e miríades de miríades estavam diante dele. Ambos os verbos no imperfeito, apontando para uma ação inacabada, ou seja, Deus é continuamente adorado e servido no seu trono para todo o sempre. A ideia da repetição de milhares de milhares e miríades de miríades aponta para uma intensidade do número, é um número incontável de servos diante do Senhor. Em seguida, o tempo volta para o perfeito, voltando novamente para a realidade futura, mas ao mesmo tempo real e certa, quando o tribunal é instaurado e os livros são abertos. Isso mostra o início do julgamento de Deus. Os livros mostram que Deus julgará todos os atos da história, e nada está encoberto diante do seu julgamento.

Nas linhas 34 a 39 temos o julgamento das bestas. A quarta besta é morta, seu corpo é destruído e entregue para ser queimado. A besta que persegue a igreja é destruída e condenada pelo Senhor, o Ancião de Dias que é soberano sobre toda a história. A sequência é um pouco obscura pois as três primeiras bestas não são mortas, entretanto o que fica claro é que o domínio delas lhes é tirado, de alguma maneira, o que aqueles reinos representavam continuará de alguma forma, porém por apenas um curto período de tempo, até que serão completamente destruídos.

 

2.d. Terceiro tema: A visão da vinda do Filho do Homem. (L40-47)

Novamente temos uma mudança de cena. Agora, Daniel, em suas visões, passa a ver a vinda do Filho do Homem. Na sequência de suas visões, agora temos uma introdução maior que nas outras duas divisões: enquanto eu estava olhando (hazeh haveit) nas minhas visões da noite. Daniel mostra a continuidade das visões, porém com uma nova cena. Nas linhas 40 a 43 temos uma sequência de verbos ainda no perfeito, que mostra a certeza da vinda do Filho do Homem, um evento escatológico que certamente acontecerá no futuro.

A palavra “eis” (‘aruw) mostra que Daniel está expondo para seus leitores exatamente aquilo que viu. Seu propósito aqui é colocar diante dos seus leitores uma exposição fiel daquilo que ele viu. Novamente ele não vê um animal, mas a semelhança de um Filho do Homem, subordinado ao Ancião de Dias. Esse Filho do Homem vem com as nuvens do céu. As nuvens apontam para o pacto do Sinai, onde a glória do Senhor aparecia na nuvem (Êx 16.10). Em todo o Pentateuco, palavra “nuvens” ocorre 3 vezes em Gênesis, na alusão do Pacto de Deus com Noé em Gênesis 9.13-16. Em Deuteronômio ocorre 2 vezes, em Deuteronômio 4.11 fazendo menção ao monte do Senhor e Deuteronômio 33.26 que diz que Deus cavalga sobre os céus e com a sua alteza sobre as nuvens. Essa palavra também ocorre 12 vezes nos salmos (18.11,12; 36.5; 57.10; 68.4; 77.17; 97.2; 104.3; 105.31; 108.4; 135.7; 147.8) sendo a maioria deles relacionado com a presença de Deus. No Salmo 68.4 diz: “exaltai o que cavalga sobre as nuvens. SENHOR é o seu nome, exultai diante dele”. Desta maneira, alguém como um homem vem cavalgando sobre as nuvens. Ele é como um homem, assim como as bestas eram como leão, urso e leopardo. Diferentemente dos animais, esse agora representa aqueles que foram criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26). Aqui já temos uma prefiguração da pessoa do Mediador, Jesus Cristo.

A expressão “filho do homem” é de longe a mais utilizada a respeito de Jesus em todo o Novo Testamento e o modo favorito de Jesus ao se referir a si mesmo. Ele refere a si mesmo como Filho do Homem por mais de quarenta vezes. Contudo, esse título poderia significar apenas um homem comum, como a própria tradução do termo parece trazer. No Hebraico, o significado poderia ser Filho de Adão. Contudo, por meio desse título, Jesus Cristo reivindicou para si tanto a dignidade messiânica quanto a função messiânica.

O Filho do Homem dirigiu-se ao Ancião de Dias, e o fizeram chegar até ele. Aqui temos uma demonstração da presidência do Ancião de Dias tanto no Tribunal quanto na cerimônia de investidura e coroação do Filho do Homem. Este então é submisso ao Ancião de Dias, e ao mesmo tempo é honrado por ele e dele recebe a glória, o domínio e o reino.

O Filho do Homem recebe do Ancião de Dias, o SENHOR: o domínio, a glória e o reino. A palavra aramaica sholtan (domínio) ocorre 9 vezes em Daniel (Dn 4.3 – Nabucodonosor reconhecendo o domínio do Deus Altíssimo; Dn 4.22 – domínio de Nabucodonosor; Dn 4.34 – domínio do Altíssimo; Dn 6.26 – domínio do Deus vivo por Dario; Dn 7.6 – domínio do leopardo; Dn 7.12 – foi tirado o domínio das bestas; Dn 7.14 – domínio eterno do Filho do Homem; Dn 7.26 – tirar o domínio de destruir as bestas; Dn 7.27 – domínio do Filho do Homem). O domínio que antes estava nas mãos de usurpadores, agora está nas mãos daquele que é de direito. Percebemos que o domínio é dado por Deus na história a quem ele quer, para cumprir os seus propósitos eternos. A palavra y’qar (glória) é a tradução aramaica de kabod em hebraico. Essa palavra significa peso, honra, e está relacionada tanto com o domínio quanto com o reinado. Ele tem todo o domínio, é o rei sobre toda a terra e é glorioso. Ele recebe a glória do Ancião de Dias. A palavra aramaica malkuw (reino) ocorre 39 vezes no livro de Daniel e é uma das palavras que mais se repete. Ocorre 6 vezes em Daniel 2 (quatro reinos em paralelo com essa perícope). Em Daniel 5.26, Deus deu cabo do teu reino (Belsazar). Belsazar perde o domínio e seu reino teve um fim. Em Daniel 6.26 – Dario diz que em todo domínio do seu reino, os homens tremam diante do Deus de Daniel, porque ele é o Deus vivo que permanece para sempre, o seu reino não será destruído e seu domínio não terá fim. Agora, Daniel vê aquele cujo reino, glória e domínio não acabam, permanecem para sempre. Diferentemente de reis humanos, que tem um poder temporário dado por Deus, o Filho do Homem, aquele que virá com as nuvens, tem um domínio, poder e glória eternos. Seu reino não passará e jamais será destruído, diferentemente dos reinos de Nabucodonosor, Belsazar, Dario, Ciro, Alexandre, o Grande e dos Imperadores Romanos. Em Daniel 7.27b temos: “O seu reino será reino eterno, todos os domínios lhe servirão e obedecerão”.

Em seguida, das linhas 45 a 47 temos uma sequência de três verbos no imperfeito. Esses verbos, segundo Pinto, “tem um aspecto contínuo” (PINTO, 2006, p. 66). Ou seja, Daniel muda o tempo dos verbos para mostrar a continuidade eterna dos atos. Os três verbos são: para que o servissem (nações e homens de todas as línguas), não passará (domínio) e não será destruído (reino). O Filho do Homem, depois de receber o domínio, o reino e a glória, agora recebe aquilo que é de direito: é servido para sempre e jamais será destruído ou perderá o domínio. Seu reino, domínio e glória são perenes, eternos e firmes. Além disso, Daniel vê nações e homens de todas as línguas prestando reverência, ministrando diante dele. Desta maneira, temos aqui uma profecia de que o Filho do Homem, que recebe a glória, o reino e o domínio para sempre, será servido, não apenas por judeus, de língua hebraica, ou mesmo aramaica, mas por pessoas de todas as nações, incluindo aquelas que eram aparentemente inimigas. Os gentios também estarão diante dele, servindo-o.

Temos aqui nessa terceira seção uma profecia que é repetida em Apocalipse 1.7: “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamentarão sobre ele. Certamente. Amém!”. Neste caso, João se refere à segunda vinda de Cristo, quando voltará para julgar as nações e para reinar com os eleitos para todo o sempre.

Daniel não faz uma separação entre as duas vindas de Cristo, o Filho do Homem, nesse texto. Contudo, sabemos que o reinado de Cristo se inicia na sua primeira vinda, uma vez que ele já reina, e já foi coroado de glória. Porém, ele voltará nas nuvens para estabelecer seu reino terreno juntamente com a igreja para todo o sempre na Nova Jerusalém.

 

3. CONCLUSÃO

Esta investigação exegética tratou de Daniel 7.1-14 conforme apresentado na estrutura descrita. Conforme a estrutura, concluímos que a perícope contém três temas. O primeiro tema (L1-26) se inicia, depois de situar o texto no primeiro ano de Belsazar, cita as palavras chelem hazah vehezev (teve uma visão em sonho e visões). Na sequência temos três cenas vistas por Daniel em sonho e visões da noite. Nessa primeira seção, que vai da L1 até a L26 temos a visão das Bestas e o seu significado. Daniel vê quatro bestas, que são um paralelo com a visão da estátua do Cap. 2, que representam a Babilônia, Medo-Persas, Grécia e Roma. A última besta também aponta para o Anticristo, o chifre pequeno, que se levantará contra a igreja e prevalecerá por um tempo, porém será destruído pelo Senhor.

O segundo tema (L27-39) se inicia com as palavras hazeh haveit (então eu estava olhando), palavras que se repetem da mesma maneira por oito vezes na perícope, dando a ideia da sequência da visão de Daniel. Depois de ver as bestas e o fim delas, Daniel, ainda em visão vê outra cena: o Trono de Deus. Nessa visão Daniel vê o Ancião de Dias como juiz sobre toda a terra e sobre as bestas. Há vários tronos, porém apenas um trono é ocupado. O trono do Ancião de Dias, que é a pessoa de YHWH, que tem todo domínio e julgará todos os atos da história retamente.

O terceiro tema (L40-47) também se inicia com as palavras hazeh haveit (enquanto eu estava olhando), mostrando a sequência das cenas vistas por Daniel. Daniel, ainda em suas visões da noite, agora vê outra cena: O Filho do Homem vindo com as nuvens. Aqui temos uma profecia da vinda do Messias para reinar eternamente. Ele recebe poder, glória e o reino para sempre. É servido eternamente, e seu reino não tem fim.

Esta pesquisa também aponta, não apenas para o seu cumprimento em Cristo, na sua primeira vinda em seu reino que não tem fim, uma vez que Jesus Cristo já foi coroado de glória, mas para um cumprimento final em Apocalipse, quando o Dia do SENHOR virá para julgar todas as nações. Diante das injustiças, do sofrimento do seu povo, Deus fará justiça e trará vingança sobre os seus inimigos naquele dia. Ninguém ficará impune, e Deus condenará os ímpios e salvará o seu povo para a glória do seu Nome. Jesus Cristo virá nas nuvens com poder e grande glória para reinar eternamente na Nova Jerusalém juntamente com os eleitos que serão ressuscitados e glorificados.

Não conseguimos tratar sobre a questão da prolongação da vida por um prazo de tempo das três primeiras bestas (L39). Por que a quarta é destruída e as outras três permanecem, quem seriam essas bestas, uma vez que os reinos já passaram, e como seria esse poder limitado.

 

4. Bibliografia

 

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