A Necessidade das Duas Naturezas de Jesus

Por que era necessário que Jesus fosse plenamente homem?

A.A Hodge afirma que para oferecer um sacrifício substitutivo a Deus como sumo sacerdote, representando os homens diante de Deus era necessário que ele fosse homem e estivesse debaixo da lei a fim de tornar possível sua obediência.[1] Em Hebreus 2.17 temos: “(…) convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo”.

Além disso, para substituir homens diante de Deus em sacrifício substitutivo, ele tinha que ser homem pleno.[2] Em Hebreus 10.4 o autor afirma: “(…) é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados”. Os sacrifícios feitos anteriormente não removiam pecados como Paulo nos afirma em Romanos 3.24b, 25 “… Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos”. Os pecados impunes cometidos antes da vinda do redentor são os pecados dos crentes do Antigo Testamento, uma vez que os sacrifícios oferecidos por animais não removem pecados, mas apenas apontam para o sacrifício único e verdadeiro, de Jesus Cristo, Deus e homem, que substituiu homens na cruz para satisfazer a justiça de Deus em nosso lugar. Gregório de Nazianzo em resposta à heresia de Apolinário que afirmava que o Cristo divino assume parte da humanidade, sendo em parte Deus e em parte homem, disse que Cristo só poderia remir aquilo que realmente assumiu. Se ele assumiu apenas parte, então somente redimiu parte do homem. Entretanto vemos que Cristo foi plenamente homem para redimir o homem plenamente. Sua humanidade o habilita à obediência representativa em nosso lugar. Temos em Romanos 5.18,19: “(…) assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá vida. Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos”. Porque Jesus é verdadeiramente humano, a sua vida perfeita de obediência e triunfo sobre todas as tentações – culminando em sua perfeita morte substitutiva – pode tomar o lugar da rebelião e do fracasso humanos.

Cristo tinha de ser homem para ser homem ideal.[3] Ele não tinha de ser apenas homem real, mas também homem ideal, homem perfeito. Ele precisava passar por uma vida comum e ser perfeito em todos os seus passos. Ele precisava passar por todas as provas que Adão passou, para cumprir plenamente e perfeitamente toda a lei. Ele não apenas morre em nosso lugar substitutivamente, ele vive em nosso lugar, vivendo de forma justa e obediente, justiça essa que é imputada aos que creem nele.

Ele precisa ser tentado em todas as coisas.[4] Em Hebreus 4.15 vemos que ele foi tentado em tudo mas não pecou: “(…) não temos sumo sacerdote que não possa compadecer-se das nossas fraquezas; antes, foi ele tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado”. Como Jesus poderia ser tentado se ele é Deus e Deus não pode ser tentado (Tg 1.13)? Entretanto, por causa da sua natureza humana, Jesus torna-se tentável, uma vez que tem necessidades que antes não tinha. Precisa comer, sente dor. É passível de tentações externas, mas não internamente, uma vez que não tinha inclinações pecaminosas. Porém Jesus podia pecar? É certo que não. Pois sendo plenamente Deus, não há possibilidade de que Jesus, mesmo sendo plenamente homem, pecasse. Seu coração é plenamente bom, plenamente santo, plenamente justo. Ele não tem a possibilidade de ir contra sua própria natureza, ele não peca, porque o pecado é exatamente aquilo que é contrário à sua vontade e seu caráter. Mas então a tentação a Cristo era real ou meramente aparente? O fato de Jesus não pecar não significa que a tentação não seja extremamente dolorida. Quanto mais Jesus via o pecado ao seu redor, mas seu coração doía. Quando o vemos no Getsêmani, quando pede ao Pai que se possível passasse o cálice, Jesus sabia o tipo de morte que sofreria e o peso do pecado do mundo que estaria sobre seus ombros e consequentemente o cálice da ira de Deus que teria de tomar. Ele sofreu, e sofreu muito ao assumir uma natureza igual à nossa por amor e para nossa redenção.

 

Por que era necessário que Cristo fosse plenamente Deus?

Campos afirma que Cristo precisa ser plenamente Deus para ser um poderoso salvador.[5] Jesus Cristo exerce poderosa redenção não porque é homem, mas porque é Deus. Ele tem uma integridade que é infinita. Homem nenhum pode substituir vários homens, mas o sangue de Cristo é suficiente para salvar todos os eleitos. O que Cristo faz vai muito além do que qualquer homem poderia fazer. Não é exigido de Adão remir toda a criação, Deus é quem se submete ao pacto, para por meio de Cristo, o Deus unigênito remir todas as coisas.

Se por um lado era necessário que Cristo fosse homem para morrer no lugar de homens, por outro, era necessário que fosse Deus para ressuscitar ao terceiro dia. Em João 10.17,18 temos: “(…) o Pai me ama, porque eu dou a minha vida para a reassumir. Ninguém a tira de mim; pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para a entregar e também para reavê-la”. Em João 19.28 vemos que Jesus vê que já tinha cumprido tudo, e então posteriormente entrega sua alma ao Pai. Jesus morre quando quer. Ele não morre porque o mataram. Jesus decide quando irá morrer. Ele entrega seu espírito ao Pai depois de três horas de crucificação, um tempo muito curto perto de outras pessoas que eram crucificadas na época, e então morre. Jesus morre quando quer e ressuscita quando quer pois ele é Deus Todo-Poderoso e ele é quem tem autoridade para dar a vida e para tira-la.

Além disso, era necessário que Cristo fosse Deus para suportar a ira de Deus na cruz.[6] É inconcebível como alguém se torna substituto de cada pecado de cada homem eleito em uma mesma hora. Jesus recebe sobre si a ira por todos os pecados de todos os crentes do Antigo Testamento e de todos os crentes que creriam nele após sua morte. Se um pecado é algo abominável a Deus, imagine milhões de pecados de milhões de pessoas sobre um único homem debaixo do juízo do Deus Santo. Cristo suporta a ira de Deus sobre si porque ele é Deus, um homem comum jamais suportaria.

Por fim, A.A Hodge afirma que era necessário que Cristo fosse Deus para que a sua obediência e seus sofrimentos tivessem valor infinito.[7] Se Cristo fosse um homem comum, ele não poderia substituir mais do que um outro homem. Seria vida por vida. Entretanto, sendo Deus, seu sacrifício tem valor e extensão infinita, podendo salvar tantas vidas quantas o Pai o der.

 

A Necessidade da União das Naturezas de Cristo 

Era necessário que Cristo fosse Deus e homem para ser o mediador entre Deus e o homem. Em 1 Timóteo 2.5 temos: “(…) há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem”. Para ser o mediador da nova aliança entre Deus e o homem, Cristo tem que ser filho de Deus, representando a Deus e ser homem para representar os homens diante do Pai como mediador e sacerdote. As duas naturezas habilitam Jesus a colocar-se na brecha entre o Santo Deus e os homens caídos.

Quanto a união das naturezas, Hendriksen, comentando o texto de João 1.14, quando diz que o verbo se fez carne, em que o divino se tornou também humano, afirma que quando ele tomou sobre si a forma de servo, Jesus se tornou o que nunca havia sido antes, porém não deixou em nenhum momento de ser aquilo que sempre foi em sua natureza divina.[8]

[1] HODGE, A. A.; Esboços de Teologia; São Paulo: PES, 2001, p. 543.

[2] CAMPOS, Heber Carlos de; As duas naturezas do Redentor; São Paulo: Cultura Cristã, 2014; p. 108s.

[3] CAMPOS, Heber Carlos de; As duas naturezas do Redentor; São Paulo: Cultura Cristã, 2014; p. 111s.

[4] Ibid.; p. 112s.

[5] CAMPOS, Heber Carlos de; As duas naturezas do Redentor; São Paulo: Cultura Cristã, 2014; p. 113.

[6] CAMPOS, Heber Carlos de; As duas naturezas do Redentor; São Paulo: Cultura Cristã, 2014; p. 115.

[7] HODGE, A. A.; Esboços de Teologia; São Paulo: PES, 2001, p. 543.

[8] HENDRIKSEN, William; O Evangelho de João; São Paulo: Cultura Cristã, 2004, (Jo 1.14), p. 118.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Blog no WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: