Gênesis 3.1-12 – A queda do homem

Introdução

Muito se fala sobre a origem do homem, e consequentemente, o capítulo 3 do livro de Gênesis não pode deixar de ser mencionado. Na história dos começos, temos a explicação divina da queda e condição arruinada da raça humana. Neste capítulo vemos a sutileza de Satanás, inimigo de nossas almas em querer destruir o homem. Estes tão importantes versículos também nos revelam os efeitos espirituais da queda do homem, quando este é tomado pelo medo e foge de Deus. Vemos também como o homem procura cobrir sua vergonha moral, em uma tentativa frustrada com uma obra de suas próprias mãos. Vemos por fim um Deus que vai em busca do homem, mesmo quando este se torna um inimigo.

Por fim, quando não se compreende bem a queda do homem, é impossível compreender bem a redenção do homem. Por isso, neste trabalho daremos atenção ao texto de Gênesis 3.1-12.

 

Tradução literária

E a serpente, era (mais) sagaz de todo animal do campo que criou YHWH Deus, então disse à mulher: De fato que Deus disse: não comerás de toda árvore do jardim?

E respondeu a mulher para a serpente: Do fruto da árvore do jardim comemos. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: não comereis dele e nem tocareis nele para que não morrais.

Então disse a serpente para a mulher: Certamente não morrereis. Porque sabe Deus que no dia que comerdes dele se vos abrirão os olhos e vos tornareis como Deus, conhecendo bem e mal.

E viu a mulher que a árvore era boa para ser comida e agradável para os olhos e a árvore era desejável para ter conhecimento, então tomou do fruto e comeu, e deu também para seu marido ao seu lado e ele comeu.

Então foram abertos os olhos de ambos, e perceberam que eles estavam nus, e costuraram folhas de figueira, e fizeram para si cintas.

Então ouviram a voz de YHWH Deus, que andava no jardim pela brisa do dia e se escondeu o homem e a sua mulher da face de YHWH Deus no meio das árvores (floresta) do jardim.

Então chamou YHWH Deus pelo homem e disse a ele: Onde estás?

Então ele respondeu: tua voz ouvi no jardim e tive medo porque eu (estava) nu e me escondi.

Então respondeu (YHWH Deus): quem declarou para ti que tu (estavas) nu, da árvore da qual ordenei para ti não comer, comeste?

Então respondeu o homem: a mulher que deste para mim, ela deu para mim da árvore e eu comi.

 

Comparação com outras versões

Versículo 1
Tradução E a serpente, era (mais) sagaz de todo animal do campo que criou YHWH Deus, então disse à mulher: De fato que Deus disse: não comerás de toda árvore do jardim?
ACF 1 Ora, a serpente era mais astuta que todas as alimárias do campo que o SENHOR Deus tinha feito. E esta disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda a árvore do jardim?
ARA 1 Mas a serpente, mais sagaz que todos os animais selváticos que o SENHOR Deus tinha feito, disse à mulher: É assim que Deus disse: Não comereis de toda árvore do jardim?
Católica 1. A serpente era o mais astuto de todos os animais dos campos que o Senhor Deus tinha formado. Ela disse a mulher: É verdade que Deus vos proibiu comer do fruto de toda árvore do jardim?”
NVI 1 Ora, a serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito. E ela perguntou à mulher: “Foi isto mesmo que Deus disse: ‘Não comam de nenhum fruto das árvores do jardim’? “
 

Comentário: O comparativo superlativo mais não aparece no hebraico, porém dá a entender que a serpente era sagaz de todo animal do campo uma vez que temos a preposição min acrescida da palavra todo[2]. O verbo “criou” עָשָׂה (ashah) é um perfeito qal, que dá a ideia de (de uma ação completa). O verbo “comerás” תֹאכְלוּ (tochelu) é um verbo qal ativo imperfeito que dá a ideia de proibição que expressa instrução negativa na literatura legal, o uso de לֹא com o imperfeito é comum em contextos legais (Ex 12.10, Ex 20.13) dando a ideia de proibição[3], um imperativo no português.

Versículo 2
Tradução E respondeu a mulher para a serpente: Do fruto da árvore do jardim comemos.
ACF 2 E disse a mulher à serpente: Do fruto das árvores do jardim comeremos,
ARA 2 Respondeu-lhe a mulher: Do fruto das árvores do jardim podemos comer,
Católica 2. A mulher respondeu-lhe: Podemos comer do fruto das árvores do jardim.
NVI 2 Respondeu a mulher à serpente: “Podemos comer do fruto das árvores do jardim,
 

Comentário: A palavra “comemos” (נֹאכֵל) é   um imperfeito que dá a ideia de ação habitual[4], então traduzimos como comemos, no sentido de sempre comemos. A ACF traduz como futuro: “comeremos”, e as versões ARA, Católica e NVI traduzem como “podemos comer”.

Versículo 3
Tradução Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: não comereis dele e nem tocareis nele para que não morrais.
ACF 3 Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais.
ARA 3 mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Dele não comereis, nem tocareis nele, para que não morrais.
Católica 3. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: Vós não comereis dele, nem o tocareis, para que não morrais.”
NVI 3 mas Deus disse: ‘Não comam do fruto da árvore que está no meio do jardim, nem toquem nele; do contrário vocês morrerão’ “.
 

Comentário: as palavras “para que não morrais” (פֶּן־תְּמֻתוּן) é uma partícula negativa pen seguida do verbo imperfeito, e tem um uso posterior de contingente, dando uma ideia de contingência[5], uma condicional negativa. Ou seja, não é um processo, mas uma consequência sendo traduzido como “para que não morrais.”

Versículo 4
Tradução Então disse a serpente para a mulher: Certamente não morrereis.
ACF 4 Então a serpente disse à mulher: Certamente não morrereis.
ARA 4 Então, a serpente disse à mulher: É certo que não morrereis.
Católica 4. “Oh, não! – tornou a serpente – vós não morrereis!
NVI 4 Disse a serpente à mulher: “Certamente não morrerão!
 

Comentário: a tradução “certamente não morrereis” a palavra certamente não está no hebraico, porém, há um verbo infinitivo (morrer) seguido de um verbo imperfeito de mesma raiz, que dá a ideia de ênfase: “certamente não morrereis” (לֹא־מוֹת תְּמֻתוּן).

Versículo 5
Tradução Porque sabe Deus que no dia que comerdes dele se vos abrirão os olhos e vos tornareis como Deus, conhecendo bem e mal.
ACF 5 Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.
ARA 5 Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se vos abrirão os olhos e, como Deus, sereis conhecedores do bem e do mal.
Católica 5. Mas Deus bem sabe que, no dia em que dele comerdes, vossos olhos se abrirão, e sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal.”
NVI 5 Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês serão como Deus, conhecedores do bem e do mal”.
 

Comentário: Na Bíblia Católica, traduzem “como deuses” (כֵּאלֹהִים) ao invés de como Deus, traduzido por todas as outras versões. O verbo traduzido como “conhecendo” é um particípio construto, que é traduzido pela Católica e NVI como “conhecedores do” e pela ARA como “sereis conhecedores”. Optamos pelo gerúndio, que é uma possibilidade do particípio, assim como a ACF que traduziu como “sabendo”.

 

Versículo 6

Tradução E viu a mulher que a árvore era boa para ser comida e agradável para os olhos e a árvore era desejável para ter conhecimento, então tomou do fruto e comeu, e deu também para seu marido ao seu lado e ele comeu.
ACF 6 E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu, e deu também a seu marido, e ele comeu com ela.
ARA 6 Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e árvore desejável para dar entendimento, tomou-lhe do fruto e comeu e deu também ao marido, e ele comeu.
Católica 6. A mulher, vendo que o fruto da árvore era bom para comer, de agradável aspecto e mui apropriado para abrir a inteligência, tomou dele, comeu, e o apresentou também ao seu marido, que comeu igualmente.
NVI 6 Quando a mulher viu que a árvore parecia agradável ao paladar, era atraente aos olhos e, além disso, desejável para dela se obter discernimento, tomou do seu fruto, comeu-o e o deu a seu marido, que comeu também.
 

Comentário: a palavra “para ser comida” (לְמַאֲכָל) na verdade é uma preposição seguida de um substantivo “comida”, não há o verbo ser, mas todas as versões optaram por colocar o verbo para dar sentido no português. A palavra (לְהַשְׂכִּיל ) que foi traduzida como “para ter conhecimento” é traduzida também como “para dar entendimento” tanto pela ACF como pela ARA, além de “para dela se obter discernimento” e a Católica traduziu como “mui apropriado para abrir a inteligência”. Como é um hifil, o verbo dá a ideia de causativo, ou seja, que leva ao conhecimento, entendimento. Por isso todas essas opções.

Nenhuma das versões traduz a palavra “ao seu lado” (עִמָּהּ) que significa também “com ela” ou “junto dela”. Optamos por traduzir literalmente pois teologicamente há um peso nesta palavra neste versículo.

 

Versículo 7

Tradução Então foram abertos os olhos de ambos, e perceberam que eles estavam nus, e costuraram folhas de figueira, e fizeram para si cintas.
ACF 7 Então foram abertos os olhos de ambos, e conheceram que estavam nus; e coseram folhas de figueira, e fizeram para si aventais.
ARA 7 Abriram-se, então, os olhos de ambos; e, percebendo que estavam nus, coseram folhas de figueira e fizeram cintas para si.
Católica 7. Então os seus olhos abriram-se; e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si.
NVI 7 Os olhos dos dois se abriram, e perceberam que estavam nus; então juntaram folhas de figueira para cobrir-se.
 

Comentário: O verbo “foram abertos” é um nifal passivo, que faz que o sujeito da frase (olhos) sofra a ação. Contudo, algumas versões traduzem como se fosse um hitpael (reflexivo) traduzindo como “abriram-se” (ARA e Católica) e “se abriram” (NVI). Optamos por “foram abertos”, usado também na ACF. O verbo “costuraram” (וַיִּתְפְּרוּ ) é traduzido como “coseram” pela ACF e ARA. A Católica traduziu como “tomaram” e a NVI como “juntaram”. Optamos pela tradução literal.

 

Versículo 8

Tradução Então ouviram a voz de YHWH Deus, que andava no jardim pela brisa do dia e se escondeu o homem e a sua mulher da face de YHWH Deus no meio das árvores (floresta) do jardim.
ACF 8 E ouviram a voz do Senhor Deus, que passeava no jardim pela viração do dia; e esconderam-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim.
ARA 8 Quando ouviram a voz do SENHOR Deus, que andava no jardim pela viração do dia, esconderam-se da presença do SENHOR Deus, o homem e sua mulher, por entre as árvores do jardim.
Católica 8. E eis que ouviram o barulho (dos passos) do Senhor Deus que passeava no jardim, à hora da brisa da tarde. O homem e sua mulher esconderam-se da face do Senhor Deus, no meio das árvores do jardim.
NVI 8 Ouvindo o homem e sua mulher os passos do Senhor Deus que andava pelo jardim quando soprava a brisa do dia, esconderam-se da presença do Senhor Deus entre as árvores do jardim.
 

Comentário: As traduções ACF, Católica e NVI traduzem יהוה como Senhor, já a ARA traduz como SENHOR para diferenciar de Adonai. Optamos pela transliteração do tetragrama: “YHWH” para mostrar que é o nome de Deus. Optamos por traduzir literalmente “face” assim como a tradução Católica. A NVI, ARA e ACF traduziram como “presença”. A palavra traduzida como “árvores” עֵץ)) na verdade é um singular “árvore”, contudo pode significar floresta, neste caso, para dar sentido optamos por árvores, assim como todas as versões analisadas.

 

Versículo 9

Tradução Então chamou YHWH Deus pelo homem e disse a ele: Onde estás?
ACF 9 E chamou o Senhor Deus a Adão, e disse-lhe: Onde estás?
ARA 9 E chamou o SENHOR Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás?
Católica 9. Mas o Senhor Deus chamou o homem, e disse-lhe: “Onde estás?”
NVI 9 Mas o Senhor Deus chamou o homem, perguntando: “Onde está você? “
 

Comentário: Novamente percebemos a diferença quando ao nome de Deus. Traduzimos como YHWH. A ARA é a única que faz diferenciação colocando SENHOR com letras maiúsculas.

 

Versículo 10

Tradução Então ele respondeu: tua voz ouvi no jardim e tive medo porque eu (estava) nu e me escondi.
ACF 10 E ele disse: Ouvi a tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me.
ARA 10 Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi.
Católica 10. E ele respondeu: “Ouvi o barulho dos vossos passos no jardim; tive medo, porque estou nu; e ocultei-me.”
NVI 10 E ele respondeu: “Ouvi teus passos no jardim e fiquei com medo, porque estava nu; por isso me escondi”.
 

Comentário: Não há o verbo “estava” nas palavras hebraicas, mas todas as versões incluíram pois o verbo de ligação está implícito no hebraico. A bíblia católica e a NVI traduzem “tua voz” (אֶת־קֹלְךָ) como “teus passos”.

 

Versículo 11

Tradução Então respondeu (YHWH Deus): quem declarou para ti que tu (estavas) nu, da árvore da qual ordenei para ti não comer, comeste?
ACF 11 E Deus disse: Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?
ARA 11 Perguntou-lhe Deus: Quem te fez saber que estavas nu? Comeste da árvore de que te ordenei que não comesses?
Católica 11. O Senhor Deus disse: “Quem te revelou que estavas nu? Terias tu porventura comido do fruto da árvore que eu te havia proibido de comer?”
NVI 11 E Deus perguntou: “Quem lhe disse que você estava nu? Você comeu do fruto da árvore da qual lhe proibi comer? “
 

Comentário: A palavra YHWH Deus não aparece neste versículo, contudo, para que o leitor entenda quem é o sujeito da frase, foi inserido. As versões aqui influenciam no significado do texto, que é o caso da ACF, ARA e NVI que incluem apenas Deus e não Senhor Deus como a católica, ou YHWH Deus como optamos. Uma vez que é assim que Moisés chama o Senhor quando faz a narração direta.

Versículo 12
Tradução Então respondeu o homem: a mulher que deste para mim, ela deu para mim da árvore e eu comi.
ACF 12 Então disse Adão: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi.
ARA 12 Então, disse o homem: A mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi.
Católica 12. O homem respondeu: “A mulher que pusestes ao meu lado apresentou-me deste fruto, e eu comi.”
NVI 12 Disse o homem: “Foi a mulher que me deste por companheira que me deu do fruto da árvore, e eu comi”.
 

Comentário: A ACF traduz “homem” como “Adão”. Optamos por traduzir literalmente: “deste para mim”, porém a ACF e ARA optam por “deste por companheira” e “deste por esposa” respectivamente. A católica traduz como “que puseste ao meu lado” e a NVI segue a mesma linha da ARA. Não há a palavra fruto no hebraico, a tradução literal seria: “da árvore”, e assim optamos. Também a ACF e ARA traduziram desta forma. Porém a Católica e NVI inserem a palavra fruto.

 

Palavras-chave

עֵירֹם – nu – depois que a serpente “sagaz” (jogo de palavras quase idênticas) os enganou, eles perceberam (conheceram) a própria nudez, tentaram ocultá-la, temeram Deus por causa disso (3.10 – airom) e Deus os desafiou por causa do conhecimento que adquiriam (3.11 0 eirom). Kidner escreve que “as folhas de figueira eram demasiadamente ridículas, como tendem a ser os experientes dos homens, mas o instinto (de se esconder de vergonha) era bom e Deus o confirmou (vs. 21) pois a vergonha é fruto do pecado. Nudez está quase sempre associado com vergonha.

תְּמֻתוּן – morrais – morrer, ser morto – Pv 8.36 diz que aqueles que odeiam a Deus e que amam a morte. Oposição a vida.[6]

וִהְיִיתֶם – vos tornareis – a serpente era mais sagaz – como predicativo expressando qualidade (3.1). Na criação Moisés emprega para destacar a ligação entre as declarações de YHWH e o cumprimento de suas intenções.[7] Dois perfeitos com vav consecutivo em 1.14-15 declaram a intenção de YHWH de criar. Aqui, destaca a intenção do homem e satanás em “recriar” de forma errada.

יֹדְעֵי – conhecendo – observar, imaginar, descobrir, reconhecer, discernir. Conhecimento obtido por meio da experiência por meio dos sentidos para o processo intelectual, habilidade prática, relacionamento ou intimidade física. Pode ser um conhecimento que abre os olhos, que conduz à percepção. O conhecimento está relacionado à sabedoria, e o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. O conhecimento de Deus é estar num relacionamento correto com ele.[8]

וַתֵּרֶא – e viu – ver, ter visões, olhar, vede! Eva percebeu que o fruto da árvore era bom (3.6).[9] Seus olhos foram abertos, o pecado cega. Vê, mas não enxerga.

טוֹב – bem. A definição de bem é facilitada pela compreensão de seu oposto polar, mal. A expressão conhecimento do bem e do mal na descrição da árvore no meio do Éden é muito debatida. De acordo com uma explicação, comer da árvore era adquirir um conhecimento moral além daquele que o Criador pretendia. Alternadamente, a expressão funciona como merisma e sugere a totalidade de conhecimento, que, novamente não era adequado aos homens. A aquisição de sabedoria, de uma maneira ou outra estava envolvida (Ez 28.6), numa seção na qual o primeiro homem e o rei de Tiro estão ligados num holograma verbal. Era, de qualquer forma, o ato original de delimitação atravessando o Gênesis, pelo qual os primeiros homens puseram-se a discutir com seu Criador e afastaram-se dele.[10]

רָע – mau – mau, desagradável. Ocorre diversas vezes no contexto imediato a tov (bom) indicando pólos opostos de um espectro (Lv 21.10, 12,14). Nem sempre há censura moral no adjetivo, no caso de animais “selvagens” (Ez 5.17, 14.15,21), o que sugere que Eva não vê problemas.[11]

תַאֲוָה – agradável – no nominativo refere-se à aparência exterior. Dão destaque à qualidade de um objeto ser atraente, enfatizando menos o seu valor. É utilizado como verbo , na forma de uma ordem, no décimo mandamento como não cobiçarás. O desejo de possuir é verificado no contexto de prostituição (Ez 23.6,12).[12]

וְנֶחְמָד – desejável – desejo, cobiça, desejo ardente, apetite, lascívia, concupiscência.[13]

וַתִּקַּח – tomou – tomar, agarrar, dom de persuasão, sedução. Está ligado a tirar no sentido de privar, mas também no sentido de receber, aceitar algo. Está ligado também no sentido de preliminar para uma ação futura (tomou e comeu e deu).

וַתִּתֵּן– e deu: dar, apresentar, oferecer. Como substantivo (etnan) é o pagamento de prostituta, presente, paga. Descreve a entrega oficial de um instrumento legal, carta de divórcio (Dt 24.13) ou contrato de venda (Jr 32.12). Quando junta de tomou e deu (ntn e lqh) – um tipo de hendíade que possui um tom jurídico em vários contextos, uma expressão achada nos documentos legais que conota a transferência de propriedade iniciada pelo rei). Mostra também a habilidade de YHWH para dispor da sua criação (Lv 7.34, Nm 8.18,19, 2Sm 12.11, 1Rs11.35, Jó 1.21).[14]

וַיִּתְחַבֵּא – se escondeu, buscar refúgio. Das 34x que ocorre, 26x refere-se a pessoas que escondem a si ou a outros por medo da morte, com intenção de preservar a vida. Contudo, quando trata-se de esconder-se de Deus é inútil como no caso de Am 9.3 quando Israel tenta se esconder do julgamento de Deus. Adão e Eva escondem-se por temor da presença divina por vergonha, culpa e medo de serem mortos.

וָאִירָא – tive medo – ter medo, temer. Há aspectos de pavor, respeito e adoração no termo. Pavor e adoração são, num certo sentido, aspectos opostos polares; o primeiro é característico de uma ansiedade total, enquanto o último sugere confiança. O temor relacionado a adoração e respeito está ligado a obediência aos seus decretos (Sl 119.63) e o temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Pv 1.7). Não é o caso aqui, que é um pavor relacionado ao pecado contra o Justo Deus.

וַיִּקְרָא – chamou – chamar, invocar, intimar, apelar para. Chamar com voz audível com o propósito de estabelecer contato com outra pessoa. Utilizado muitas vezes no AT com YHWH como sujeito. O significado então é “chamar alguém para servir YHWH”. É usado também no sentido jurídico de “intimar a um tribunal” (1Sm 22.11, Is 59.4).[15]

צִוִּיתִיךָ – mandar, ordenar, proibir (quando negado). Denota a ação de um superior declarando algo com autoridade e/ou vigor a um subordinado com o propósito de obter resposta e pode ser glosado como “comando, ordem”. Alternativamente, quando implicar em negação, pode ser traduzido como proibir quando seguido da partícula não (lo), sendo interpretada também como mandamento. Mais da metade das vezes Deus é o sujeito diante de antediluvianos (Gn 6.22), patriarcas (Gn 21.4), profetas (Jr 1.7, 14.14), todos sujeitos aos mandamentos de Deus.[16]

אֲכָל – comer, consumir, devorar. Contextos não rituais e rituais onde homens ou animais são sujeito. Contexto do AT onde duas partes ratificavam um juramento ou aliança comendo uma refeição sacrificial juntas (Gn 26.30, 31.54 e Ex 21.11).

Está ligado a simbolismo de divisões sacramentais dentro de e entre as ordens da natureza da sociedade humana (comidas impuras e puras). Muitas vezes são usados em imagens de contaminação sacramental. [17]

 

Aspectos Gramaticais

Imperativo Negativo: Não existe imperativo negativo em hebraico. Para realizar essa função é colocado Qal Imperfeito antecedido por uma partícula negativa. Temos essa construção nos versículos 1 e 3. Segundo Waltke, isso nos dá a ideia de imperativo negativo, proibição.[18]

Imperfeito Wayiqtol: um vav consecutivo acompanhado de um verbo imperfeito. O vav consecutivo neste caso é equivalente ao “então” em português. Estabelece uma consequência real ou hipotética, uma sucessão lógica e às vezes cronológica.[19] Assim temos uma ideia de subordinação. É a forma de conjugação mais frequente na narrativa hebraica.

Vav Conjuntivo (narrativo): considerando que o Vav relativo dá a ideia de subordinação, o vav conjuntivo estabelece a ideia de coordenação.[20]

Qal: ocorre na maioria dos verbos. O qal é a forma mais simples da maioria dos verbos em hebraico, a denominação dada ao tronco do verbo na voz ativa que é listada no dicionário.[21]

Piel: A ideia do Piel é um tronco intensivo causativo. Dá a ideia de uma intensidade maior na ação, uma espécie de intensivo do qal.[22]

Nifal: ocorre quatro vezes no texto (vs. 5,6,7 e 10) – duas vezes relacionado aos olhos do homem e mulher serem abertos, uma vez relacionado à árvore ser desejável e uma vez relacionado ao homem e mulher se esconderem. A ideia do Nifal é o passivo simples, assim como o qal é o ativo simples.[23]

Hifil: ocorre duas vezes no texto (vs. 6 e 11) – uma vez relacionado ao ter conhecimento e outra quando Deus pergunta quem declarou. A ideia do Hifil é o causativo do qal, dá a ideia não apenas da ação mas do causar a ação.[24]

Hitpael: ocorre duas vezes no texto (vs. 8) – uma vez quando o homem se esconde, e outra quando Deus andava no jardim. A ideia do Hitpael é um duplo-status (reflexivo / recíproco).[25] O sujeito tanto pratica quanto sofre a ação.

Quadro de delimitação de cláusulas

PGN
Sujeito
Raiz temática
Aspecto/
Modo
Cláusulas
Vs.
3ms A serpente Qal Perfeito וְהַנָּחָשׁ הָיָה עָרוּם מִכֹּל חַיַּת הַשָּׂדֶה

E a serpente, era (mais) sagaz de todo animal do campo

1a
3ms YHWH Deus Qal Perfeito אֲשֶׁר עָשָׂה יהוה אֱלֹהִים

que criou YHWH Deus

B
3ms A serpente Qal WImperfeito וַיֹּאמֶר אֶל־הָאִשָּׁה

então disse à mulher

C
3ms Deus Qal Perfeito אַף כִּי־אָמַר אֱלֹהִים

De fato que Deus disse:

D
2mp Vós (mulher e homem) Qal Imperfeito לֹא תֹאכְלוּ מִכֹּל עֵץ הַגָּן

não comerás de toda árvore do jardim?

E
3fs A mulher Qal WImperfeito וַתֹּאמֶר הָאִשָּׁה אֶל־הַנָּחָשׁ

E respondeu a mulher para a serpente:

2
1cp Nós (homem e mulher) Qal Imperfeito מִפְּרִי עֵץ־הַגָּן נֹאכֵל

Do fruto da árvore do jardim comemos.

B
Não Verbal וּמִפְּרִי הָעֵץ אֲשֶׁר בְּתוֹךְ־הַגָּן

Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim,

3
3ms Deus Qal Perfeito אָמַר אֱלֹהִים

disse Deus:

B
2mp Vós (homem e mulher) Qal Imperfeito לֹא תֹאכְלוּ מִמֶּנּוּ

não comereis dele

C
2mp Vós (homem e mulher) Qal Imperfeito וְלֹא תִגְּעוּ בּוֹ

e nem tocareis nele

D
2mp Vós (homem e mulher) Qal Imperfeito פֶּן־תְּמֻתוּן

para que não morrais.

E
3ms A serpente Qal WImperfeito וַיֹּאמֶר הַנָּחָשׁ אֶל־הָאִשָּׁה

Então disse a serpente para a mulher:

4
2mp Vós (homem e mulher) Qal Infinitvo Absoluto + Imperfeito לֹא־מוֹת תְּמֻתוּן

Certamente não morrereis.

B
Singular Deus Qal Particípio כִּי יֹדֵעַ אֱלֹהִים

Porque sabe Deus

5
2mp Vós (homem e mulher) Qal Infinitivo Construto כִּי בְּיוֹם אֲכָלְכֶם מִמֶּנּוּ

que no dia que comerdes dele

B
2mp Vós (homem e mulher) Nifal Perfeito וְנִפְקְחוּ עֵינֵיכֶם

se vos abrirão os olhos

C
2mp Vós (homem e mulher) Qal Perfeito וִהְיִיתֶם כֵּאלֹהִים

e vos tornareis como Deus,

D
Plural Vós (homem e mulher) Qal Particípio יֹדְעֵי טוֹב וָרָע

conhecendo bem e mal.

E
3fs A mulher Qal WImperfeito וַתֵּרֶא הָאִשָּׁה כִּי טוֹב הָעֵץ לְמַאֲכָל

E viu a mulher que a árvore era boa para comida

6
וְכִי תַאֲוָה־הוּא לָעֵינַיִם

e agradável para os olhos

B
Singular A árvore Nifal Particípio וְנֶחְמָד הָעֵץ

e a árvore era desejável

C
Hifil Infinitivo Construto לְהַשְׂכִּיל

para ter conhecimento,

D
3fs A mulher Qal WImperfeito וַתִּקַּח מִפִּרְיוֹ

então tomou do fruto

E
3fs A mulher Qal Wimperfeito וַתֹּאכַל

e comeu,

F
3fs A mulher Qal Wimperfeito וַתִּתֵּן גַּם־לְאִישָׁהּ עִמָּהּ

e deu também para seu marido ao seu lado

G
3ms O Marido Qal Wimperfeito וַיֹּאכַל

e ele comeu.

H
3fp Homem e mulher Nifal Wimperfeito וַתִּפָּקַחְנָה עֵינֵי שְׁנֵיהֶם

Então foram abertos os olhos de ambos,

7
3mp Homem e mulher Qal Wimperfeito וַיֵּדְעוּ כִּי עֵירֻמִּם הֵם

e perceberam que eles estavam nus,

B
3mp Homem e mulher Qal Wimperfeito וַיִּתְפְּרוּ עֲלֵה תְאֵנָה

e costuraram folhas de figueira,

C
3mp Homem e mulher Qal Wimperfeito וַיַּעֲשׂוּ לָהֶם חֲגֹרֹת

e fizeram para si cintas.

D
3mp Homem e mulher Qal Wimperfeito וַיִּשְׁמְעוּ אֶת־קוֹל יהוה אֱלֹהִים

Então ouviram a voz de YHWH Deus,

8
Singular YHWH Deus Hitpael Participio מִתְהַלֵּךְ בַּגָּן לְרוּחַ הַיּוֹם

que andava no jardim pelo vento do dia

B
3ms O homem Hitpael Wimperfeito וַיִּתְחַבֵּא הָאָדָם וְאִשְׁתּוֹ מִפְּנֵי יהוה אֱלֹהִים בְּתוֹךְ עֵץ הַגָּן

e se escondeu o homem e a sua mulher da face de YHWH Deus no meio das árvores (floresta) do jardim.

C
3ms YHWH Deus Qal Wimperfeito וַיִּקְרָא יהוה אֱלֹהִים אֶל־הָאָדָם

Então chamou YHWH Deus pelo homem

9
3ms YHWH Deus Qal Wimperfeito וַיֹּאמֶר לוֹ

e disse a ele:

B
Não Verbal אַיֶּכָּה

Onde estás?

   C
3ms O homem Qal Wimperfeito וַיֹּאמֶר

Então ele respondeu:

10
1cs Eu (Adão) Qal Perfeito אֶת־קֹלְךָ שָׁמַעְתִּי בַּגָּן

tua voz ouvi no jardim

B
1cs Eu (Adão) Qal Wimperfeito וָאִירָא

e tive medo

C
Não verbal כִּי־עֵירֹם אָנֹכִי

porque eu (estava) nu

D
1cs Eu (Adão) Nifal Wimperfeito וָאֵחָבֵא

e me escondi.

E
3ms YHWH Deus Qal Wimperfeito וַיֹּאמֶר

Então respondeu (YHWH Deus):

11
3ms Sujeito Indeterminado Hifil Perfeito מִי הִגִּיד לְךָ

quem declarou para ti

B
Não verbal כִּי עֵירֹם אָתָּה

que tu (estavas) nu,

C
1cs Eu (YHWH Deus) Piel Perfeito הֲמִן־הָעֵץ אֲשֶׁר צִוִּיתִיךָ

da árvore da qual ordenei para ti

D
Qal Infinitivo Construto לְבִלְתִּי אֲכָל־מִמֶּנּוּ

não comer,

E
2ms Tu (Adão) Qal Perfeito אָכָלְתָּ

comeste?

F
3ms O homem (Adão) Qal Wimperfeito וַיֹּאמֶר הָאָדָם

Então respondeu o homem:

12
2ms Tu (Deus) Qal Perfeito הָאִשָּׁה אֲשֶׁר נָתַתָּה עִמָּדִי

a mulher que deste para mim,

B
3fs Ela (A mulher) Qal Perfeito הִוא נָתְנָה־לִּי מִן־הָעֵץ

ela deu para mim da árvore

C
1cs Eu (Adão) Qal Wimperfeito וָאֹכֵל

e eu comi.

D

 

Sujeitos: A Serpente é sujeito de três cláusulas. Eva é sujeito de seis cláusulas. Adão é sujeito de nove cláusulas e Adão e Eva são sujeito de quinze cláusulas. Deus é o sujeito de dez cláusulas. Podemos perceber que homem e mulher estão juntos no momento da queda, uma vez que a maioria dos sujeitos enfatizam ambos, mesmo no diálogo com a serpente.

Qal: ocorre na maioria das cláusulas[26].

Piel: ocorre uma vez no texto (vs. 11) – quando Deus diz que havia ordenado ao homem para não comer do fruto.

Hitpael: ocorre duas vezes no texto (vs. 8) – uma vez quando o homem se esconde, e outra quando Deus andava no jardim.

Nifal: ocorre quatro vezes no texto (vs. 5,6,7 e 10) – duas vezes relacionado aos olhos do homem e mulher serem abertos, uma vez relacionado à árvore ser desejável e uma vez relacionado ao homem e mulher se esconderem.

Hifil: ocorre duas vezes no texto (vs. 6 e 11) – uma vez relacionado ao ter conhecimento e outra quando Deus pergunta quem declarou.

 

Estrutura do Texto

Cenas Tipo de Narração Versículo
Cena 1 – Introdução do Diálogo da Serpente com a Mulher Descrição E a serpente, era (mais) sagaz de todo animal do campo que criou YHWH Deus, então disse à mulher:
Cena 2   – A tentação da Serpente Narração Dramática De fato que Deus disse: não comerás de toda árvore do jardim?

E respondeu a mulher para a serpente: Do fruto da árvore do jardim comemos. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: não comereis dele e nem tocareis nele para que não morrais.

Então disse a serpente para a mulher: Certamente não morrereis. Porque sabe Deus que no dia que comerdes dele se vos abrirão os olhos e vos tornareis como Deus, conhecendo bem e mal.

 

Cena 3 – A mulher deseja e come do fruto e dá para seu marido (3.6)

 

Narração Direta E viu a mulher que a árvore era boa para comida e agradável para os olhos e a árvore era desejável para ter conhecimento, então tomou do fruto e comeu, e deu também para seu marido ao seu lado e ele comeu.
Cena 4 – Homem e mulher descobrem estar nus e se cobrem (3.7) Narração Direta

 

Então foram abertos os olhos de ambos, e perceberam que eles estavam nus, e costuraram folhas de figueira, e fizeram para si cintas.

 

Cena 5 – Homem e Mulher se escondem de YHWH Deus (3.8) Narração Direta Então ouviram a voz de YHWH Deus, que andava no jardim pela brisa do dia e se escondeu o homem e a sua mulher da face de YHWH Deus no meio das árvores (floresta) do jardim.

 

Cena 6 – YHWH Deus questiona o Homem sobre seu pecado (3.9-12)

 

Narração Dramática Então chamou YHWH Deus pelo homem e disse a ele: Onde estás?

Então ele respondeu: tua voz ouvi no jardim e tive medo porque eu (estava) nu e me escondi.

Então respondeu (YHWH Deus): quem declarou para ti que tu (estavas) nu, da árvore da qual ordenei para ti não comer, comeste?

Então respondeu o homem: a mulher que deste para mim, ela deu para mim da árvore e eu comi.

 

 

Cena 1:

“E a serpente, era (mais) sagaz de todo animal do campo que criou YHWH Deus, então disse à mulher:”

Na primeira cena, há uma descrição que introduz o relato da queda. Moisés apresenta a serpente como explicitamente produto das mãos de Deus. O verbo “sagaz” (עָרוּם) não é primariamente um verbo de ênfase negativa, mas na bíblia sugere sabedoria, prudência.[27] É utilizado por oito vezes em Provérbios (todas traduzidas pela ARA como prudente) e duas em Jó (Jó 5.12, 15.5 – ambas traduzidas pela ARA por astutos). Em nenhum momento das Escrituras o verbo é utilizado de forma ruim. Dessa forma vemos como Satanás trabalha como imitador e chama atenção pelas qualidades da serpente. Usa qualidades criadas por Deus para o mal. Outro ponto que é possível perceber que a serpente era sagaz, astuta, e é justamente esse animal que é usado pelo tentador para apontar a árvore do conhecimento do bem e do mal, para tentar a mulher de maneira que desejasse ter conhecimento.[28] Em Apocalipse 12.9, Satanás é chamado de “a antiga serpente”, o que nos faz entender que não há apenas o animal em si, mas o próprio Diabo por trás da serpente. Hodge[29] relata que a serpente não é uma designação direta a Satanás e tampouco Satanás tomou a forma da serpente, porém, ele a utilizou como seu instrumento para a tentação. Wiersbe[30] aponta que Satanás não dá origem a nada e é um astuto imitador, podendo passar-se até por um anjo de luz (2 Co 11.14). Ele usa a serpente, criatura de Deus, que fora declarada “boa” pelo próprio Deus.

O comparativo superlativo mais não aparece no hebraico, porém dá a entender que a serpente era sagaz de todo animal do campo. O verbo “criou” עָשָׂה (ashah) é um perfeito qal, que dá a ideia de (de uma ação completa). O verbo “comerás” תֹאכְלוּ (tochelu) é um verbo qal ativo imperfeito que dá a ideia de proibição que expressa instrução negativa na literatura legal, o uso de לֹא com o imperfeito é comum em contextos legais (Ex 12.10, Ex 20.13) dando a ideia de proibição[31], um imperativo no português.

 

Cena 2:

“De fato que Deus disse: não comerás de toda árvore do jardim?

E respondeu a mulher para a serpente: Do fruto da árvore do jardim comemos. Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: não comereis dele e nem tocareis nele para que não morrais.

Então disse a serpente para a mulher: Certamente não morrereis. Porque sabe Deus que no dia que comerdes dele se vos abrirão os olhos e vos tornareis como Deus, conhecendo bem e mal.”

A cena seguinte é uma narração dramática entre a Serpente e a mulher. Diferentemente de Deus que se dirige primeiramente ao homem, Satanás inverte a ordem das coisas criadas por Deus e se dirige à mulher.

É possível perceber que não é demonstrado o mal invadindo, como se tivesse existência própria, mas as criaturas entrando em rebelião contra o seu Criador.[32]

O tentador começa com sugestão antes que com argumento. O tom de incredulidade coloca a falsa ideia de que a Palavra de Deus está sujeita ao nosso julgamento. Ele se aproxima lançando dúvida sobre a veracidade da palavra de Deus[33].

Eva é atraída a discutir nos termos da serpente. A palavra “comemos” (נֹאכֵל) é um imperfeito que dá a ideia de ação habitual[34], ou seja, sempre comiam de todos os frutos, porém do fruto do conhecimento do bem e do mal eles não poderiam comer, e aqui oculta livremente do cap. 2.16 e acrescenta “nem tocareis”. Eva segue e indução da serpente e diminui a permissão e aumenta o rigor e proibição de Deus. A palavra conhecimento (yada) pode ser um conhecimento obtido por meio da experiência, por meio dos sentidos para o processo intelectual, habilidade prática, relacionamento ou intimidade física (quando se unem sexualmente). Pode ser um conhecimento que abre os olhos, que conduz à percepção. Groningen sugere que quando se fala da árvore como “do conhecimento do bem e do mal”, é sugerido que homem e mulher teriam um conhecimento empírico do mal por submissão e envolvimento com ele[35]. Vos[36] sustenta que “bem e mal” em relação a árvore, significava uma escolha independente e autônoma contra a direção de Deus sobre o que era bem e o que era mal para o homem. É possível também entender que homem e mulher imaginassem que se tornariam oniscientes como Deus.[37]

Diferentemente do conhecimento que está relacionado à sabedoria, onde o temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Pv 1.7). O conhecimento de Deus é estar num relacionamento correto com ele.[38] Assim, homem e mulher são enganados pela serpente, uma vez que não se tornariam como Deus, pois já conheciam o bem por vivencia diária, e sabiam o que era o mal pela proibição do Criador. Agora, conhecem o mal, de forma diferente do Criador, de forma prática, tornando-se semelhantes a Satanás em rebeldia e inimizade contra Deus.

É certo que não morrereis. Palavra da serpente contra a de Deus. A primeira doutrina a ser negada é a do juízo.[39] Sereis como Deus é o clímax da mentira. Tornar-se igual a Deus, significa superá-lo em astúcia, e agora consciente ou não, é tido como rival e inimigo. Segundo Bonhoeffer, “a originária semelhança com Deus se converteu em uma igualdade roubada”[40]. O ser humano então seria contra Deus, uma espécie de antideus.

A tradução “certamente não morrereis” a palavra certamente não está no hebraico, porém, há um verbo infinitivo (morrer) seguido de um verbo imperfeito de mesma raiz, que dá a ideia de ênfase: “certamente não morrereis” (לֹא־מוֹת תְּמֻתוּן).

Em outras palavras, o Diabo, aqui, sugere que Deus estava retendo do homem alguma coisa que seria vantajoso para ele, como se sua criação não fosse perfeita, e, como isca, apresenta a promessa de que, se o homem crer apenas na sua mentira e não na Palavra de Deus ele será vencedor, e obterá o conhecimento e sabedoria negadas pelo Criador. Contra a arrogância humana, a obediência de um só e o assumir Ele a forma de servo vão contrários a esse desejo humano de ser deus, quando o próprio Deus se faz homem. E o tentador ainda diz a ele: “tudo isso te darei se prostrado me adorares”. Quando Satanás cita “vos tornareis” – mesmo verbo para: “a serpente era mais sagaz” – usado como predicativo expressando qualidade (3.1), usa uma qualidade que Deus fez, para enganar como se tivesse sido adquirida por ele próprio, a parte do Criador. Na criação Moisés emprega “haya” para destacar a ligação entre as declarações de YHWH e o cumprimento de suas intenções.[41] Existem dois perfeitos com vav consecutivo em 1.14-15 declaram a intenção de YHWH de criar. Aqui, também temos um perfeito com um vav consecutivo, imitando a Deus e destacando a intenção do homem e satanás em “recriar” de forma errada. Gaebelein afirma o que a serpente promete é uma ironia, uma vez que eles já eram imagem e semelhança de Deus.[42]

Cena 3:

“E viu a mulher que a árvore era boa para comida e agradável para os olhos e a árvore era desejável para ter conhecimento, então tomou do fruto e comeu, e deu também para seu marido ao seu lado e ele comeu.”

E viu a mulher. Eva dá ouvidos a criatura em lugar do Criador, seguiu suas impressões pessoais contra as instruções recebidas, e estabeleceu para sua meta a auto-realização[43]. A serpente engana homem e mulher, fazendo-a pensar que o fruto atraente lhe traria prazer e sucesso como deuses, pensando que Deus era mesquinho e lhes havia retido sucesso e prazer.[44] Esta visão prospectiva de enriquecimento material, estético e mental parecia incrementar a própria vida, uma criação melhor do que de Deus. O mundo oferece as mesmas coisas (1 Jo 2.16). A tentação de Satanás, o “governante” do sistema pecaminoso mundano vem pela concupiscência dos olhos, da carne e pela soberba da vida. Eva vê que o fruto é agradável para os olhos (desejo dos olhos). A palavra “agradável” se refere à aparência exterior. Dá destaque à qualidade de um objeto ser atraente, enfatizando menos o seu valor. É utilizado como verbo , na forma de uma ordem, no décimo mandamento como não cobiçarás. O desejo de possuir é verificado no contexto de prostituição (Ez 23.6,12).[45] Em segundo lugar, Eva é tentada na concupiscência da carne, ela vê que o fruto é boa para comer. Além disso, é tentada na soberba da vida quando em seu coração pensa que é “desejável” que significa “desejo”, “cobiça”, “desejo ardente”, “lascívia”, ou “concupiscência”.[46] Já mostrando o pecado sendo consumado dentro do coração da mulher. Esse desejo é para ter conhecimento, um conhecimento à parte de Deus, já explicitado na cena anterior.

Da mesma maneira, o Senhor Jesus é tentado no deserto por Satanás (Mt 4.1-11). Satanás o tenta na concupiscência da carne quando diz para que transformasse as pedras em pães (vs. 3), assim como na concupiscência dos olhos quando lhe mostra e oferece todos os reinos do mundo, para que Jesus se curvasse diante dele (vs. 8) e na soberba da vida quando questiona ser filho de Deus e manda que se jogasse do templo para que os anjos o segurassem (vs. 6). Satanás também utiliza as escrituras, distorcendo-as para tentar o Senhor (vs. 6). Contudo, diferentemente de Eva, Jesus não questiona a palavra de Deus, antes vence à tentação sempre referindo-se à palavra de Deus, dizendo: Está escrito, e por fim ordena que Satanás se retire.

A mulher tomou do fruto e comeu. O verbo “tomar” está ligado ao sentido de ser preliminar para uma ação futura (tomou e comeu e deu).[47] É uma sequência lógica. O verbo “dar” aqui, posteriormente como substantivo (etnan) é o pagamento de prostituta, presente, paga. Descreve também a entrega oficial de um instrumento legal, carta de divórcio (Dt 24.13) ou contrato de venda (Jr 32.12). Quando junta de tomou e deu (ntn e lqh) há um tom jurídico em vários contextos, uma expressão achada nos documentos legais que conota a transferência de propriedade iniciada pelo rei. Mostra também a habilidade de YHWH para dispor da sua criação (Lv 7.34, Nm 8.18,19, 2Sm 12.11, 1Rs11.35, Jó 1.21).[48] A mulher então toma do fruto e dá ao seu marido, o que nos traz a ideia de inversão dos papeis[49], onde a mulher toma a frente, além de uma quebra da aliança com Deus. O verbo “comer” é usado em contextos não rituais e rituais onde homens ou animais são sujeito. No contexto do AT, é usado onde duas partes ratificavam um juramento ou aliança comendo uma refeição sacrificial juntas (Gn 26.30, 31.54 e Ex 21.11). Está ligado também a um simbolismo de divisões sacramentais dentro de e entre as ordens da natureza da sociedade humana (comidas impuras e puras). Muitas vezes são usados em imagens de contaminação sacramental[50]. Desta forma, homem e mulher sacramentam a queda, quebrando a aliança com Deus e tornando-se escravos do pecado e do Diabo.

Os verbos “tomou” seguido de “e deu” são os mesmos verbos utilizados por Sara quando toma Agar e dá a Abraão (Gn 16.3). Sarai … tomou [lqj] … deu [nTn] … Agar a seu esposo. Esta é a mesma progressão dos verbos na Queda em 3.6. Agar é tratada como propriedade sem nenhum direito pessoal.[51] Abraão e Sara possuem semelhança com Adão e Eva. Ambos, Adão e Abraão, agem sob sugestões de suas esposas sendo conduzidos pelas suas mulheres ao invés de conduzirem.

Satanás chega até Adão por meio de alguém próximo a ele. Satanás usa Pedro e Judas para chegar a Jesus. Também usa a esposa de Jó para atingí-lo. Usa mãos insuspeitas para tentar o homem.

As pelavras “ao seu lado” (עִמָּהּ) são ocultas na maioria das traduções, porém é de grande importância aqui pois sugere que Adão estava junto da mulher no momento da queda. Ele não apenas recebe do fruto depois que Eva já havia comido e então comeria para não deixá-la só. Antes, Adão está junto dela quando ela come, e também aceita comer do fruto desejando as mesmas coisas que Eva. Calvino afirma que é possível que Adão se uniu à sua mulher tão logo ela tomou do fruto, e que ela relatou a ele a conversa que tivera com a Serpente, porém para ele não seria possível que Adão estivesse ao lado de Eva na tentação em si.[52]

Esses verbos “tomai” e “comei” se tornam verbos de salvação, depois que Cristo prova da morte e pobreza causados por estes verbos usados neste versículo 6.[53]

Adão e Eva quebram todos os 10 mandamentos ao comer do fruto. O ídolo é a árvore e seu fruto. Tomaram o nome de Deus em vão, porque não deram ouvidos e desconsideraram a palavra de Deus. Quebraram o descanso em que foram colocados. Desonraram ao Senhor. Trouxeram morte, adultério, furtaram, cobiçaram e mentiram. O que veio nas tábuas já havia sido transgredido na queda.

Cena 4:

“Então foram abertos os olhos de ambos, e perceberam que eles estavam nus, e costuraram folhas de figueira, e fizeram para si cintas.”

“Foram abertos os olhos”, que era o desejo do homem e da mulher, agora é o anticlímax do desejo de conhecimento. O homem agora tem seus olhos contaminados pelo pecado projetando o mal nas coisas criadas e sua reação é de vergonha. Seu conhecimento do bem e do mal era semelhante e diferente, diferente porque Deus não conhece o mal por experimentá-lo. Agora, ele torna-se semelhante a Satanás experimentando o mal na prática. Diferentemente desses olhos abertos, no Reino de Deus, alguém que escolhe conhecer a Deus significa viver em conformidade à sua palavra.[54]

“Perceberam que estavam nus”. Nas escrituras, muitas vezes nudez está relacionado a vergonha. Segundo Waltke, nu também pode ser utilizado no sentido de indefeso, fraco ou humilhado (Dt 28.48, Jó 1.21 e Is 58.7)[55]. Depois que a serpente “sagaz” (jogo de palavras quase idênticas: “arum” – sagaz e “arom” – nudez) os enganou, eles perceberam (conheceram) a própria nudez, tentaram ocultá-la, temeram Deus por causa disso (3.10 – airom) e Deus os desafiou por causa do conhecimento que adquiriam (3.11 0 eirom). Kidner[56] escreve que “as folhas de figueira eram demasiadamente ridículas, como tendem a ser os experientes dos homens, mas o instinto (de se esconder de vergonha) era bom e Deus o confirmou (vs. 21) pois a vergonha é fruto do pecado. Nudez está quase sempre associado com vergonha. Waltke[57] diz que são folhas grandes e largas. Este ato mostra que ao invés de procurar por Deus e abertamente confessar sua culpa, eles tentaram se esconder de Deus e deles mesmos. Henry[58] afirma que as desculpas que os homens dão para cobrirem seus pecados são vãs e frívolas assim como aventais de folhas de figueira. Entretanto, todo homem pecador tem a tradição de esconder seu pecado como Adão.

 

Cena 5:

“Então ouviram a voz de YHWH Deus, que andava no jardim pela brisa do dia e se escondeu o homem e a sua mulher da face de YHWH Deus no meio das árvores (floresta) do jardim.”

Homem e mulher agora ouvem o “som” (voz) de YHWH Deus vindo em sua direção. Gaebelein[59] afirma que há ironia nessas palavras, uma vez que “a voz de YHWH Deus” seguida do verbo “ouvir” no Pentateuco, especialmente em Deuteronômio é muito comum, mas para enfatizar o sentido de obedecer, o contrário do que ocorre aqui. Homem e mulher não deram ouvidos à palavra de Deus.

Eles ouvem o som de Deus e fogem da face de Deus, assim como os homens tentam se esconder de Deus em Apocalipse 6.16, diferentemente de quando glorificados por causa de Cristo, os homens contemplarão a sua face em Apocalipse 22.4.

Homem e mulher se escondem de Deus. O verbo “se esconder” muitas vezes significa buscar refúgio nas escrituras. Das 34 vezes que ocorre, 26 vezes refere-se a pessoas que escondem a si ou a outros por medo da morte, com intenção de preservar a vida. Contudo, quando trata-se de esconder-se de Deus é inútil como no caso de Amós 9.3 quando Israel tenta se esconder do julgamento de Deus. Adão e Eva escondem-se por temor da presença divina por vergonha, culpa e medo de serem mortos. Não há como buscar refúgio em nada que não seja Deus.

Os aventais não removeram a vergonha de Adão e Eva, pois ao ouvir a voz de Deus, eles se escondem.[60] A consciência do homem não o traz para Deus, antes há terror e distanciamento do Criador. Isso nos leva a pensar, que pelo menos instintivamente, eles compreenderam o tamanho da distância moral a que estavam de YHWH Deus.

           

Cena 6:

“Então chamou YHWH Deus pelo homem e disse a ele: Onde estás?

Então ele respondeu: tua voz ouvi no jardim e tive medo porque eu (estava) nu e me escondi.

Então respondeu (YHWH Deus): quem declarou para ti que tu (estavas) nu, da árvore da qual ordenei para ti não comer, comeste?

Então respondeu o homem: a mulher que deste para mim, ela deu para mim da árvore e eu comi.”

O verbo “chamou” traz a ideia de chamar com voz audível com o propósito de estabelecer contato com Adão. Utilizado muitas vezes no AT com YHWH como sujeito. O significado então é “chamar alguém para servir YHWH”. É usado também no sentido jurídico de “intimar a um tribunal” (1Sm 22.11, Is 59.4).[61] Aqui, Deus chama Adão para prestar contas e explicar seu comportamento[62]. A pergunta de Deus não é geográfica, é moral. Deus questiona Adão e Eva: Onde estás? O que fizeste? Questionando de fato o homem e pedindo-lhe contas como Justo Juiz, mas ao mesmo tempo dando-lhe a oportunidade de confissão e arrependimento como Deus Gracioso e Misericordioso. Kidner afirma que YHWH Deus também abordou Caim, quando este matou Abel, da mesma maneira pelas mesmas palavras no capítulo 4, quando diz: “Onde…?” (4.9) e “O que fizeste…?” (4.10).

As respostas de Adão mostram o estado do homem caído. Os sintomas são demonstrados em suas respostas. Primeiramente ele diz que ouviu a voz de YHWH no jardim. Segundo Waltke[63], é irônico pois a palavra “ouvir” no hebraico também pode significar “obedecer”, e é justamente o contrário que ocorre aqui, Adão ouve, não no sentido de “dar ouvidos” à voz de Deus, mas no sentido de escutar e ter medo. Após ouvir, ele teve medo. É possível que haja aspectos de pavor, respeito e adoração no termo. Pavor e adoração são, num certo sentido, aspectos opostos polares; o primeiro é característico de uma ansiedade total, enquanto o último sugere confiança. O temor relacionado a adoração e respeito está ligado a obediência aos seus decretos (Sl 119.63) e o temor do Senhor é o princípio da sabedoria (Pv 1.7). Não é o caso aqui, que é um pavor relacionado ao pecado contra o Justo Deus. Ações de medo não são motivadas pela fé, e consequentemente são uma reação que não agrada a Deus. O temor que Adão deveria ter, o levaria ao arrependimento e confissão de seu pecado, já o medo apresentado o leva a se esconder porque agora percebe que está nu e em miséria. Então ele se esconde do Deus onisciente e onipresente.

Um ponto importante nessa cena, é a palavra YHWH Deus, que não está presente no texto Hebraico no versículo 11. É possível notar que quando há narração direta, Moisés se refere a Deus como YHWH Deus, e muitas traduções, para sinalizar que a fala é de Deus, então colocam apenas Deus, o que muda o teor teológico do texto. O nome de Deus (YHWH) faz alusão ao Deus de Aliança, o Deus que promete e cumpre, que tem um relacionamento especial com o homem, a despeito de toda a criação. É possível notar isso quando Moisés no capítulo 1.1 a 2.3 utiliza o nome de Deus apenas como Elohim (Deus), porém a partir de 2.4, quando começa a descrever mais detalhadamente a criação do homem e o mandato espiritual, então se refere a Deus como YHWH Elohim. Neste texto de Gn 3.1-12 é possível notar a diferença destes nomes, muitas vezes atribuídos pela crítica das fontes a autores diferentes para o Pentateuco, o que não é verdade. Estando convictos que o autor é Moisés, aqui podemos perceber que há propósito em utilizer nomes diferentes para Deus. Quando Satanás utiliza o nome de Deus, Moisés escreve apenas Elohim e quando a mulher, em rebelião, se refere a Deus também é Elohim, contudo Moisés revela que Deus continua sendo YHWH, a aliança não é quebrada, pelo contrário, Deus mantém sua aliança com seu povo e lhes promete a semente que viria para pisar na cabeça da serpente (Gn 3.15).

Quando YHWH Deus procurou Adão e o trouxe face a face com sua culpa, foi-lhe dado oportunidade de confessar seu pecado.[64] “Comeste da árvore de que te ordenei que não comêsseis?” A palavra “ordenei” usada aqui, significa proibir, uma vez que tem o sentido negativo. Denota a ação de um superior declarando algo com autoridade a um subordinado com o propósito de obter resposta e pode ser glosado como “comando, ordem”. Quando utilizada como substantivo significa “mandamento”. Mais da metade das vezes Deus é o sujeito do verbo “ordenei”, seja diante de antediluvianos (Gn 6.22), patriarcas (Gn 21.4), profetas (Jr 1.7, 14.14), seja de todos sujeitos aos mandamentos de Deus.[65] Deus dá o mandamento a Adão e este transgride e agora é chamado pelo Justo Juiz para prestar contas, além de ter a oportunidade de pedir perdão e arrepender-se.

O Senhor já sabia a resposta. Contudo Adão não valeu-se desta oportunidade. Ao invés de confessor seu pecado, ele se desculpou: “E disse o homem: a mulher que me deste por esposa, ela me deu da árvore, e eu comi”. Foi, então, feita uma tentativa de atenuar o pecado passando a responsabilidade para outros. Adão não apenas dá uma desculpa, mas segundo Kidner[66], por causa de seu pecado, se volta contra sua mulher e em última instância, contra Deus. O que antes é dito por Deus que não é bom que o homem esteja só (2.18), agora é usado por Adão para desculpar-se e culpar o próprio Criador pela mulher que não lhe auxiliou e tampouco fora idônea.

Os efeitos da sobre o homem foram vários: primeiramente descobre a desgraça em que caiu quando o conhecimento que buscava não lhe dá as dádivas e vitórias que pretendia, em segundo lugar tenta seconder sua vergonha com a obra de suas mãos, em terceiro lugar tem medo de Deus e tenta se esconder dele e por fim ao invés de confessor seu pecado, tanto homem como mulher tentam se esquivar da culpa. Wolfgang Musculus diz que o veneno de Satanás fez com que Adão sobrecarregasse sua esposa com a culpa, ao invés de assumir a responsabilidade pelo crime e poupá-la.[67]

 

Estrutura do Contexto

Segundo Waltke, na história Primeva (Gn 1-11) há uma história alternante[68], onde vemos:

  1. A) História da Criação (1.1-2.3)
  2. B) Pecado de Adão (2.4-3.24)
  3. C) Nenhum descendente de Abel – filho justo(4.1-16)
  4. D) Descendentes de Caim – filho pecaminoso(4.17-26)
  5. E) Descendentes de Sete –filho escolhido: dez gerações de Adão a Noé (5.1-32)
  6. F) Ruína: união ilícita (6.1-4)
  7. G) Introdução a Noé (6.5-8)

A’) História do Dilúvio: reversão da criação, novo início (6.9-9.19)

B’) Pecado de Noé (9.20-29)

C’) Descendentes de Jafé – filho justo (10.1-5)

D’) Descendentes de Cam – filho pecaminoso (10.6-20)

E’) Descendentes de Sem – filho escolhido: dez gerações de Noé a Terá (10.21-32)

F’) Ruína: união rebelde – Torre de Babel (11.1-9)

G’) Breve Introdução a Abraão (11.27-32)

 

É interessante perceber a diferenciação nos nomes de Deus entre os capítulos 1 a 3. No capítulo 1.1 a 2.4, Deus é chamado de Elohim. Quando Moisés começa a mostrar o relacionamento de Deus com o homem, a partir de 2.5, Deus é chamado de YHWH Elohim, fazendo alusão ao pacto.

Segundo Westerman[69], Gênesis de 3-11 apresenta cada narrativa mostrando a rebelião das criaturas de Deus. Ele destaca uma estrutura de cinco histórias onde há um padrão de pecado, seguido por uma sentença de juízo e então uma execução do julgamento de Deus, conforme na tabela a seguir.

  Pecado Sentença Mitigação Castigo
Queda 3.6 3.14-19 3.21 3.22-24
Caim 4.8 4.11-12 4.15 4.16
Filhos de Deus 6.2 6.3 6.8, 18ss 7.6-24
Dilúvio 6.5, 11ss 6.7, 13-21 6.8, 18ss 7.6-24
Babel 11.4 11.6ss 10.1-32 11.8

 

Há uma intensificação do pecado, e à medida que o pecado aumenta, a punição e castigo também aumentam. Clines enfatiza que há três partes na narrativa de 3-11, indo da Criação para a Não-Criação e por fim para a Re-Criação).[70] Ele diz que o dilúvio é uma reversão da criação, um passo para trás no processo da criação. As águas fazem o mundo retornar a uma espécie de sem forma e vazio (Gn 1.2), Noé então significa um novo começo. Gênesis trabalha sempre essa ideia dos começos e das alianças de Deus com seu povo, seja em Adão, Noé, Abraão e Jacó.

Segundo Hill[71], há paralelos mesopotâmicos de Gênesis que tratam de criação, população crescente e dilúvio como a narrativa de Atrahasis. Contudo, há fortes contrastes entre Gênesis e essas literaturas mesopotâmicas. Por exemplo, em Atrahasis, o homem é criado para fazer o trabalho que os deuses não queriam fazer, não há dignidade no homem, já em Gênesis, o homem é criado à imagem e semelhança de Deus, com responsabilidade e dignidade. Também foram homem e mulher, os responsáveis pelo abalo do equilíbrio da criação e trouxeram o pecado, queda e maldição para o mundo, até culminar no dilúvio. Sempre ressaltando a graça de Deus em redimir, e mostrar como YHWH escolhe agir por meio de um povo eleito, não por mérito de Noé ou Abraão, mas por sua soberania e graça. O texto não hesita em mostrar os defeitos dos patriarcas, revelando que não foi por méritos humanos, mas pela misericórdia e decreto divino.

O texto de Gn 3.1-12 está inserido em uma perícope maior de Gn 2.4 a 3.24. Onde temos os versículos anteriores que tratam da criação do homem e da mulher, do mandato espiritual de não comerem do fruto e da sua habitação no jardim. Em Gn 2.25 há uma transição para o texto analisado. É dito que eles estavam nus e não se envergonhavam. Em contraposição ao pecado que faz com que se envergonhem por estarem nus. Temos nestes versículos o clímax, que é a queda do homem, seguido pela conclusão que é o juízo de Deus levantado contra a serpente, terra, homem e mulher.

Já nos versículos posteriores (Gn 3.13-24) vemos o veredito dado tanto à serpente, quanto ao homem e mulher por Deus. As consequências do pecado do homem são de juízo e ao mesmo tempo de graça. Em Gn 3.15, o Redentor é prometido para salvação da descendência da mulher. É possível ainda ver a graça do Deus que busca o homem, quando mesmo no castigo dado à mulher de dar à luz em meio a dores, lhe é permitido ainda gerar vida. E quando ao homem, mesmo no castigo do trabalho penoso, lhe é permitido sustentar a vida.

 

Mensagem para a Época da Escrita

Moisés relata sobre a queda do homem e mulher quando tentados pela serpente. A mulher agora toma a frente do homem e dá ouvidos à serpente, que questiona inicialmente a palavra de Deus e posteriormente afirma que Deus mentiu. Eva deseja do fruto, e tanto homem como mulher desejam serem como Deus, substituindo Deus. Ao comerem do fruto, eles percebem que não tiveram as bênçãos que pretendiam, e perceberam sua vergonha, buscando cobrir-se com folhas de figueira que eles mesmos costuraram. Após a queda do homem, Deus vai em busca deles, que se escondem entre as árvores por medo e vergonha. Contudo, Deus não os abandona, antes os busca para oferecer não só o juízo que mereciam, mas a Redenção pela graça. Deus dirige-se primeiramente ao homem, diferentemente da serpente que inverte os papeis criados por Deus. E lhe questiona sobre onde estava e o que fizeram. O homem, ao invés de pedir perdão e confessar seu pecado, procura desculpar-se voltando-se contra sua mulher e em última instância contra o Criador da mulher.

Moisés escreve sobre o relato da queda para o povo de Israel em algum momento da peregrinação no deserto. A missão de Moisés era dar a lei de YHWH Deus ao povo de Israel, que era a semente da mulher, e deles viria o Messias que pisaria na cabeça da serpente. Contudo, para isso era necessário que o povo de Israel não desse ouvidos a nada além da palavra de Deus, suas leis e seus mandamentos. Caso não dessem ouvidos, eles arcariam com as consequências disso, como nossos pais Adão e Eva arcaram. Nossos pais foram expulsos do jardim, e agora o povo caminha para a terra prometida, onde deveriam entrar e permanecer fiéis para não serem expulsos como Adão.

Há muitas implicações que são possíveis para o povo de Israel, como a liderança masculina e o papel da mulher em meio ao povo de Israel. Miriã sofreria com lepra por insurgir-se contra Moisés, tentando assumir um papel que não é seu. Quando ele usa os verbos “tomou” e “deu” em Gênesis 16.3, Moisés utiliza os mesmos verbos usados quando Eva toma do fruto e dá para Adão, mostrando a inversão dos papeis e as maldições e problemas que isso trará no futuro.

Moisés também revela um Deus que vai em busca do seu povo, mesmo em meio à rebeldia oferecendo-lhe redenção. O povo de Israel estava peregrinando no deserto por causa do seu temor e rebeldia contra Deus, em não dar ouvidos à voz de Deus, mas ainda assim, Moisés mostra que Deus é longânimo e compassivo, que busca e cuida do seu povo, mesmo quando ainda não estão na terra prometida.

Moisés revela o Deus da Aliança, quando trata de forma implícita sobre o nome de Deus nos versículos. Israel deveria se lembrar da maneira que tratam o Deus da aliança, e quando se esquecessem da aliança do Senhor, então entrariam em aliança com falsos deuses, ou mesmo com Satanás disfarçado. Moisés encoraja seu povo a confiar nas promessas de Deus e jamais dar ouvidos a promessas falsas de falsos profetas, falsos mestres e falsos deuses. O povo de Israel, se quisesse verdadeiro conhecimento e a paz plena (shalom), deveria busca-los apenas guardando os mandamentos e dando ouvidos a voz de Deus e nada mais.

Por fim, Moisés mostra como os pais pecaram, e como da semente deles haviam duas sementes: da mulher e da serpente. A semente da mulher chegaria até Abraão, o patriarca escolhido por Deus para que este se revelasse ao seu povo, e a semente da serpente que eram os perseguidores e inimigos de Israel.

 

Teologia (Mensagem para todas as épocas)

A queda do homem permeia quase todos os capítulos das Escrituras, apenas nos dois capítulos iniciais de Gênesis, e nos dois finais de Apocalipse não há presença do pecado. Desta forma, há muitas elaborações teológicas a partir deste texto de Gn 3.1-12. A partir daí temos a entrada do pecado no mundo. Segundo as Escrituras, o pecado de Adão não prejudicou somente a ele, mas a todos os seus descendentes (Rm 5.12, 19) e a partir daí a corrupção e culpa foram passadas para todas as gerações. Calvino[72] diz que por causa do pecado de Adão, gemem todas as criaturas sujeitas à corrupção sem que o queiram (Rm 8.22). Sustenta também que a imundícia do pecado de Adão é transmitida dos pais aos filhos, já que todos foram manchados em sua origem. Calvino ainda ironiza o pensamento pelagiano, que são contrários à doutrina da depravação total, quando diz:

“O que papagueiam aqui os pelagianos? Que o pecado de Adão se propaga pela imitação? Portanto, da justiça de Cristo não avançamos nada além de que nos seja deixado um exemplo para imitação? Quem tolera tal sacrilégio?[73]

Calvino defende então que a partir do pecado de Adão todos os homens se tornaram pecadores, por imputação imediata, não nascendo de maneira alguma sem pecado e puro. Caso contrário, também não poderíamos receber por imputação a justiça de Cristo, que seria mero exemplo a ser seguido, tornando assim, o céu impossível de ser alcançado pela justiça do homem.

A Confissão de Fé de Westminster, no capítulo VI diz que nossos primeiros pais pecaram, sendo seduzidos pela tentação de Satanás, tendo Deus permitido a queda e tornando-se eles mortos em pecado. Sendo eles tronco da humanidade, o seu delito foi imputado a seus filhos, e a mesma morte e natureza corrompida foram transmitidas a toda a sua posteridade. Por causa da corrupção original, o homem ficou totalmente indisposto, incapaz e contrário a todo bem e inclinado para todo mal. Todo pecado, seja o original como o atual, é uma transgressão da justa lei de Deus e está sujeito à ira de Deus e maldição da lei, e portanto, sujeito à morte e todas misérias espirituais, temporais e eternas.[74]

No livro de Jó 31.33, Jó declara sua integridade ao dizer que não encobriu suas transgressões como Adão por medo.

Em Oséias 6.7 quando o profeta trata da conversão insincera do povo de Israel, quando entram em rebelião contra o Senhor, é dito que transgrediram a aliança do Senhor assim como Adão, portando-se de forma infiel.

No Novo Testamento, o pecado de Adão é citado em Romanos 5.12, 14 revelando que por meio de Adão a morte veio a todos os homens, bem como em 1 Co 15.22, onde em Adão todos morrem. Nestes textos Paulo enfatiza que por meio do primeiro Adão o pecado entrou no mundo, e por meio do segundo Adão, Jesus Cristo, a redenção veio a todos os que creem.

Ao comer do fruto, Adão desonra a majestade de Deus. Jesus, como último Adão, não apenas não questiona a palavra de Deus, antes, em ação e palavra defende a majestade, amor e verdade de Deus.[75] Enquanto Adão pensa que Deus havia negado a eles algo que lhes seria bom, Jesus tem por interesse apenas fazer a vontade do Pai, revelando a completa compaixão de Deus pela humanidade. Jesus em sua incansável obra da graça, cuida dos marginalizados, pecadores, faz milagres de cura, chora à vista de Jerusalém, e por fim, entrega sua vida por amor aos pecadores.

Os verbos “tomou” e “comeu” do versículo 6 de Gênesis 3, são a base para toda a desgraça humana. Quando homem e mulher tomam e comem do fruto, a miséria e morte passam a imperar sobre o gênero humano. Porém, Cristo vêm para redimir todas as coisas, e faz isto até mesmo com os verbos da queda. “Tomai” e “Comei” se tornam verbos de salvação, depois que Cristo prova da morte e pobreza causados por estes verbos usados neste versículo 6.[76] Cristo, como segundo Adão, vem para redimir todas as coisas. Para trazer ordem à criação, e para que homem e mulher, criados à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26), se tornem conformes à imagem do Filho de Deus (Rm 8.29).

Em 1 Timóteo 2.13, 14, citando a queda de Adão e Eva, Paulo enfatiza o ensino bíblico quanto a submissão da mulher, nos papéis de marido e esposa. Quando Eva assume a frente, há inversão na ordem criada e consequentemente há pecado. Paulo então ensina, que Deus cria primeiro homem e depois mulher, dando-os papeis distintos na criação. Homem e mulher são iguais em essência e ontologicamente. Contudo, economicamente, são distintos, sendo que homem deve liderar, e mulher deve auxiliar. O marido é o cabeça da mulher. Isso não implica que a mulher é menor do que o homem, assim como o chefe não é maior, ontologicamente, do que seus funcionários. Assim como Cristo não é menor do que Pai, porém está sujeito a Ele.

É possível ainda percebermos uma sequência de Aliança de YHWH Deus com o homem, seguida da queda (pecado) e da graça redentora do Senhor. Vemos isto no mandato do Senhor para que não comessem do fruto, na queda em si ao comerem, e na busca de Deus ao homem e promessa de envio da semente da mulher para a redenção da humanidade. Esta tríade de Aliança, Pecado e Graça (Promessa de Semente para Redenção) pode ser vista em todo a Escritura quando percebemos a aliança de Deus com Noé em Gn 6.18 (aliança), a sua embriaguez (pecado) e a benção de Deus para Sem (graça). Vemos ainda a aliança de Deus com Abraão em Gn 15.12-18, o pecado de Abraão ao deitar-se com Agar e em mentir sobre sua esposa, e a promessa de Deus do nascimento de Isaque. A aliança de Deus com Davi (2 Sm 7.1-17), o pecado de Davi de adultério e assassinato de Urias, e nascimento de Salomão, cuja mãe era Bate-Seba, viúva de Urias. E por fim, o segundo Adão, que vêm para cumprir a Aliança e que não teve pecado, aquele que cumpriu toda a lei, foi obediente até o fim, para a salvação de muitos. A promessa agora é plenamente cumprida em Cristo, porque ele é perfeito em todas as coisas, pagando pelos pecados do povo de Deus e oferecendo-lhes as recompensas que ele mesmo conquistou por seus méritos, a vida eterna.

O texto de Gn 3.1-12 nos leva a ideia do Foco da Condição Decaída do Homem. O desejo de Eva é também o desejo dos homens de hoje. Querem ser como Deus, não desejam servir ao Criador, antes desejam ser seus próprios deuses. O centro da religião do homem caído é seu próprio ventre. Por isso vemos tanta idolatria, em que desejam buscar o paganismo onde podem barganhar com os falsos deuses, para que lhes deem aquilo que desejam. E seus desejos sempre estão relacionados ao ter, poder e ser. O desejo dos olhos, o desejo da carne e a soberba da vida. Vemos um cristianismo pós-moderno que fabrica ídolos gospel que se vendem para conseguir fama, sucesso e bens. Pastores que utilizam as mesmas palavras de Satanás, sendo usados por ele, para atrair pessoas carnais para suas igrejas. Levando-os a desejarem dinheiro, sucesso e felicidade à parte da obediência à palavra de Deus.

A atitude de Deus em buscar o homem em seu pecado tem sido a ordem desde a queda. “Não há quem busque a Deus” (Rm 3.11). Foi Deus quem buscou Abraão quando ele era um idólatra. Deus é quem busca Jacó quando ainda fugia das consequências dos seus erros. Deus é quem busca Moisés quando era fugitivo em Midiã. Cristo é quem busca seus discípulos e diz: “Não foram vós que me escolhestes, eu escolhi a vós outros”. Deus em sua grandeza e majestade, por amor e misericórdia, vai atrás de um pecador miserável que não passa de pó. Assim Ele faz hoje conosco, não porque merecemos, mas porque Ele decidiu nos amar e oferecer redenção por graça. Esse Deus é quem vem em nossa direção e também pergunta: “Onde estás?”. O mesmo Deus que oferece a nós a possibilidade de Redenção por meio de Jesus Cristo, a fim de que pudéssemos ser livres do poder e da condenação do pecado, e por fim, naquele dia, em que Jesus voltar, seremos livres também da presença do pecado. Aleluia!

 

Sermão resumido

Tema: A tentação do Satanás Astuto, a queda do Homem Engado e a busca do Deus Condescendente

Ideia Exegética: Satanás engana homem e mulher, que caem em pecado desejando ser igual a Deus, escondendo-se de Deus com vergonha e medo, e este os busca mesmo em situação de pecado.

Objetivo: Imprimir na mente dos ouvintes a noção da malignidade do pecado, a astúcia do tentador, as seduções do mundo e as consequências da queda do homem, bem como a misericórdia do Deus que vai em busca do pecador em graça.

Introdução:

As tentações vêm de diversas formas. Seja pelo desejo dos olhos, desejo da carne ou soberba da vida. É possível que muitos políticos corruptos, iniciaram suas carreiras políticas com desejos de serem honestos, mas em algum momento cederam às tentações da vida pública. Muitos pais de família caem em infidelidade sem planejar tais coisas.

Contextualização: O texto de Gn 3.1-12 foi escrito por Moisés. Sequência de 2.4 a 3.24. Mandato Espiritual. Criação. Jardim. Aliança.

 

1) A Tentação do Astuto Satanás

  • Questiona a palavra de Deus
  • Dá promessas a parte da palavra de Deus
  • Coloca o homem no lugar de Deus

 

  • 2) A Queda do Homem Enganado
  • Medo
  • Fuga de Deus
  • Vergonha
  • Coloca a culpa nos outros

 

  • 3) A Busca do Deus Condescendente
  • Deus é quem busca o homem e lhe oferece Redenção

 

Aplicação:

  • Devo voltar-me para a palavra de Deus;
  • Em face do pecado, devo confessá-lo, deixá-lo e voltar-me para Deus em arrependimento;
  • Devo reconhecer que a glória é de Deus na salvação do homem.

 

Conclusão: Toda felicidade buscada à parte de Deus levará à tragédia, dor e morte. Quando o homem cai nas seduções do mundo, sendo enganado, chegará à miséria. Contudo, apesar de nosso pecado, Deus é quem vem em nossa direção. Por meio de Cristo, temos a Redenção de nossos pecados, porque Ele nos amou sendo nós ainda pecadores.

 

Conclusão

Adão e Eva foram enganados pela Serpente, que faz com que o homem acredite que pode julgar a palavra de Deus questionando-a. Desta maneira, acreditaram nas promessas da Serpente, achando que poderiam ser ainda melhores à parte de Deus, colocando em cheque a perfeição da criação de Deus. Contudo, tudo que colheram foi miséria, desgraça, culpa, vergonha e morte, escondendo-se de Deus e desculpando-se em vez de assumirem seu erro. Contudo, Deus vai em busca do homem para inquirir sobre sua situação, trazer juízo e ao mesmo tempo graça.

A estrutura do texto está em seis cenas, sendo que a primeira é uma descrição da serpente, como animal sagaz criado por Deus. Na segunda cena, temos uma narração dramática, um diálogo entre a serpente e a mulher, sendo esta tentada por Satanás. As próximas três cenas seguem em narração direta, sendo que na terceira cena, temos o clímax da narrativa, onde a mulher toma do fruto, come e dá para seu marido. Na quarta cena, homem e mulher vivem o anticlímax, quando não recebem o esperado, antes vivem a vergonha por seu pecado procurando encobri-lo com a obra de suas mãos. Na quinta cena, homem e mulher escondem-se de Deus por medo. Por fim, a última cena, uma narração dramática, mostra um diálogo de Deus com o homem, onde o busca para pedir-lhe explicações e este procura desculpar-se culpando a mulher e em última instância, o próprio Deus.

A compreensão sobre a queda é extremamente importante para nós hoje como igreja, para compreendermos a malignidade do inimigo de nossas almas, que seduz o homem por meio do desejo dos olhos, desejo da carne e soberba da vida. Compreender a natureza caída do homem e suas implicações nos fará compreender também a grandeza de nosso Redentor, Jesus Cristo.

Hoje, muitos têm caído na tentação de acharem que a palavra de Deus pode ser julgada, e acreditam que podem decidir o que Deus disse, e o que não disse, tornando-se anátema, seguindo o pai da mentira. Além disso, precisamos entender que o pecado tem consequências terríveis que afetaram não apenas nossos primeiros pais, como a todos nós. Estamos na condição de pecadores, debaixo da ira e juízo de Deus e isso é terrível. Porém, a condição de pecadores a que estamos pode ser redimida por meio daquele que foi perfeito em tudo, pagando o preço por nossos pecados, trazendo redenção aos que creem, oferecendo-lhes a recompensa de vida eterna, tornando-os filhos de Deus, para a glória de Deus Pai.

Bibliografia

[1] The Hebrew Bible: Andersen-Forbes Analyzed Text. (2008). (Gn 3.1–12). Francis I. Andersen; A. Dean Forbes.

[2] PINTO, Carlos Oswaldo Cardoso; Fundamentos para Exegese do Antigo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 2013, p. 32

[3] WALTKE, Bruce K.; Introdução à sintaxe do hebraico bíblico, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 510

[4] Ibid., p. 506

[5] WALTKE, Bruce K.; Introdução à sintaxe do Hebraico Bíblico, São Paulo, Cultura Cristã, 2006, p. 510s

[6] VANGEMEREN, Willem A., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 2, São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 885s

[7] Ibid,, p. 996ss

[8] Ibid., p. 409-413

[9] Ibid., p. 1004

[10] VANGEMEREN, Willem A., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 2, São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 354

[11] Ibid., p. 1148

[12] Ibid., p. 164s

[13] Ibid, p. 265

[14] VANGEMEREN, Willem A., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 3, São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 207-210

[15] Ibid., p. 969

[16] Ibid., p. 772s

[17] VANGEMEREN, Willem A., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 1, São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 384ss

[18] WALTKE, Bruce K.; Introdução à sintaxe do Hebraico Bíblico, São Paulo, Cultura Cristã, 2006, p. 510s

[19] Ibid., p. 525

[20] Ibid., p. 540

[21] KELLEY, Page H., Hebraico Bíblico – Uma gramática Introdutória, São Leopoldo, Editora Sinodal, 1998, p. 111

[22] Ibid., p. 141

[23] KELLEY, Page H., Hebraico Bíblico – Uma gramática Introdutória, São Leopoldo, Editora Sinodal, 1998, p. 141

[24] Ibid., p. 144

[25] WALTKE, Bruce K.; Introdução à sintaxe do Hebraico Bíblico, São Paulo, Cultura Cristã, 2006, p. 429

[26] Ocorre em trinta e oito cláusulas.

[27] GAEBELEIN, Frank E.; The Expositor`s Bible Commentary – Volume 2, Michigan, Zoondervan, 1990, p. 50

[28] Ibid., p. 50

[29] HODGE, Charles; Teologia Sistemática, São Paulo, Hagnos, 2001, p. 579

[30] WIERSBE, Warren; Comentário Bíblico Expositivo: Antigo Testamento Volume 1 – Pentateuco; Geográfica Editora, Santo André, 2006, p. 25

[31] WALTKE, Bruce K.; Introdução à sintaxe do hebraico bíblico, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, p. 510

[32] KIDNER, Derek; Gênesis – Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 63

[33] PINK, Arthur, Gleanings in Genesis, Chicago, Moody Bible Institute, 1981, p. 36

[34] Ibid., p. 506

[35] GRONINGEN, Gerard Van; Criação e Cosumação, São Paulo, Cultura Cristã, 2002, p. 117

[36] VOS, GEERHARDUS, Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos, São Paulo, Cultura Cristã, 2010, p. 47

[37] HUBBARD, David A., BARKER, Glen W.; Word Biblical Commentary – Gênesis 1-15, 1987, p. 63

[38] VANGEMEREN, Willem A., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 2, São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 409-413

[39] KIDNER, Derek; Gênesis – Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 64

[40] BONHOEFFER, Dietrich, Ética, Editora Sinodal, São Leopoldo, 2000, p. 16

[41] VANGEMEREN, Willem A., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 1, São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 996ss

[42] GAEBELEIN, Frank E.; The Expositor`s Bible Commentary – Volume 2, Michigan, Zondervan Publishing House, 1990, p. 51

[43] KIDNER, Derek; Gênesis – Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 64

[44] GRONINGEN, Gerard Van; Criação e Consumação, São Paulo, Cultura Cristã, 2002, p. 127

[45] VANGEMEREN, Willem A., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 2, São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 164s

[46] Ibid., p. 265

[47] Ibid., p.64

[48] VANGEMEREN, Willem A., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 3, São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 207-210

[49] HUBBARD, David A., BARKER, Glen W.; Word Biblical Commentary – Gênesis 1-15, 1987, p. 75

[50] VANGEMEREN, Willem A., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 3, São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 384ss

[51] WALTKE, Bruce K.; Comentário do Antigo Testamento: Gênesis, São Paulo, Cultura Cristã, 2010, p. 307

[52] THOMPSON, John L.; Comentário Bíblico da Reforma: Gênesis 1-11, São Paulo, Cultura Cristã, 2015, p. 182

[53] KIDNER, Derek; Gênesis – Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 64

[54] WALTKE, Bruce K.; Comentário do Antigo Testamento: Gênesis, São Paulo, Cultura Cristã, 2010, p. 109

[55] Ibid., p. 109

[56] KIDNER, Derek; Gênesis – Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 65

[57] WALTKE, Bruce K.; Comentário do Antigo Testamento: Gênesis, São Paulo, Cultura Cristã, 2010, p. 109s

[58] HENRY, Mathew; Comentário Bíblico: Antigo Testamento – Gênesis a Deuteronômio; CPAD, São Paulo, 2010, p. 10

[59] GAEBELEIN, Frank E.; The Expositor`s Bible Commentary – Volume 2, Michigan, Zondervan Publishing House, 1990, p. 52

[60] PINK, Arthur, Gleanings in Genesis, Chicago, Moody Bible Institute, 1981, p. 38

[61] VANGEMEREN, Willem A., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 2, São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 969

[62] HUBBARD, David A., BARKER, Glen W.; Word Biblical Commentary – Gênesis 1-15, 1987, p. 76s

[63] WALTKE, Bruce K.; Comentário do Antigo Testamento: Gênesis, São Paulo, Cultura Cristã, 2010, p. 110

[64] PINK, Arthur, Gleanings in Genesis, Chicago, Moody Bible Institute, 1981, p. 39

[65] VANGEMEREN, Willem A., Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 3, São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 772s

[66] KIDNER, Derek; Gênesis: Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 65s

[67] THOMPSON, John L.; Comentário Bíblico da Reforma: Gênesis 1-11, São Paulo, Cultura Cristã, 2015, p.202

[68] WALTKE, Bruce K.; Comentário do Antigo Testamento: Gênesis, São Paulo, Cultura Cristã, 2010, p.18

[69] WESTERMANN, C. Genesis: A commentary, trad. J. J. Scullian. Augsburg, 1984-86

[70] CLINES, D. J. The Theme of the Pentateuch. Sheffield, 1978, p. 73-76

[71] HILL, Andrew E. e WALTON, John H., Panorama do Antigo Testamento, São Paulo, Editora Vida, 2007, p. 77

[72] CALVINO, João; A Instituição da Religião Cristã – Tomo 1, São Paulo, Unesp, 2008, p. 229

[73] Ibid., p. 231

[74] Confissão de Fé de Westminster, 18o ed., São Paulo, Cultura Cristã, 2008, p. 57-63

[75] PINK, Arthur, Gleanings in Genesis, Chicago, Moody Bible Institute, 1981, p. 52s

[76] KIDNER, Derek; Gênesis – Introdução e Comentário, São Paulo, Vida Nova, 2011, p. 64

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