João 21 – Recomeço

Eu jamais me esquecerei da vez que fui o traidor. Estávamos em um acampamento da igreja e sempre havia uma brincadeira que era feita em todos os acampamentos chamada História Viva. Nessa brincadeira, os acampantes eram distribuídos em duas equipes que disputavam entre si, passando por reinos, onde tinham que decifrar enigmas e tomar decisões. Eu sempre gostei de participar das Histórias Vivas. Contudo, aquela história viva foi diferente. O organizador pediu que em um dos reinos, eu traísse a minha equipe. Eu seria eu mesmo em todos os reinos, porém em um dos reinos, eu teria que me aliar ao senhor daquele reino para influenciar minha equipe a tomar a decisão errada. Eu fiz o que me foi pedido pois era necessário para que a história viva desse certo. Contudo, diferentemente da outra equipe, a minha equipe deu ouvidos ao meu conselho errado e se deram muito mal naquele reino. Logo em seguida, descobriram que eu os havia traído quando viram que eu não estava mais com eles mas com o senhor do reino. Dali, eles foram para o próximo reino, e agora, eu teria que encontrar com eles lá para pedir-lhes perdão. Eu voltei para encontrar-me com eles, humilhei-me diante deles e pedi perdão. Alguns não quiseram perdoar (note que era um acampamento cristão), e alguns me receberam de volta. Mas todos diziam a mesma coisa: “Se ele disser alguma coisa, não deem-lhe ouvidos”. Era apenas uma brincadeira, e eu apenas fiz aquilo que era o roteiro da brincadeira, mas senti na pele o que acontece quando alguém erra e como é tratado, mesmo quando se arrepende.

Quando lemos a história de João 21, percebemos a história de alguém que errou gravemente e que também se arrependeu. Esse homem era Pedro. Para entender essa história, precisamos voltar a um diálogo de Jesus com Pedro algum tempo antes (Jo 13.36). Naquele diálogo, Jesus diz a seus discípulos que todos o abandonariam, cumprindo a profecia de Zacarias 13.7. Porém Pedro se levanta e diz que jamais o abandonaria, ainda que todos o abandonassem, ele jamais faria isso. Veja que Pedro, nesse momento já tem uma tripla negação: ele nega as palavras de Jesus; nega a profecia das Escrituras e nega seus companheiros, colocando-se acima deles. Pedro pensava amar Jesus mais do que todos os outros.

Voltemos ao cenário de João 21. Pedro e os discípulos estão às margens do Mar de Tiberíades. João faz questão de nos dizer no capítulo 6, que o Mar de Tiberíades é o Mar da Galiléia. Um cenário muito conhecido de Pedro. Ali, às margens daquele mar, Pedro foi chamado por Cristo para deixar as redes e ser um pescador de homens (Mc 4.18). Às margens do mar da Galiléia, Pedro viu uma pesca maravilhosa orquestrada por Jesus. Ele havia tentado pescar a noite toda e nada havia apanhado. Porém, Jesus manda que lançasse a rede do outro lado do barco. Pedro questiona o mestre, afinal, ele era pescador experiente e Jesus era apenas um filho de carpinteiro. Porém, ao lançar as redes, encheram-se totalmente dois barcos com peixes. Nesse momento Pedro diz a Jesus: “Retira-te de mim porque sou pecador”. Contudo, Pedro não encontra olhos que o condenam, mas que o acolhem, cuidam e ensinam. À beira daquele mar, Pedro viu Jesus multiplicar pães e peixes e alimentar uma multidão de 5 mil pessoas (Jo 6).

Pedro decide ir pescar. Ele está frustrado porque traiu Jesus. A poucos dias o negou diante de criados à beira da fogueira. Ele não foi um bom discípulo, até em um primeiro instante decidiu lutar para “salvar” seu mestre, contudo, posteriormente hesitou, teve medo e apenas acompanhou à distancia toda a tortura que Jesus passou. Ele nada fez. Ele o abandonou. Ele falhou terrivelmente. Pedro então decide ir pescar, afinal, nisso ele era muito bom. Porém, diz o texto, no versículo 3, que naquela noite eles nada apanharam. Pedro, João, Tiago, Tomé, Natanael e outros dois discípulos, que não temos acesso a seus nomes, não conseguiram apanhar nada depois de uma madrugada inteira de tentativas. Todo pescador, quando volta de uma pescaria, gosta de exibir seus troféus, e muitos ainda inventam histórias de grandes peixes que pescaram, mas que nunca ninguém viu. Naquela manhã foi diferente. Eles voltam decepcionados. Pedro em especial. Ele, que fracassaram terrivelmente com o Senhor, agora, querendo um tempo fazendo algo que poderia levantar-lhe a estima, algo que acreditava ser bom, ele fracassa novamente. Para piorar, há alguém na beira da praia, a noventa metros de distância perguntando: vocês tem algo de comer aí? Jesus pergunta a Pedro se ele era capaz de se virar sozinho. Eles respondem: Nada apanhamos. O primeiro ensino de Jesus nesse texto é que nem mesmo nas pequenas coisas, podemos achar que somos independentes. Até mesmo naquilo que pensamos ser bons, dependemos da graça do Senhor, que nos sustenta. Pedro nesse momento reconhece que fracassou novamente. O reconhecimento do nosso fracasso é o primeiro passo para uma transformação interior que nos levará à vitória. Walt Disney foi despedido por um editor de jornal por falta de ideias. Thomas Alva Edison ouviu de seu professor que era muito estúpido para aprender qualquer coisa. Esse homem foi criador de mais de 1000 invenções. Albert Einstein foi expulso da escola politécnica de Zurich. Henry Ford foi à falência cinco vezes antes de criar a Ford. Coronel Sanders começou a franquia KFC com 65 anos de idade, depois de ter que fechar seu pequeno restaurante na beira de uma estrada. Depois do fracasso, então vem o primeiro milagre daquele dia. No mundo espiritual o reconhecimento do nosso fracasso é o primeiro passo para a restauração. Deus transforma fracassos em triunfos.

Depois de seu fracasso, Pedro já não é mais o mesmo Pedro que conhecíamos. Antes, em Lucas 5, quando Jesus o manda jogar a rede do outro lado do barco, Pedro ainda cheio de si, questiona. Agora, Pedro demonstra humildade. Ele apenas obedece ao Senhor Todo-Poderoso. Quando Deus quer nos restaurar, ele move os céus e a terra para transformar o nosso ser. Para transformar Pedro, Deus havia planejado aquele ambiente. Pedro revive naquele momento vários momentos que já tinha vivido ao lado do Senhor Jesus. À beira da praia, depois de um milagre exatamente igual, Pedro ouve do Senhor Jesus o chamado para que fosse pescador de homens. Agora, ele se lembra disso. Ele vê o mesmo milagre, anos depois. Ele precisava relembrar aquilo que ouvira. O mesmo chamado a Pedro é feito naquela noite. À beira daquele mar, Pedro viu uma multidão de cinco mil homens ser alimentados por pães e peixes (Jo 6). Ele se lembra que Jesus teve compaixão daquela multidão. Naquele momento, há pães e peixes à beira da fogueira. Jesus o alimenta e tem compaixão dele. À beira daquele mar, Pedro viu Jesus curar uma grande multidão (Mc 3.7), e agora, ele é curado pelo Senhor Jesus. Além desse cenário, ainda há uma fogueira, mesmo ambiente em que Pedro nega a Jesus. Ele o nega por três vezes diante de uma fogueira (Lc22.54-62). Agora, diante de uma fogueira, ele tem a oportunidade da redenção, do perdão e da cura de sua alma. Deus planeja cada detalhe em nossa vida. Aquele dia foi planejado pelo Senhor antes que houvesse mundo.

Chega o ápice daquele momento. Cada detalhe planejado pelo Criador do Universo para tratar aquele que ele amou antes que houvesse mundo. Surge a primeira pergunta: Pedro, tu me amas mais do que esses outros? O verbo utilizado por Jesus nesse momento é o verbo agapás que vem da raiz agapáo. Esse verbo, no grego do Novo Testamento está relacionado ao amor de Deus. Um amor que perdoa. Um amor sacrificial. Um amor que preenche e direciona toda vida e ação. Um amor incondicional e não levado por sentimentalismo ou momentos. Pedro, antes, disse que amava Jesus mais do que os outros, porém, depois o negou. Agora, diante de Cristo, vendo as marcas dos cravos em suas mãos, lembrando-se do seu fracasso ele responde: Sim, Senhor, tu sabes que te amo. Porém o verbo grego utilizado por Pedro aqui não é o mesmo utilizado por Jesus. Pedro responde que ama Jesus, porém não com o verbo agapáo e sim com o verbo filéo. O verbo filéo trata de um amor entre amigos, parentes. Tem um sentido concreto de cuidar. Um amor mais relacionado à obrigação com meu próximo. É um amor mais terreno. Tem sentido de afeição, diferentemente de agapao que não pode ser aplicado a afeição, pois é mais sublime. Pedro diz: Senhor, meu amor por ti não é perfeito. Posso fraquejar. Sou imperfeito. Mas te amo. Pedro agora não é mais aquele discípulo impulsivo e arrogante. Ele pensa para falar. Torna-se alguém humilde. E agora, ouve da boca do Senhor um novo chamado: apascenta os meus cordeiros. Pedro está preparado para cuidar de outros. Ele sabe que não é capaz, por isso fará na força do braço do Senhor. Ele antes, andava por onde queria (Jo 21.18), mas agora, é guiado pelo Senhor. Se tornou um homem dominado por Deus, e por isso pode cuidar do Rebanho do Senhor.

A mesma pergunta se repete. Jesus novamente pergunta com o verbo agapáo e a resposta de Pedro vem com o verbo filéo. Novamente, Jesus dá a oportunidade de Pedro dizer que o ama e mostrar seu arrependimento e confiança no Senhor e não em si mesmo. A terceira pergunta vem. Agora, Jesus muda o verbo. Não mais utiliza agapáo, mas filéo. A resposta de Pedro não muda. Ele responde com o mesmo filéo as três vezes. E pela terceira vez ouve da boca do Senhor que deve pastorear o seu rebanho. Pedro negou o Senhor Jesus por três vezes diante de uma fogueira, e agora, diante de uma fogueira, pôde dizer por três vezes que o amada. Ele é restaurado para se tornar o líder da igreja em Atos.

Antes, negou Jesus por três vezes diante de criados, agora, restaurado, diante do Sinédrio está disposto a morrer. É preso, açoitado e posteriormente é morto crucificado de cabeça para baixo (segundo a tradição).

Não sei qual a sua história, mas sei que não somos diferentes de Pedro. Quando achamos que estamos no controle, chegamos ao fracasso. Nossos pensamentos. Nossas ideologias. Nossos planos. Aquilo que pensamos sobre nós mesmos. Pedro queria ser um dos maiores. Teve que perceber que não era, para se tornar aquilo que Deus faria dele. Também nós devemos assim como Pedro: reconhecer nosso fracasso, voltar-nos completamente para o Senhor, tendo o nosso caráter transformado e sendo restaurados por ele, com o propósito de evangelizar e abençoar outros.

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