A humanidade de Jesus

A Natureza Humana de Jesus

Jesus era homem em todos os sentidos. Ele assume a natureza humana no tempo de forma perene, para todo o sempre. A tentação do deserto, segundo Boanerges Ribeiro, foi o oposto da tentação do jardim do Éden. No Éden o homem quis fazer-se igual a Deus. No deserto, Satanás tentou Jesus a abandonar a forma de servo, a rejeitar a semelhança dos homens, a reassumir sua posição de glória.[1] Jesus se torna homem de forma voluntária e plena. Ele se torna plenamente homem.

 

Ele foi chamado e reconhecido como homem

Apesar de os docetistas negarem a humanidade de Cristo, como vimos no capítulo um, dizendo inclusive que quando Jesus andava não deixava pegadas pois seu corpo não tinha nem peso e nem substância[2]. João combateu fortemente esses conceitos quando diz em 1 João 4.2,3: “Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus veio em carne é de Deus; e todo espírito que que não confessa a Jesus, não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo”. Policarpo (75-160 d.C.), bispo de Esmirna, escreveu aos filipenses: “Qualquer que não confesse que Jesus Cristo veio em carne é um anticristo. E quem não confessa o testemunho da cruz é do diabo”.[3]

Apesar de a concepção de Jesus ter sido sobrenatural, obra do Espírito Santo, o seu nascimento foi como de um bebê humano qualquer. Jesus era uma criança plenamente humana. Como qualquer criança ele precisava de roupas para não ficar com frio e sua mãe o envolveu em faixas na manjedoura (Lc 2.12).[4]

Abraham Kuyper (1837-1920) afirma sua pena humanidade:

Como o ouvido não pode ouvir sem som e o olho não pode ver sem a luz, também a nossa natureza humana é incompleta sem a luz e a habitação do Espírito Santo. Portanto, quando o Filho assumiu sua natureza humana, ele a tomou exatamente como ela é, isto é, incapaz de qualquer ato santo sem o poder do Espírito Santo.[5]

John Stott comentando sobre João 1.14: “o verbo se fez carne” constata:

O paradoxo é surpreendente. O Criador assumiu a fragilidade humana de suas criaturas. O eterno entrou no tempo. O onipotente fez-se vulnerável. O santíssimo expôs-se à tentação. E por fim, o imortal morreu.[6]

Jesus Cristo chamou-se de homem e foi chamado de homem. Em Mateus 4.4, quando tentado por Satanás no deserto, Jesus aplica a si o texto da lei de Moisés: “Jesus, porém, respondeu: Está escrito: Não só de pão viverá o homem, mas de toda a palavra que procede da boca de Deus”.

Jesus foi contado genealogicamente como homem e nasceu de uma mulher. Em Mateus 1.1,16: “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. […] E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo.” Ele é descendente de homens e é contado como homem na genealogia. Em Gálatas 4.4 Paulo afirma: “Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”.

 

Jesus tinha corpo verdadeiro

O Catecismo Maior de Westminster afirma que a natureza humana de Cristo tem dois elementos: o corpo e a alma. Na pergunta 37: Sendo Cristo o Filho de Deus, como se fez homem?:

Cristo, o Filho de Deus, fez-se homem tomando para si um verdadeiro corpo e uma alma racional, sendo concebido pelo poder do Espírito Santo no ventre da Virgem Maria, da sua substância e nascido dela, mas sem pecado.[7]

Cristo tem um verdadeiro corpo, ou seja, ele tinha um corpo real, físico, exatamente igual a de todos os homens que já viveram na face da terra. Diferentemente do que pregavam os docetistas, que negavam que Cristo veio em carne, as escrituras afirmam claramente que Cristo tinha um corpo físico, real e verdadeiro.

O Apóstolo Paulo em Colossenses 2.9 afirma: “Portanto, nele [Cristo], habita corporalmente toda a plenitude da divindade”. Paulo afirma categoricamente que Jesus Cristo é homem e tem um corpo verdadeiro. Nesse corpo real e verdadeiro encontra-se a plenitude de sua divindade. A palavra “corporalmente” usada por Paulo dá a ideia de “forma corporal” ou “em corpo”. Mostrando que Cristo tem corpo físico e verdadeiro. Em Romanos 1.3,4: “Com respeito a seu filho, o qual, segundo a carne, veio da descendência de Davi e foi designado filho de Deus com poder, segundo o espírito de santidade pela ressurreição dos mortos, a saber, Jesus Cristo, nosso Senhor”. Paulo afirma que Jesus tem uma genealogia, descendente segundo a carne de Davi. Ou seja, ele veio em carne, em corpo físico. A palavra “carne” usada por Paulo nos dá a ideia de matéria, corpo físico.[8]

O autor aos Hebreus afirma em Hebreus 2.14: “Visto, pois, que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele [Jesus Cristo] igualmente participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo”. Aqui as palavras carne e sangue têm o significado de natureza humana, física, em corpo. Jesus Cristo tinha que vir em carne e sangue como todo homem. Ele “participou” em carne e sangue juntamente com os homens para morrer por eles. Ou seja, ele assumiu um corpo real e verdadeiro.

Em 1João 1.1 o Apóstolo João também afirma a natureza humana de Cristo: “O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao verbo da vida…”. João afirma que viu a Cristo, mas não apenas uma aparência física, mas suas mãos podiam tocar no corpo de Cristo, ou seja, ele veio em carne. João afirma posteriormente em 1 João 4.3 que quem nega que Cristo veio em corpo é o anticristo.

 

Jesus Cristo tinha necessidades de homem

Somente um homem pode sentir fome, sede, cansaço, sono e dor.

Em Mateus 4.2 lemos: “E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome”. Jesus Cristo sentiu fome e foi tentado por Satanás a transformar pedras em pães justamente porque estava com fome.

Em João 19.28: “Depois, vendo Jesus que tudo já estava consumado, para se cumprir a Escritura, disse: Tenho sede”. Jesus teve sede na cruz. Também quando encontrou-se com a mulher samaritana à beira da fonte de Jacó ao meio-dia no maior calor do dia, Jesus pede-lhe água para beber porque estava cansado e com sede, conforme vemos em João 4.6: “Estava ali a fonte de Jacó. Cansado da viagem, assentara-se Jesus junto à fonte, por volta do meio-dia”.

Jesus sentiu cansaço e sono.[9] Em Mateus 8.24, quando o barco estava quase a ponto de afundar por causa de uma grande tempestade, Jesus ainda assim não acordou: “E eis que sobreveio no mar uma grande tempestade, de sorte que o barco era varrido pelas ondas. Entretanto, Jesus dormia”. Ele era homem e tinha necessidades de homem precisando comer, beber, descansar e dormir.

 

Jesus tinha alma racional

Segundo a Confissão de Fé de Westminster, Jesus também tinha uma alma racional. Não podemos cair na heresia de pensar que Jesus Cristo assumiu apenas um corpo humano. Mas ele também assumiu uma alma racional humana. Ele tinha mente humana, emoções humanas e volições humanas.

Jesus Cristo tinha uma mente humana. Jesus desenvolvia-se como homem.[10] Jesus não nasceu falando e nem andando. Ele teve que aprender, como homem, a falar, a andar, a comer, a ir ao banheiro sozinho. Jesus foi um bebê que chorou de fome, que agiu como criança, porém sem pecado, sempre obediente ao Pai em todas as coisas. Em Lucas 2.52 temos: “Crescia o menino e se fortalecia, enchendo-se de sabedoria, e a graça de Deus estava sobre ele. […] E crescia Jesus em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens”. Além disso, Jesus em sua infância foi reconhecido pelos doutores como uma criança muito inteligente. Não porque ele era Deus, mas porque crescera em conhecimento e em busca: “E todos os que o ouviam, muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas”. Lucas 2.47.

Jesus também tinha emoções propriamente humanas.[11]Jesus entristece-se quando vê Maria em luto pela morte de seu amigo Lázaro, e agita-se em seu espírito e chora (João 11.35). A palavra utilizada no grego é tarásso, que quer dizer agitou-se. Essa palavra é a mesma utilizada em Atos 17.8, quando a multidão se agita após a acusação dos judeus contra Paulo. O autor não utiliza palavras que fazem referência à pessoa divina de Jesus, mas uma palavra que enfatiza sua humanidade. Em Isaías 53.3, o profeta revela algumas características sobre o Messias: “homem de dores que sabe o que é padecer”. Em Lucas 19.41, Jesus chora ao olhar para Jerusalém por causa da sua rejeição.

Jesus demonstra alegria. Em Mateus 11.19, Jesus é chamado de glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores, porque ele se alegrava com a alegria de outros e estava em festas de publicanos como a festa que Mateus dá quando segue a Jesus. Seu primeiro milagre é transformar água em vinho em uma festa de casamento, sendo que o vinho muitas vezes é visto como sinal de alegria nas Escrituras.

Jesus também demonstrou surpresa. Deus não se surpreende. Quando Jesus contempla a fé do centurião romano, ele fica admirado: “Ouvindo isto, admirou-se Jesus e disse aos que o seguiam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel achei fé como esta” Mateus 8.10. Jesus se alegra e se admira por ver a graça de Deus encontrando o coração de um gentio.

Jesus também demonstrou pavor e angústia. Em Marcos 14.33 temos: “E, levando consigo a Pedro, Tiago e João, começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia”. A palavra “pavor” também pode ser traduzida por estar assustado e com terror. A palavra “angústia” usada nesse texto, é a mais forte das três palavras gregas para tristeza. Essa palavra significa estar em grande aflição, deprimido. Jesus, no Getsêmani, esteve em profunda angústia, em terror. Deus não tem nenhum desses sentimentos. Jesus passa por isso, uma vez que sabe que está para sofrer o castigo pelos pecados da humanidade e beber o cálice da ira de Deus na cruz do Calvário, porque ele é homem e tem alma racional e humana. Jesus passa por grande pavor. O autor aos hebreus afirma o mesmo em Hebreus 5.7: “Ele, Jesus, nos dias de sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte…”. Jesus derramou diante do Pai orações carregadas de angústia, súplicas, pavor diante do peso da ira de Deus que viria sobre ele. Ele sofreu todas essas coisas porque era homem e tinha emoções humanas.

Jesus tinha volições humanas. Em Mateus 26.39 temos: “Adiantando-se um pouco, prostrou-se sobre o seu rosto, orando e dizendo: Meu Pai, se possível, passe de mim este cálice! Todavia, não seja como eu quero, e sim como tu queres”. A vontade de Jesus é a vontade do Pai, mas Jesus não se agrada de sofrer, neste momento ele submete a sua vontade, que é de não ter de beber do cálice da ira de Deus, à vontade do Pai, que é suportar a cruz para salvação dos eleitos. Comentando esse texto, Calvino combate os monotelistas:[12]

esta passagem [Mateus 26.39] mostra clara e suficientemente a estupidez daqueles antigos hereges, que foram chamados monotelistas, porque eles imaginaram que a vontade de Cristo fosse apenas uma e simples; pois Cristo, como era Deus, não queria nada diferente de seu Pai; e portanto segue-se que sua alma humana tinha afeições distintas dos propósitos secretos de Deus.[13] (tradução minha)

 

No verso de Mateus 26.39 podemos ver duas vontades distintas em Cristo. Como homem ele quer escapar da dor que virá. Todo homem tem um senso de preservação. Campos, quanto a esse texto afirma que Jesus submete seu desejo natural à vontade divina que deveria ser cumprida.[14]

Em João 6.38 temos: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou”. Jesus pensava e sentia como homem, e tinha vontades humanas, que nem sempre eram as mesmas vontades do Pai, mas por ser homem perfeito, ele sempre era submisso ao Pai, por isso diz no texto citado anteriormente: “Não seja como eu quero e sim como tu queres”.

Jesus teve fraquezas e limitações como homem. Ele tem fraquezas por assumir um corpo enfermo pelo pecado. Fraquezas como dor, morte, sofrimento, angústia. E por se tornar homem, Jesus também passa a ter limitações. Ele agora, como homem, está em apenas um lugar. Ele tem limitações físicas.

Jesus era tentável.[15] Em Hebreus 4.15 lemos: “Ele foi tentado (peirázo) em todas as coisas, à nossa semelhança”. Em Hebreus 2.18, o autor utiliza a palavra peirázo em referencia a Jesus e aos cristãos, para mostrar que a tentação é igual para todos. A tentação de Jesus mostra suas necessidades físicas e sentimentos, como fome e desejo legítimo de assumir seu reino. As tentações de Jesus foram reais e apelaram à preservação de sua humanidade, à busca de um sinal do poder de Deus e à preservação de seu senhorio – fora do plano de Deus e sem confiar em Deus. Quanto ao texto de Mateus 4.1-11, sobre a tentação de Jesus no deserto, Boanerges Ribeiro diz:

O Senhor-Servo (Jesus) foi tentado no deserto a esvaziar-se da humanidade, a abandonar a forma de Servo, a rejeitar a semelhança dos homens, a reassumir o livre exercício de seu poder divino.[16]

Jesus perseverou em meio à tentação e não cometeu nenhum pecado. Jesus Cristo, em sua encarnação, se tornou homem de maneira livre de toda tendência e presença de pecado. Para ser plenamente homem, Jesus não precisa ter pecado, uma vez que o Adão, feito por Deus, foi feito sem pecado. Além de nascer livre de pecado, Jesus também não cometeu pecado algum. Não havia cobiça alguma nele, pois além de ser plenamente homem, ele era plenamente Deus, em uma única pessoa, como veremos mais à frente. Sendo Deus e homem, ele não podia pecar, apesar de em suas tentações ter sido provado e isso foi extremamente difícil para ele. Jesus tinha limitações humanas. Sentia fome, sede, frio, cansaço. Além disso, sendo onisciente, sabia o que seus próprios discípulos pensavam, incluindo Judas que o trairia, e ainda assim os amou até o fim (Jo 13.1). Ele não cometeu pecado. Em João 8.46, Jesus diz: “quem dentre vós me convence de pecado?”, e ninguém ousou responder. Pedro, que andou por três anos com Jesus Cristo afirma sobre ele em 1Pedro 2.22: “não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca”. O autor aos Hebreus afirma em Hebreus 7.26 uma série de palavras que enfatizam que Jesus não teve pecado e era moralmente perfeito.[17] Ele era santo (hósios – piedoso, dedicado), inculpável (ákakos – inocente), sem mácula (amíantos – puro, sem mancha) e separado dos pecadores (kechorisménos apó hamartolón – isolado, divorciado dos pecadores). Essas palavras apontam definitivamente para a santidade e impecabilidade de Jesus, não há dúvidas que Jesus não cometeu pecado algum.

Bibliografia 

[1] RIBEIRO, Boanerges; O Senhor que se fez Servo; São Paulo: Livraria O Semeador, 1989, p. 13.

[2] COSTA, Hermisten Maia Pereira da; Fé em Jesus Cristo: Verdadeiro Deus & Verdadeiro Homem; Goiânia: Editora Cruz; p. 37.

[3] POLYCARP; The Epistle of Polycarp to the Philipians, VII. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James; The Ante-Nicene Fathers; Peabody: Hendrickson Publishers, 1995, p.34.

[4] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan; Teologia Sistemática; São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 504.

[5] KUYPER, Abraham; A Obra do Espírito Santo; São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 133s.

[6] STOTT, John; O Incomparável Cristo; São Paulo: Editora ABU, 2006, p.33.

[7] Assembléia de Westminster; Catecismo Maior de Westminster; São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 43.

[8] CAMPOS, Heber Carlos de; As duas naturezas do Redentor; São Paulo: Cultura Cristã, 2014; p. 385.

[9] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan; Teologia Sistemática; São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 504.

[10] Ibid., p. 505.

[11] Ibid., p. 504s.

[12] Monotelistas são aqueles que pensam que a vontade de Cristo fosse exatamente igual em todos os momentos à vontade do Pai. A palavra vem do grego mono que significa um, e telos, que significa vontade.

[13] CALVIN, John; Commentary on a Harmony of the Evangelists, vol III; Edimburgo: Calvin Translation Society, 1845, p. 233.

[14] CAMPOS, Heber Carlos de; As duas naturezas do Redentor; São Paulo: Cultura Cristã, 2014; p. 404.

[15] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan; Teologia Sistemática; São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 505.

[16] RIBEIRO, Boanerges; O Senhor que se fez Servo; São Paulo: Livraria O Semeador, 1989, p. 13.

[17] FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan; Teologia Sistemática; São Paulo: Vida Nova, 2007, p. 505.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: