Salmo 24 – A vinda do Rei da Glória

Linha 1 – Salmo de Davi

לְדָוִד מִזְמוֹר

Salmo escrito por Davi, e colocado em uma sequência lógica messiânica dos Salmos 22, 23 e 24. Onde o primeiro retrata o sofrimento do Messias, seguido de sua confiança em Deus e sendo levado a um vale de sombra de morte, e por fim em uma conclusão mostrando a glorificação e vitória do Messias.

 

  • O DEUS Criador

Vs 1 e 2 – Deus Criador

Linhas 2-4 – Do SENHOR é a terra e sua plenitude, o mundo e os que nele habitam (לַיהוה הָאָרֶץ וּמְלוֹאָהּ תֵּבֵל וְיֹשְׁבֵי בָהּ)

O lamed seguido de YHWH (לַיהוה), mostra possessão, é do SENHOR, e não apenas direção, para o Senhor. Isso mostra que Deus é o dono de todas as coisas. A ele tudo pertence.

A palavra מְלוֹאָהּ (Plenitude) denota um enchimento espacial[2], a humanidade deveria “encher” a terra (Gn 1.28, 9.1). Deus não apenas é o criador e dono de todas as coisas que deu forma em Gênesis 1, mas também de tudo que preencheu.

Mundo é um paralelismo sinonímico com terra, e os que nele habitam (homens e seres criados) é um paralelo sinônimo à plenitude (tudo que a preenche).

Os que habitam (וְיֹשְׁבֵי) aponta para Deus formando a Terra para ser habitada pelos homens e todos os seres criados (Is 45.18).[3] Com a queda do homem, havia uma ameaça de tirar a ordem e levar ao caos, à não habitação. A ameaça de a terra voltar a não ser habitada tornou-se uma figura muito utilizada pelos profetas quanto ao julgamento divino (Is 6.11, Jr 4.7, Sf 2.8). Diante da desordem, Deus suscita ordem. Diante do pecado, Deus é quem sustenta e mantém o universo. Por meio do seu filho, o santíssimo e o vitorioso, Deus é quem mantém o universo, criado por ele, e agora faz por meio de Cristo, uma nova criação.

 

Linhas 5 e 6 – Pois ele fundou-a sobre os mares e sobre os rios a estabeleceu. (כִּי־הוּא עַל־יַמִּים יְסָדָהּ וְעַל־נְהָרוֹת יְכוֹנְנֶהָ)

Aqui temos uma oração subordinada, que explica porque Deus é criador e dono de tudo. Davi faz um paralelismo sinonímico entre fundou sobre mares e estabeleceu sobre rios.

Sobre os mares (עַל־יַמִּים) mostra que Deus criou a Terra e inicialmente totalmente coberta de águas, conforme o Salmo 104.5-9, e à ordem dele, as águas “fugiram” para o lugar que ele tinha determinado. Deus é o criador dos mares (Gm 1.10), exerce absoluta soberania sobre eles. Os mares eram vistos como um poder grandioso por todos os povos do mundo antigo. Temido, e visto como local de monstros, Deus mostra que é soberano sobre os mares, e que acima deles, ele estabelece a terra, que está firme, não porque está sobre os mares, mas porque Deus a sustenta. Além disso, ele fundou-a (יְסָדָהּ), ou seja, ele estabeleceu a construção, o fundamento. Essa palavra é utilizada muitas vezes no contexto de atividades de edificações, como na construção do segundo Templo em Jerusalém (1 Rs 5.17, Ed 3.6, Is 44.28, Ag 2.18, Zc 4.9). As referências fazem alusão ao estabelecimento dos fundamentos da cidade, muros, etc. A durabilidade de uma estrutura estava diretamente ligada ao fundamento sobre o qual estava estabelecida. Poderia ser sobre a areia (Jó 4.19) ou sobre pedras densas, lavradas e encaixadas (1 Rs 7.10,11). Aqui Deus diz que lançou o fundamento sobre os mares. Aparentemente não haveria estabilidade alguma, porém, mesmo na figura absurda aos olhos dos judeus, Deus mostra que o fundamento mais firme é aquele que é estabelecido por ele. Não por causa do fundamento, mas por causa de quem a fundou, o Deus é Imutável e Eterno.

Sobre os rios (וְעַל־נְהָרוֹת יְכוֹנְנֶהָ), verbo יְכוֹנְנֶהָ (estabeleceu) está no Polel. O significado comum para a palavra no qal é permanecer, porém, no Polel[4], esse significado é fortalecido, trazendo os resultados da ação. Deus tem estabelecido sobre os rios. Neste caso, a terra tem sido permanentemente sido posta no lugar, e sustentada pelo Senhor. Aqui temos um paralelismo sinonímico com fundou-a sobre os mares.

 

2) O Santíssimo

Vs 3 a 6 – Quem pode permanecer em sua presença?

Linhas 7, 8 – Quem subirá ao monte do SENHOR? E quem permanecerá em seu lugar santo? (מִי־יַעֲלֶה בְהַר־יהוה וּמִי־יָקוּם בִּמְקוֹם קָדְשׁוֹ)

O salmista agora faz uma série de perguntas questionando quem pode permanecer na presença do Deus Criador. Quem pode estar diante dele? A primeira pergunta é: Quem subirá ao monte do SENHOR? O verbo subirá (יַעֲלֶה), dá o sentido de subida espiritual, é utilizado para subir a Deus. Pode significar também a jornada ao santo lugar. A noção de subir a Deus pode ser vista nove vezes no Pentateuco (Ex 19.3,24; 24.1, 24.12, Dt 10.1). É central no discurso da aliança de Yahweh com Israel, no qual se evidencia a grande distância entre o Deus Altíssimo e seu povo escravo e indigno. Também é utilizado para subir ao Templo, à casa de Yahweh. Ana sobre à casa de Yahweh (1 Sm1.7), Samuel sobe ao alto lugar (1 Sm 9.13,14,19). Josias (2 Rs 23.2) e os príncipes de Judá (Jr 26.10) sobem ao templo.[5]

Quando Davi cita o monte do SENHOR, é possível que Davi esteja falando do Monte Sinai ou Monte Sião, pois estão associados às teofanias e à aliança. Provavelmente, Davi se refere ao Monte Sião, que também é chamado de monte santo (Sl 2.6), e posteriormente Davi fala do lugar santo. Sião é o lugar onde Deus vive para sempre (Sl 68.17) e também denota especialmente o papel de Yahweh como Rei e como Criador.[6] O verbo subir faz um paralelo com o verbo permanecer (יָקוּם), ambos no imperfeito, dando a ideia de um ato contínuo, dando a ideia de quem pode ficar diante do Senhor continuamente? A resposta em seguida mostra os requisitos ao povo para adorarem ao SENHOR, para subirem à sua presença. Davi provavelmente está pensando no Tabernáculo ou no Templo que seria construído futuramente.

O verbo permanecer ou subir aparece algumas vezes em textos escatológicos e messiânicos: “de Israel subirá um cetro” (Nm 24.17). Jó afirma: “eu sei que o meu Redentor vive e por fim se levantará sobre a terra” (Jó 19.25). Neste caso, quem pode subir ou permanecer no santo lugar, perante o Senhor? Davi faz uma pergunta que aponta para o Messias, ele é quem subirá, o cetro, o Rei da Glória que subirá ao monte santo do Senhor para a redenção dos povos.

 

Linha 9-12 – O que é limpo de mãos e puro de coração. Que não leva sua alma à vaidade e não jura dolosamente.

(נְקִי כַפַּיִם וּבַר־לֵבָב

אֲשֶׁר לֹא־נָשָׂא לַשָּׁוְא נַפְשִׁי וְלֹא נִשְׁבַּע לְמִרְמָה׃)

Davi agora começa a descrever o caráter daquele que subirá ao monte santo, que pode permanecer diante do Deus Todo-Poderoso. Davi faz quatro afirmações, sendo duas positivas, do que ele é, e duas negativas, do que ele não faz. Assim deve ser o povo de Deus.

Ele é limpo de mãos (נְקִי כַפַּיִם)

A palavra נְקִי (puro) significa também ser livre, isento de culpa, inocente. Essa palavra está diretamente ligada a sacrificar, derramar libações, carregando o significado de ser puro, limpo, imaculado. Essa palavra, no sentido forense, significa a absolvição da culpa. Ao se declarar uma pessoa limpa (נְקִי) ela é posta em liberdade. Nesse caso recorre a uma conduta ética fortalecida por meio da absolvição jurídica. Ele não tem pecado diante de Deus.[7] O termo mãos, implica a questão de suas ações. Em suas ações ele não tem pecado. É totalmente inocente. Além de não fazer o mal, ele faz o bem. Ele é inocente e justo. O povo de Deus deve buscar andar em santidade e ter suas ações de acordo com a lei do Senhor. E quando pecar, deve buscar em arrependimento, o perdão de pecados por meio do sacrifício, tornando-se limpo.

Ele é puro de coração (וּבַר־לֵבָב)

A palavra puro (בַר) significa potassa ou sabão, usados para lavar. O termo também se refere aos procedimentos purificadores do Messias (Ml 3.2).[8] Ele tem seu coração limpo. O termo coração (לֵבָב) significa a sede dos pensamentos, sentimentos, vontade e emoção. Ele é puro em todos os sentidos. Tanto em seus sentimentos, quanto pensamentos e vontades. Ele é plenamente puro. Os pensamentos do povo de Deus devem ser de acordo com a lei, tendo sua mente cativa aos mandamentos do SENHOR, amando-o acima de todas as coisas.

Ele não leva sua alma à falsidade (אֲשֶׁר לֹא־נָשָׂא לַשָּׁוְא נַפְשִׁי)

Ele não leva (נָשָׂא) sua alma à vaidade. O verbo levar é um perfeito gnômico, ou seja, é uma situação habitual.[9] Além disso, o perfeito também tem implicações para o futuro. Uma vez que não leva a alma à falsidade e não jura dolosamente, ele terá recompensas por isso. O verbo significa também emprestar ou penhorar. Ele não empresta sua alma para o mal. Não se entrega para aquilo que o levará a não glorificação de Deus, aquilo que é vazio, vão. Essa palavra dá uma ideia de algo temporário, mas que tem implicações eternas. Ele não faz isso nem temporariamente, nem por alguns momentos. Ele é perfeito em todo o tempo. Ele não entrega a alma à falsidade. Esse termo significa que seu ser não é entregue à mentira ou à apostasia. Não se entrega à idolatria e tampouco desvia sua alma do bem.

Ele não jura dolosamente. (וְלֹא נִשְׁבַּע לְמִרְמָה)

Ele não jura está no perfeito gnômico, que significa que habitualmente ele não jura dolosamente (לְמִרְמָה), significa balança enganosa, astúcia, dolo. Ele não busca levar vantagem, e não usa seus lábios para proferir palavras a fim de ganhar ou prejudicar outros. O seu coração é puro, e suas mãos são limpas porque ele não empresta sua alma ao engano e nem usa sua boca para o mal.

 

Linha 13-16 – Ele receberá a bênção do SENHOR e justiça do Deus da sua salvação. Esta é a geração dos que o buscam, dos que requerem tua face Jacó, selá.

יִשָּׂא בְרָכָה מֵאֵת יהוה וּצְדָקָה מֵאֱלֹהֵי יִשְׁעוֹ)

(זֶה דּוֹר דֹּרְשָׁו מְבַקְשֵׁי פָּנֶיךָ יַעֲקֹב סֶלָה

Ele receberá (יִשָּׂא) é um imperfeito que significa levar sobre si, perdoar, carregar alguém ou ser exaltado. Essa palavra é usada também em Isaías 53.4, quando diz que “ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si”. Neste caso, ele receberá do SENHOR a bênção e a justiça. A bênção (בְרָכָה) viria sobre aquele que cumprisse as ordenanças do pacto. Ele recebe a bênção do SENHOR porque Deus prometeu que daria bênçãos (Dt 28) caso seu povo fosse obediente. Neste caso, aquele que tem mãos limpas e coração puro, é louvado e exaltado. Abençoado por Deus por cumprir o pacto. É merecedor da glória e da salvação por causa da justiça que recebeu do SENHOR. Ele recebe a bênção por causa da justiça (צְדָקָה). Somente o justo (צְדָקָה) está autorizado a subir ao “monte do Senhor”. Os salmos constantemente vinculam o rei e o exercício da justiça (צְדָקָה), que está diretamente ligada à justiça divina (Sl 72.1-3). Deus age em favor do povo, assim como deveria fazer o rei. A exaltação do rei está diretamente ligada com o cuidado em exercer justiça e misericórdia (Sl 45.5-7).[10] Desta maneira, aquele que é o justo, que exerce a justiça da maneira que Deus determina na sua lei, é aquele que é louvado, e que é o Rei exaltado e glorioso. Esse é Jesus Cristo, o rei dos reis, o justo.

Esta é a geração dos que o buscam ((זֶה דּוֹר דֹּרְשָׁו. A palavra geração (דּוֹר) está relacionada não a um período de tempo, mas a um grupo de pessoas, um ajuntamento de pessoas com o mesmo propósito, ou seja, são buscadores. Neste ponto temos duas possíveis interpretações. A quem eles buscam? Temos o pronome na terceira pessoa do singular que pode apontar tanto para aquele que receberá do SENHOR a bênção e a justiça quanto pode apontar para o SENHOR como alvo da busca desse povo. No primeiro caso, é possível interpretarmos um povo escatológico, como os gentios que se unirão à Jacó, pois buscarão a face de Jacó, como povo de Deus. Entrando para a aliança de Yahweh em obediência aos mandamentos e adorando-o juntamente com o povo de Israel. Literalmente o texto diz: “dos que requerem tua face Jacó.” Inicialmente temos um particípio atributivo para descrever a geração, eles são aqueles que requerem a face de Jacó. Quando olhamos para as traduções atuais, todas traduzem como “face do Deus de Jacó”, ou “tua face, ó Deus de Jacó”. A palavra Deus não aparece no hebraico. Existem vários outros salmos que contém as palavras “Deus de Jacó” (20.1, 46.7, 46.11, 75.9, 76.6, 81.1, 81.4, 84.8, 94.7). Somente a Septuaginta e a Versão Siríaca trazem a palavra Deus juntamente com Jacó. Seguindo a primeira interpretação, de que a geração busca o povo de Israel (e futuramente o Rei da Glória, o ungido do SENHOR), a sequência que faria sentido é a da maioria dos manuscritos massoréticos que traz “que requerem tua face Jacó”. Desta forma, Davi fala dos gentios buscando estarem debaixo da aliança, em uma peregrinação escatológica para Sião, profetizada pelos profetas e fazendo parte do povo de Deus, ou seja, a geração mostra tanto judeus como gentios debaixo da aliança de Yahweh. Uma segunda interpretação seria que a geração busca o Deus de Jacó, o SENHOR, aquele que dá a bênção e a justiça àquele que é limpo de mãos e puro de coração. Aqui, Davi fala então que aqueles que andam em conformidade com a lei do SENHOR, tendo mãos limpas e um coração puro, são uma geração que verdadeiramente busca a Deus. A sequência natural, seria seguir o manuscrito da Versão Siríaca, que é um excelente manuscrito. Essa geração é a que busca a face do Deus de Jacó. Assim, teríamos um paralelismo sintético, com paralelos entre buscam e requerem, e o pronome da terceira pessoa do singular e a explicação que seria a face do Deus de Jacó. Contudo, há um problema nessa versão por conta da mudança do pronome. Muda da terceira pessoa do singular na primeira oração para a segunda pessoa do singular. Na primeira oração Davi estaria dirigindo-se à geração referindo-se a Deus e na segunda, o salmista dirige-se a Deus referindo-se à geração. A primeira interpretação, seguindo a maioria dos manuscritos foi a que seguimos para nossa tradução e portanto, nossa interpretação neste comentário. Essa geração então é uma geração escatológica, um povo que se unirá ao povo de Deus em adoração. E isso só será possível por causa do Rei da Glória que unificará judeus e gentios por meio da sua justiça exercida e preço pago na cruz do Calvário.

O verbo buscar (דֹּרְשָׁו) muitas vezes está relacionado a buscar a Yahweh. Por doze vezes ocorre nos salmos como buscar a Yahweh (Sl 22.26,27, 14.2, 53.2, 9.10, 34.10, 34.4). Neste caso, é possível que a busca seja ao povo de Deus, mas também ao SENHOR, neste caso, pode ser uma busca ao Rei da Glória, que também é YHWH, como vemos em João 1.1 e 8.58.

 

3) O Rei Glorioso

Vs 7 a 10 – Quem é o Rei da Glória?

Linha 17,18,23,24 – Levantai ó portas as vossas frontes e estejas levantados ó portais eternos.

(שְׂאוּ שְׁעָרִים רָאשֵׁיכֶם וְהִנָּשְׂאוּ פִּתְחֵי עוֹלָם

שְׂאוּ שְׁעָרִים רָאשֵׁיכֶם וּשְׂאוּ פִּתְחֵי עוֹלָם)

Na linha 17 temos o primeiro imperativo que é um qal seguido por um imperativo nifal na linha 18. No primeiro imperativo, a ordem é dada aos portões como personificados. Já no segundo, a ideia é de que os portem devem ser levantados por alguém, os porteiros. Temos paralelos nas linhas 23 e 24, ambos com o imperativo no qal seguindo a ideia da linha 17.

Na última parte do salmo temos quatro vezes a ordem para que os portais sejam abertos, duas vezes a entrada do Rei, duas vezes a pergunta sobre quem é o Rei da Glória e por fim, duas vezes a resposta com os atributos do Rei. O recurso da repetição no hebraico tem um significado de intensificação e força. É um hebraísmo. Por quatro vezes os portais são ordenados a serem abertos para receberem o Rei vitorioso. Esse Rei é Yahweh que mantém sua criação e leis. Ele é aquele que conquista a cidade e reina sobre ela. O verbo levantai (שְׂאוּ) é um imperativo, uma ordem, não direta às portas, mas sim aos porteiros da cidade. O salmista aqui utiliza uma metomínia, falando aos porteiros com uma apóstrofe às portas.[11] Os porteiros da cidade são chamados a levantar-se e abrirem as portas para a entrada do rei triunfante.

A palavra portas (שְׁעָרִים) neste caso está relacionada com a porta da cidade, que era o centro estratégico das cidades antiga. Tomar posse da porta significava conquistar a cidade (Gn 22.17, 24.60). A porta era fechada a noite para garantir segurança (Js 2.5). As portas eram abertas (levantadas) para receber tributos (Is 60.11, Ap 21.25) e para dar boas vindas ao seu rei como neste salmo. Quando uma cidade era capturada e subjugada, os reis e oficiais colocavam seus tronos à porta a fim de julgá-los (Jr 1.15, 39.3). Sentados à porta, os anciãos julgavam os casos do povo (Dt 21.19, 22.15,24).

Uma questão importante é que portões são esses. Há pelo menos três possíveis interpretações. A primeira é de que seria a entrada de Jerusalém, e Davi juntamente com o povo em procissão entram na cidade com a Arca do Senhor, e o Rei da Glória é o Senhor representado pela Arca da Aliança. Uma segunda interpretação seriam as portas do Templo, e a entrada no Templo do Senhor. Por fim, acreditamos que as portas são uma alusão ao santuário celestial como em Gn 28.17 “é a casa de Deus, a porta dos céus”.[12] Nesse caso, o salmista dá uma ordem às portas para serem abertas, para que os portais eternos, ou seja, não é apenas a porta da cidade de Jerusalém (na época de Davi), mas as portas da Nova Jerusalém, portas eternas, para que o rei da Glória entre, o Messias, o Rei dos Reis. Aqui nos é pintado um retrato da entrada do rei triunfante. Ele venceu, conquistou a cidade para sempre. Sua vitória é eterna e agora ele toma posse dessa cidade. Ele é o vencedor que pode entrar por esses portais eternos.

 

Linhas 19,20, 25,26 – E entrará o rei da glória. Quem é este rei da glória?

(וְיָבוֹא מֶלֶךְ הַכָּבוֹד:מִי זֶה מֶלֶךְ הַכָּבוֹד

מִי הוּא זֶה מֶלֶךְ הַכָּבוֹד וְיָבֹא מֶלֶךְ הַכָּבוֹד׃)

O verbo entrará (וְיָבוֹא) é um imperfeito antecedido por um vav relativo que nos dá uma ideia de subordinação à oração anterior.[13] Esse verbo é utilizado muitas vezes como a vinda de Deus em um evento agradável, mesmo que implique as vezes em julgamento (Is 3.14, 30.27). Também é usado para a vinda do grande e terrível dia do SENHOR (Jl 2.31, Is 13.9, Zc 14.1). Após a destruição do templo, os profetas exílicos e pós-exílicos ansiavam o retorno da presença de Yahweh para Israel (Ml 3.1,2). Isaías profetiza o “Redentor entrando uma vez mais em Sião para os de Jacó, que se converterem” (Is 59.20).[14] Neste versículo vemos o Rei da Glória entrando em Sião vitorioso, justo, santo e glorioso para reinar para todo o sempre.

O rei da glória (מֶלֶךְ הַכָּבוֹד) entrará triunfante na cidade. A palavra rei nos leva tanto ao reinado de Davi, o rei de Israel, quanto ao reinado de Yahweh, que é o Rei dos reis. Neste caso, o rei triunfante aponta para o rei messiânico, o descendente prometido à Davi, que se assentaria no trono para todo o sempre (Jr 33.14-17, 2 Sm 7.12). A palavra glória (הַכָּבוֹד) significa peso, honra. Neste caso significa digno, de alta posição. Ele é um rei digno de honra, altíssimo. Além disso, demonstra majestade e esplendor. No Sl 21.5,6 mostra a honra manifesta ao reino davídico, demonstrada em seus sucessos militares. Neste caso, o rei venceu seus inimigos, ele é forte e poderoso, digno de toda honra e toda glória. Entra triunfante da cidade. Davi aponta para o rei messiânico que colocará debaixo dos seus pés os inimigos e trará justiça e bênção ao seu povo por meio do seu modo de viver santo. Vemos também uma clara referência a Apocalipse 19: 13-16, que aponta para Jesus Cristo, como Rei dos reis e Senhor dos senhores regendo as nações.

A oração começa com um pronome animado[15] em uma pergunta que rege as respostas quanto aos atributos desse rei. Por duas vezes essa pergunta retórica é feita (vs 8, 10), e a resposta é dada nas linhas 21, 22, 27 e 28. O significado desta pergunta retórica no Salmo é chamar a atenção do leitor para o Rei da glória, ou seja, Deus, Ele mesmo. Além disso, também se destina a chamar a atenção para alguns dos atributos de Deus, como sua onipotência, como é destacado nas linhas tratadas em seguida.

 

Linha 21,22,27,28 – O SENHOR poderoso e forte. O SENHOR forte na guerra. O SENHOR dos exércitos. Ele é o rei da glória.

(יהוה עִזּוּז וְגִבּוֹר יהוה גִּבּוֹר מִלְחָמָה׃

יהוה צְבָאוֹת הוּא מֶלֶךְ הַכָּבוֹד סֶלָה׃)

Yahweh é o Rei da Glória. Israel não precisa de um rei mortal e falível, como todas as outras nações. O Rei de Israel é Yahweh. Davi atribui três atributos a Deus, sendo um paralelismo sintético. O Senhor é poderoso e forte. E em seguida acrescenta uma informação: Ele é forte na batalha. Primeiramente ele é poderoso (עִזּוּז), o Rei da Glória mostra-se forte ao seu povo. Em Sl 68.28, Deus é incitado a mostrar sua força. Além disso, o salmista faz um apelo a Deus para que repita a vitória contra os inimigos de Deus como fez contra os cananeus no passado. Essa palavra muitas vezes é usada para referir-se ao poder de Yahweh como criador e soberano sobre tudo que foi criado (Sl 89.9-14). Aqui, o poder pertence a ele (Sl 62.11) e o poder caracteriza o seu reino (Sl 99.4). Além disso, o Rei divino é revestido de majestade e envolvido em força (Sl 93.1). Com ele está a força e a sabedoria (Jó 12.16). Por fim, Yahweh é a força do seu povo (Ex 15.2, Sl 28.8) e ele é quem resgata o seu povo com poder, vindo do seu monte santo (Hc 3.3).[16]

Em segundo lugar ele é forte na guerra (גִּבּוֹר מִלְחָמָה), o rei de Israel era considerado um poderoso (גִּבּוֹר) como vemos no Sl 45.3 e 89.19. Yahweh é visto como um guerreiro poderoso (Ex 15.3, Sl 46.8-9, Is 63.1-6, Sf 3.17). A palavra também é usada para um herói de guerra. Essa linguagem transmite de forma assombrosa o poder eficaz e determinado de Yahweh em cumprir seus planos sem derrota. Essa descrição, além disso, mostra um rei guerreiro, que em conexão com as primeiras linhas revelando-o como Deus Criador e Soberano sobre tudo, agora ele faz guerra contra tudo aquilo que vai contra a ordem das coisas criadas, contra o caos e forças do mal. Quando qualquer ser criado age para destruir as coisas criadas ou tirá-las da ordem, levando o mal, Deus é aquele que entra em batalha contra o mal e o destruirá, sem qualquer dificuldade. Essa visão é completa na linha 27, quando ele é chamado de SENHOR dos exércitos (1 Sm 17.45). Ele tem muitos exércitos de seres celestiais (Sl 89.6-8; 103.20,21; 148.2). Por fim Davi termina dizendo que aquele que tem esses atributos é o Rei da Glória. Essa é a resposta para Israel. Sua vitória não vem pelo seu próprio braço, nem pela sua própria força ou pelo seu próprio poderio militar, mas pela força, poder, exércitos e comando do SENHOR Todo-Poderoso, aquele que venceu as forças do mal, e estabeleceu a paz. Aqui temos uma visão também Messiânica, onde o Messias é aquele que venceu na cruz. Ele removeu a ignomínia do seu povo, cancelou o escrito de dívida que era contra eles, encravando-o na cruz e despojou os principados e potestades, e publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz (Colossenses 2.14,15). Temos também uma descrição que é muito semelhante à descrição que o Apóstolo João nos dá de Cristo no livro de Apocalipse 19.11-16. Nestes versículos, João escreve:

“E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça. E os seus olhos eram como chama de fogo; e sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão ele mesmo. E estava vestido de veste tingida em sangue; e o nome pelo qual se chama é A Palavra de Deus. E seguiam-no os exércitos no céu em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro. E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com vara de ferro; e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso. E no manto e na sua coxa tem escrito este nome: Rei dos reis, e Senhor dos senhores.”

Podemos ver João mostrando Cristo sendo seguido pelos exércitos do céu e sendo chamado de Rei dos reis. Além disso, pela descrição que o Apóstolo dá, podemos ver a supremacia de Cristo. Portanto, Cristo é descrito em Apocalipse 19 como o Rei supremo, seguido pelos exércitos do céu, e muito poderoso na batalha. Em comparação, o Rei da glória do Salmo 24 é descrito como aquele que é forte e poderoso, poderoso na batalha, e Senhor dos exércitos. Portanto, o Salmo 24 descreve um rei supremo que é o Senhor da guerra e poderoso na batalha e ninguém pode derrotá-lo. Em última instância esse Rei é Jesus Cristo, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, a ele toda a glória, para todo o sempre. Amém!

 

Bibliografia 

[1] The Hebrew Bible: Andersen-Forbes Analyzed Text. (2008). (Sl 24.1–10). Francis I. Andersen; A. Dean Forbes.

[2] PELT, M. V. Van; KAISER Jr, W. C.; in: VANGEMMEREN, Willen A.; Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 2; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 939

[3] CARPENTER, Eugene; in: VANGEMMEREN, Willen A.; Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 2; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 549s

[4] MARTENS, Elmer A.; in: Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 2; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 615s

[5] MERRIL, Eugene H., in: Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 3; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 404

[6] SELMAN, Martin; in: Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 1; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 1027s

[7] OLIVIER, J. P. J.; in: Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 3; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 155ss

[8] MARTENS, Elmer A.; in: Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 1; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 704

[9] WALTKE, Bruce K., O’CONNOR, M.; Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 374s

[10] REIMER, David J.; in: Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 3; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 756s

[11] HAMILTON, Victor; in: Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 3; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 165

[12] HESS, Richard S.; in: Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 4; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 208

[13] WALTKE, Bruce K., O’CONNOR, M.; Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 546s

[14] GRISANTI, Michael A; in: Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 1; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 599

[15] WALTKE, Bruce K., O’CONNOR, M.; Introdução à Sintaxe do Hebraico Bíblico; São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2006, p. 315

[16] WAKELY, Robin; in: Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento – Volume 1; São Paulo, Cultura Cristã, 2011, p. 374

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