O Homem como Imagem de Deus

QUEM É VOCÊ?

“Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali firmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do homem, para que com ele te preocupes?” Salmo 8.3,4

Esta pergunta tem sido feita desde os primórdios da humanidade. Que é o homem? Quem sou eu? De onde eu vim? Para onde eu vou? Existe de fato um propósito no por que eu estou aqui?

É imprescindível para nós compreendermos quem nós somos e qual o propósito de nossas vidas antes de pensar no que posso fazer, exercer ou constituir para mim. A pergunta do salmista ao olhar para toda a criação de Deus, para tudo que Deus havia feito: os céus, toda a grandeza do universo, das estrelas, planetas, luas, sóis, constelações. Além de tudo isso, a terra e tudo quanto nela há. Florestas, paisagens inigualáveis que se formam em cachoeiras, lagos, praias, rios, cada pôr do sol e cada nascer do sol. Tudo que Deus criou é perfeito demais, é lindo demais. E ao olhar para tudo isso, o salmista olha para si mesmo e para a humanidade. O homem é tão pequeno. O homem é tão fraco. Sua vida não passa de alguns poucos anos. Por que um Deus tão grande se importaria mais com o homem do que com toda a criação? Por que um Deus onipotente e soberano estaria preocupado em ouvir sua oração?

E a pergunta que nos resta é: será que o homem tem algo a mais de especial que toda a criação de Deus? A resposta para esta pergunta é um sonoro SIM. Mas o que temos de tão especial?

A IMAGEM DE DEUS

“Então disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais grandes de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão”.
Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.”
Gênesis 1:26-27

O homem distingue-se das demais criaturas de Deus porque é o único que foi criado à imagem e semelhança de Deus. Nada e nem ninguém além do homem pode reivindicar para si tal representatividade. Somente o homem é imagem e semelhança de Deus, ou seja, o homem reflete, representa a Deus na criação.

Mas por que Deus diz façamos no plural? Somente para a criação do homem tal linguagem é utilizada mostrando quão singular foi tal feito para Deus. Muitos estudiosos explicam esta linguagem como o plural majestático, algo não muito provável dado que não é encontrado em nenhum outro lugar na Escritura. Outros dizem que Deus está se dirigindo aos anjos, contudo, como seres criados, eles não poderiam ajudar Deus na criação, tampouco o homem foi feito à imagem e semelhança dos anjos. Desta maneira, podemos perceber algo abscôndito que seria revelado apenas no Novo Testamento, mas já nos dá indícios logo no primeiro capítulo de Gênesis: Deus não existe como um ser solitário. Deus é relacional e existe como uma “pluralidade”. O Deus Trino cria o homem à sua imagem e semelhança.

Existem duas importantes palavras no Antigo Testamento para se referirem ao homem: a primeira delas é citada no texto de gênesis: adam. Esta palavra, que também é o nome do primeiro homem, Adão, também pode significar homem no sentido de ser humano. Não tem masculino ou feminino, poderia muito bem ser traduzido como pessoa. Adam quer dizer que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus.

IMAGEM E SEMELHANÇA

“à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”

A palavra traduzida como imagem é tselem e a palavra traduzida como semelhança é demuth. No original hebraico não existe qualquer conjunção entre estas palavras, o que poderia dar o significado de complementaridade. Antes, a tradução poderia ser: “à nossa imagem, conforme a nossa semelhança”. Conforme Hoekema: “O texto hebraico, contudo, deixa claro que, essencialmente, não há diferença entre ambas: “conforme a nossa semelhança” é apenas uma maneira diferente de dizer “à nossa imagem”.”.[1]

Isto é confirmado pelo uso destas palavras no livro de Gênesis, onde existem textos que só é citado imagem (1.27), e outros textos que só é citado semelhança (5.1). Em 5.3 as duas palavras são citadas, porém agora na ordem inversa: “à sua semelhança, conforme sua imagem”

A palavra tselem vem da raiz hebraica yatsar, que significa esculpir, moldar, cortar. Esta mesma raiz é utilizada em Gn 2.7 quando diz que Deus formou o homem do pó da terra.

Em Gênesis capítulo um, a Escritura nos mostra a criação de Deus em sete dias. No sexto dia Deus cria o homem. O verbo hebraico usado para toda a criação é barah, que quer dizer criar alguma coisa do nada, verbo apenas atribuído a Deus. Não houve matéria-prima para Deus criar o mundo, o universo. Deus por sua palavra fez que todas as coisas viessem a existir. Contudo, no capítulo 2, quando o escritor do livro de Gênesis começa a explicar como o homem foi feito, o verbo utilizado é mudado para yatsar que é o verbo utilizado para o artesão ao moldar, esculpir, dar forma.

“Então o Senhor Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente.” Gênesis 2:7

Deus ao criar o homem, o esculpiu como uma Obra-de-arte. O ápice da criação de Deus foi o homem. As escrituras dizem o valor de uma pessoa: ela vale mais do que o mundo inteiro (Mt 16.26).

Lembro-me de um endemoninhado geraseno (Lc 8.26-39) que se deparou com Jesus. Jesus se importava com as pessoas, enxergava-as, não olhava para o material. Aquele homem que não tinha nada, nem bens, nem família, um mendigo, e ao falar com Jesus, diz ser uma legião de demônios. Uma legião de soldados romanos naquela época eram cerca de dois mil soldados. Os primeiros eram 300, o próximo batalhão eram os matadores, seguidos pelos arqueiros, seguidos por várias outras tropas. Aquele endemoninhado era um peso para os gerasenos. Incomodava, não usava roupas, vivia nos sepulcros. Tanto incomodava, que aqueles homens o prendiam com correntes em suas mãos e pés, porém o endemoninhado quebrava as correntes e voltava para os sepulcros. Ninguém queria chegar perto dele. Contudo Jesus olha para aquele homem e vê alguém que é imagem e semelhança de Deus. Alguém que era uma Obra-de-arte de Deus, uma pedra bruta, que tinha um valor inestimável. Talvez se nós olhássemos para aquele homem não daríamos nada por ele. Mas aquele homem valia o investimento de dois mil demônios. E para Deus o valor de sua vida era maior do que o valor do mundo inteiro, sua vida valeu o sangue de Jesus sendo derramado na cruz do calvário.

O QUE SIGNIFICA SER IMAGEM E SEMELHANÇA

Ao criar a humanidade, Deus coloca sua imagem no homem de forma que este poderia refletir de modo finito aquilo que Deus tem como atributos infinitos. A humanidade então deveria refletir as qualidades de Deus, santidade, verdade, justiça. Deus ao fazer com o que o homem fosse sua imagem, coloca nele algumas características importantes. Van Groningen assevera que:

Ao criar a humanidade á sua própria imagem, Deus estabeleceu uma relação na qual a humanidade poderia refletir, de modo finito, certos aspectos do infinito Rei-Criador. A humanidade deveria refletir as qualidades éticas de Deus, tais como “retidão e verdadeira santidade”… e seu “conhecimento” (Cl 3:10). A humanidade deveria dar expressão ás funções divinas em ralação ao cosmos e atividades tais como encher a terra, cultivá-la e governar sobre o mundo criado. A humanidade em uma forma física, também refletiria as próprias capacidades do Criador: apreender, conhecer, exercer amor, produzir, controlar e interagir.[2]

Groningen apresenta a imagem de Deus como tendo uma tríplice relação:

  1. Com Deus
  2. Com o Próximo
  3. Com a Criação.

Desta maneira o homem reflete a imagem de Deus como um ser que é relacional. Ele não é um ser isolado, assim como Deus não é solitário. Deus é Tripessoal, e se relaciona na trindade. Como pessoa, o homem necessita de se relacionar e por isso Deus cria ish e ishar, macho e fêmea, homem e mulher.

O homem também revela a imagem de Deus em si por ser capaz de dominar as coisas criadas. Este foi o mandato cultural do Senhor para o homem. Ao governar, o homem tem o dever de cuidar da criação. Desta forma, o homem imita o Criador, que é soberano e exerce domínio sobre tudo e todos.

O homem também reflete a imagem de Deus em seu poder intelectual (capacidade de raciocínio, inteligência), pelas suas afeições naturais (ligar-se emocionalmente), pela sua liberdade moral (capacidade de fazer as coisas obedecendo a princípios morais), pela sua espiritualidade e pela sua imortalidade.

A QUEDA

É interessante a primeira palavra usada pelo salmista no Salmo 8 ao se referir ao homem: enosh. Esta palavra significa o homem frágil e pecador, mero mortal. A contraposição entre Deus e o homem.

Quando não me reconheço como enosh, estou querendo assumir o lugar de Deus. Fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Somos representantes de Deus. Na essência o homem é o representante de Deus em um mundo criado por Deus. É importante dizer que uma imagem é discernível do seu ser representado, é distinguível da pessoa a quem representa. Desta maneira, a imagem é dependente do portador, pois não existe sem seu portador, ao mesmo tempo em que é totalmente distinta de seu portador.

Muitos governantes, reis, imperadores, ao conquistar um território colocavam uma estátua sua naquele lugar. Uma imagem sua. O ser representado por aquela estátua é quem governa e domina aquele local. Todos deveriam reverenciar aquela imagem colocada. Aqui podemos compreender a força da tentação da serpente para o homem: a ideia de não aceitar-se como representante, aquele que representa o domínio de Deus, mas querer ser igual a Deus. Não conseguimos representar a Deus como deveríamos. Deus nos colocou neste mundo para sermos felizes e não conseguimos porque algo tirou nossa alegria. A imagem de Deus em nós foi corrompida. Toda a nossa relação com Deus espelha o tipo de relação que temos com o mundo ao nosso redor.

A originária semelhança com Deus se converteu em uma igualdade roubada. Enquanto o ser humano como imagem de Deus vive exclusivamente de sua origem em Deus, o ser humano que se tornou igual a Deus esqueceu sua origem e se transformou em si próprio criador e juiz. O que Deus deu ao mundo, este quis ser agora por si mesmo. Dádiva de Deus, porém, é essencialmente dádiva de Deus. A origem constitui a dádiva. Com a origem, a dádiva se transforma. Na verdade, a dádiva consiste em sua origem. O ser humano, como imagem de Deus, vive da origem divina. O ser humano que se tornou igual a Deus vive de origem própria. Com o roubo da origem, o ser humano incorporou um mistério divino – a Sagrada Escritura descreve esse processo como comer da fruta proibida – no qual ele perece. Sabe agora o que é bom e o que é mau. Não que tivesse, com isso, o conhecimento que tinha até então, com um novo saber; antes, a noção do bem e do mal resulta numa inversão total do seu conhecimento, que até então era unicamente um conhecimento de Deus como sua origem. (…) o ser humano roubou de Deus este mistério, ao pretender ser ele mesmo origem. (…) tornou-se como Deus, mas contra Deus. (…) o ser humano tornou-se igual a Deus como antideus. [3]

Desta maneira, o homem, que é imagem e semelhança de Deus, se torna um ser caído, integralmente depravado. E toda a sua descendência se tornou igualmente caída.

O QUE ACONTECE APÓS A QUEDA

“Portanto, da mesma forma como o pecado entrou no mundo por um homem, e pelo pecado a morte, assim também a morte veio a todos os homens, porque todos pecaram” Romanos 5:12

Toda a criação foi afetada pela queda e espera por redenção. O homem, antes livre, agora se torna um escravo do pecado se reduzindo à escravidão.

“A queda trouxe sobre o gênero humano a perda da comunhão com Deus, o seu desagrado e maldição, de modo que somo, por natureza, filhos da ira, escravos de satanás”. (Catecismo Maior de Westminster p.27).

Mesmo que tente e queira, o homem caído não consegue realizar o seu fim supremo principal: “glorificar a Deus e gozá-lo para sempre” (Catecismo Maior de Westminster, P.1)

Anselmo de Cantuária em sua obra Proslogion diz que o homem com a queda “Perdeu a felicidade para a qual foi feito e encontrou a miséria para que não foi feito”.[4]

Fomos criados sem mácula, sem pecado, porém, agora caídos, nos resta apenas uma pequena luz do que éramos. Contudo, a pergunta que fica é: Com a queda, o homem perde a Imago Dei? Claro que não. Não deixamos de ser imagem e semelhança de Deus. No aspecto ontológico (em seu ser) a imago Dei não foi eliminada com a queda, mas foi afetada no aspecto funcional (em sua ação). Para Calvino, a imagem de Deus no homem, apesar de não aniquilada, foi deformada. Ele descreve como “uma imagem deformada, doentia e desfigurada”.[5] O homem agora precisa ter essa imagem restaurada. Voltar a refletir, representar Deus na criação. Restauração que acontece por meio da redenção em Cristo Jesus. Restauração esta que capacitará novamente o homem a voltar-se para Deus, para o seu próximo e para a criação a fim de governa-la.

[1] Antony Hoekema, Criados à Imagem de Deus, pág. 25.

[2] Gerard Van Groningen, Revelação Messiânica no Velho testamento (Luz para o caminho: Campinas) 1995.

[3] BONHÖEFFER Dietrich, Ética, ob cit., p.16.

[4] Anselmo de Cantuária, Proslogion , pág.

[5] João Calvino, As Institutas, I, XV, 3.

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