João 1.14-18 – Jesus é a Exegese de Deus

Ninguém jamais viu a Deus. Deus é espírito e invisível, segundo Bath ele é totalmente outro, e muitas vezes visto como um Deus distante e inacessível. Porém, apesar de ninguém jamais tê-lo visto, ele decidiu revelar-se à humanidade. Ao longo da história da igreja muitas heresias surgiram com relação a quem é Jesus. Seja negando sua plena divindade, seja negando sua plena humanidade.

O presente trabalho exegético visa expor o texto de João 1.14-18 demonstrando a partir do texto grego o Deus que se revela por meio do seu Filho Unigênito na encarnação, habitando entre nós e revelando sua graça e verdade. Apesar de ninguém jamais ter visto a Deus face a face, quando contemplamos o Filho, vemos o Pai, pois o Filho é a expressão exata do ser de Deus, a exegese do Pai.

Esse trabalho exegético não abordará toda a questão cristológica, contudo, sendo uma tarefa acadêmica, o propósito é que possa de alguma forma contribuir para uma melhor compreensão desse assunto tão relevante, porém, tão mal compreendido tantas vezes.

1) Estudo Contextual

1.1) Contexto Histórico

Autor

O evangelho de João não demorou muito tempo a ser reunido com os evangelhos sinóticos após sua publicação. Logo foi reconhecido pela igreja e o evangelho continha os quatro evangelhos canônicos. Posteriormente foi dividido em partes sendo chamados de Evangelho segundo Mateus, Evangelho segundo Marcos, Evangelho segundo Lucas e Evangelho segundo João.

Há algumas evidências tanto internas como externas que apontam sua autoria para o apóstolo João, irmão de Tiago, filho de Zebedeu. Apesar de não apresentar seu nome, o autor se identifica como testemunha do que escreveu como diz ao final do evangelho em João 21.24: “E é esse o discípulo que dá testemunho dessas coisas e que as escreveu.”

F. Bruce nos relata que existem evidências internas no Evangelho que apontam sobre sua autoria dizendo que foi escrito por: 1) um judeu palestino; 2) por uma testemunha ocular; 3) pelo discípulo que Jesus amava; 4) por João, Filho de Zebedeu.[1] O método clássico de Westcott, atualizado por Leon Morris, demonstrou cinto itens quanto a autoria do quarto evangelho: primeiramente era um Judeu, em segundo lugar, era da Palestina, além de ser uma testemunha ocular, um apóstolo, e por fim, o Apóstolo João.[2]

Os pais da igreja nos deram amplos testemunhos que servem como evidências externas sobre a autoria joanina do evangelho. A primeira citação do quarto evangelho sendo atribuído a João é de Teófilo de Antioquia (181 d.C.), porém muitos outros também nos atestam sobre a autoria de João. Irineu cita Policarpo, um discípulo do apóstolo João, para testificar que João, filho de Zebedeu é o autor do quarto evangelho.[3] Papias também é uma referência, sendo citado por Eusébio e aponta a autoria para o Apóstolo João, que fora seu mestre.[4] Além destes ainda temos Clemente de Alexandria e Tertuliano que nos trazem, do século II, evidências consistentes de que o apóstolo João escreveu o evangelho, e essa era a crença da época.

Destinatários

Não temos menção sobre quais são os destinatários do Evangelho de João. Contudo, é possível algumas inferências a partir da localização onde o apóstolo estava e seu propósito ao escrever o evangelho. Se João estava em Éfeso, é possível que tenha escrito para leitores dessa região do Império (Ásia Menor).[5] Porém também é possível que tenha objetivado atingir a mais ampla circulação possível, o que pode nos dar a ideia de abrangência “universal”. Sabemos que, pela data, que os primeiros leitores do quarto evangelho eram da segunda geração de cristãos, e o que sabiam sobre a vida, ressurreição e morte de Jesus, sabiam pelo que ouviram falar ou leram de relatos cristãos.

Data e Proveniência

Há muitos motivos para uma defesa da data entre 85 e 95 d.C. Um deles é que a tradição aponta para o evangelho ter sido escrito durante o reinado de Domiciano. Há alguns detalhes que mostram uma data mais tardia como a não citação dos saduceus que perderam a importância após 70 d.C. Temos uma ênfase do Apóstolo em combater um gnosticismo nascente[6], que começa a surgir por volta do ano 80 d.C. e só vai ganhar corpo no segundo século, mas já é refutado pelo apóstolo que enfatiza a encarnação do verbo, sua morte e ressurreição corpórea. Além disso todos os outros apóstolos já haviam falecido, o que o posiciona a autoria para o fim do primeiro século. Outro motivo, é uma semelhança ao discurso de Inácio, além dos temas teológicos usados por João para referir-se à divindade de Jesus, que também apontam para uma data tardia no primeiro século.

A hipótese tradicional quanto ao local onde o evangelho foi escrito é na cidade de Éfeso, onde o Apóstolo João morou por muito tempo. Esta localização depende das evidências patrísticas, como Eusébio e Irineu. Nenhuma outra indicação de local tem apoio nos pais da igreja, todos eles apontam para Éfeso.[7]

Propósito

O quarto evangelho é o único que tem seu propósito claramente definido pelo autor: “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (20.31). João utiliza o verbo acreditar cerca de uma centena de vezes[8]. O apóstolo tinha o desejo de revelar a verdadeira identidade de Jesus como o Deus Encarnado (1.1, 14; 8.23,58; 10.30; 20.28) assim como o Messias (1.41; 4.25,26) e Salvador do mundo (4.42). Enfatiza também a corporeidade de Jesus, onde mostra Jesus morrendo fisicamente e verdadeiramente. Utiliza linguagem física por causa do proto-gnosticismo que visa combater. Seguem algumas considerações relativas às crenças gnósticas. Termo derivado do grego gnosis que significa conhecimento. Criam que o mundo criado era mau e totalmente separado do mundo espiritual, e oposto a ele. No mundo espiritual, o deus supremo é inacessível e não se relaciona com o mundo material. Só é possível atingir o mundo espiritual por meio da iluminação ou conhecimento, que nesse sistema gnóstico, é obra de um redentor divino, que desce ao mundo material disfarçado[9]. O pensamento gnóstico é totalmente contrário ao que João expõe, pois sua estrutura mitológica da redenção deprecia os eventos históricos de Jesus e nega a importância da pessoa de Jesus e de sua obra para libertar os homens do pecado em vez de meramente guiá-los à auto-realização[10]. Nega também sua corporeidade e morte na cruz. Assim, percebemos que João tem um propósito de combater esse proto-gnosticismo existente no primeiro século.

Pode-se perceber que a diferença conceitual do Evangelho de João é bastante grande. Apesar da forte ênfase em Jesus como aquele que revela o seu Pai, a salvação não vem (como no gnosticismo) meramente por intermédio da revelação. A obra de João é um Evangelho: todo o andamento da trama é em direção da cruz e da ressurreição.

Para revelar a divindade do verbo, João apresenta oito sinais de Cristo, além de sua ressurreição, seu maior sinal: a) transformou água em vinho (2.1-11); b) a cura do filho de um oficial (4.46-54); c) cura do paralítico no tanque de Betesda (5.1-18); d) multiplicação de pães e peixes alimentando cinco mil pessoas (6.1-15); e) andou sobre o mar da Galiléia (6.16-21); f) cura de um cego de nascença (9.1-41); g) a ressurreição de Lázaro (11.1-45); h) pesca maravilhosa (20.1-29).

Segundo F. F. Bruce, o prólogo de João revela Jesus como a palavra eterna de Deus e a auto-revelação de Deus expressada     de muitas maneiras e diversas vezes, e finalmente encarnado como homem. Ele é o filho eterno de Deus enviado ao mundo para a salvação daquele que crê.

1.2) Contexto Literário

1.2.1) Contexto Próximo

O prólogo do evangelho de João (1.1-18) é a introdução feita pelo apóstolo João sobre tudo que viria a tratar em todo o evangelho. Ele fala sobre a “Palavra”, que sendo Deus entra na história encarnando-se para tornar-se o Jesus da história[11], aquele que foi enviado ao mundo pelo Pai para manifestar a sua glória e graça a fim de dar o poder a todos quantos o receberam de serem feitos filhos de Deus. A partir deste prólogo, todo o restante do livro é uma ampliação desses versículos.

Segundo Carson[12], é possível notar uma estrutura de quiasmo em João 1.1-18. Conforme podemos notar os paralelos a seguir: 1.1,2 é paralelo de 1.18; 1.3 é paralelo de 1.17; 1.4,5 é paralelo de 1.16; 1.6-8 é paralelo de 1.15; 1.9,10 é paralelo de 1.14; 1.11 é paralelo 1.12,13.

Percebemos além dos paralelos, uma progressão em seu pensamento. Ele revela Cristo antes da criação nos versículos 1 a 5, posteriormente mostra o ministério de João Batista que precede a vinda do Messias (vs. 6-8), que como testemunha deveria vir para ratificar que Jesus é o Cristo. João vem para apontar o Cristo. Fazia parte do ministério de João, sua morte, desaparecer para Cristo aparecer. Aponta o Cristo e depois morre. A sua transitoriedade serve para apontar a verdadeira luz. Ele mesmo diz que não era digno de desatar a sandália de Cristo (vs. 27), ou seja, não era digno de ser o menor escravo de Cristo, aquele que lavaria seus pés. Com a vinda da Luz, há então as reações dos que não o receberam e dos que o receberam (vs 9-13). Para estes, deu o poder de se tornarem filhos de Deus. A luz, só pôde vir ao mundo por meio da sua encarnação tornando-se homem e habitando entre nós (vs. 14). Aqui novamente o testemunho de João Batista é introduzido (vs. 15) estabelecendo o paralelo com os vs. 6-8, e por fim, apontando para o Antigo Testamento, acrescenta o relacionamento entre Jesus Cristo e a palavra de Deus que fora dada por meio de Moisés (vs. 16-18).

1.2.2) Contexto Remoto

            Após o prólogo, João apresenta um prelúdio do ministério público de Jesus, inserindo o ministério de João Batista e sua relação com Cristo (vs. 19-28), posteriormente temos o testemunho público de João Batista a respeito de Jesus (vs. 29-34), em seguida João nos mostra Jesus conquistando seus primeiros discípulos (vs. 35-42) e por fim, Jesus conquista outros dois discípulos, Filipe e Natanael (vs. 43-51).

O prólogo é apenas o início de todo o Evangelho, uma introdução e breve resumo (Jo 1.1-18), e termina com um epílogo (21.1-25). Entre eles, há as seções centrais, 1.19-12.50 e 13.1-20.31. Segundo Carson[13], a primeira seção é chamada de Livro dos Sinais e a segunda é chamada de Livro da Paixão. Porém é possível perceber que todo o evangelho é um livro de sinais, uma vez que termina com milagres de Jesus também.

1.3) Contexto canônico

O prólogo de João tem muitos paralelos nas Escrituras sagradas. Percebemos que em Gênesis 1.1, Moisés inicia dizendo: “No princípio criou Deus…”. João inicia o Quarto Evangelho também com as palavras “No princípio…”, contudo agora, João insere uma informação adicional dentro do progresso da revelação: O logos divino é o criador de todas as coisas. Ele é a palavra criadora de Deus.

Na primeira carta de João 1.1,2, temos: “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida. (Porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai, e nos foi manifestada);” aqui percebemos os paralelos com o Quarto Evangelho, onde Cristo é a Palavra manifestada para a vida eterna. Assim como a corporeidade de Cristo, quando as mãos do apóstolo tocaram nele.

Em 1 Timóteo 3.16 “…Deus se manifestou em carne, foi justificado no Espírito, visto dos anjos, pregado aos gentios, crido no mundo, recebido acima na glória.” Vemos Paulo afirmando a manifestação do logos em carne, em paralelo a João 1.14.

Em Colossenses 1.15-17 “O qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; Porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele.” Vemos o paralelo com João 1.1, 3 e 18.

Segundo Alexander: “Belém não é o começo, mas apenas a entrada bendita neste mundo daquele que é de a eternidade, Deus bendito para todo o sempre, Romanos 9.5”.[14]

 

2) Estudo Textual

2.1) Tradução do Texto

2.1.1) Texto Grego

João 1.14-18

14 Καὶ ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο καὶ ἐσκήνωσεν ἐν ἡμῖν, καὶ ἐθεασάμεθα τὴν δόξαν αὐτοῦ, δόξαν ὡς μονογενοῦς παρὰ πατρός, πλήρης χάριτος καὶ ἀληθείας· 15 (Ἰωάννης μαρτυρεῖ περὶ αὐτοῦ καὶ κέκραγεν λέγων· Οὗτος ἦν ὃν εἶπον· Ὁ ὀπίσω μου ἐρχόμενος ἔμπροσθέν μου γέγονεν, ὅτι πρῶτός μου ἦν·) 16 ὅτι ἐκ τοῦ πληρώματος αὐτοῦ ἡμεῖς πάντες ἐλάβομεν, καὶ χάριν ἀντὶ χάριτος· 17 ὅτι ὁ νόμος διὰ Μωϋσέως ἐδόθη, ἡ χάρις καὶ ἡ ἀλήθεια διὰ Ἰησοῦ Χριστοῦ ἐγένετο. 18 θεὸν οὐδεὶς ἑώρακεν πώποτε· μονογενὴς θεὸς ὁ ὢν εἰς τὸν κόλπον τοῦ πατρὸς ἐκεῖνος ἐξηγήσατο.

2.1.3) Tradução

Vs 14 E a palavra se fez carne e habitou entre nós, e contemplamos a sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

O termo λόγος é traduzido tanto na ACF quanto na ARA e Bíblia Católica[15] traduzem como Verbo, para dar a ideia de ação. Escolhemos traduzir como Palavra pois carrega também a ideia de revelação de quem é Deus.

O termo ἐσκήνωσεν foi traduzido como viveu pela NVI, porém seguimos a mesma ideia da ARA, ACF e Católica que traduzem por habitou, pois traz o significado de fazer sua tenda.

O termo μονογενοῦς é traduzido como Filho Único na Bíblia Católica, mas é também é traduzido como unigênito nas versões ACF, ARA e NVI.

Vs 15 João testemunha acerca dele e exclama dizendo: este era o de quem eu disse, o (que) vem depois de mim, antes de mim existe, porque era primeiro do que eu.

O verbo μαρτυρεῖ está no presente, mas é traduzido como testificou (pretérito) pela ACF. As demais traduziram como a ideia de presente: testemunha ou dá testemunho.

O termo πρῶτός é traduzido de diferentes formas por cada tradução, mas sempre com o mesmo propósito. A ACF traduz como “primeiro”, a NVI como “superior”, a ARA traduz como “tem a primazia” e a Católica traduz como “maior”. Optamos pelo significado literal: primeiro.

Vs 16 Porque da sua plenitude todos nós recebemos e graça sobre graça.

A palavra ἀντὶ traduzida como sobre em “graça sobre graça” dando sentido de que a graça dada por Cristo vem sobre a graça que já existia na lei, mas não é contrária a ela, é traduzida como “por” pela ACF, e como “sobre” pelas demais.

Vs 17 Porque a lei por meio de Moisés foi dada, a graça e a verdade por meio de Jesus vieram a ser.

Não houveram divergências quanto a esse versículo nas traduções analisadas.

Vs 18 Ninguém viu a Deus em qualquer momento, o Deus unigênito, que está no seio do Pai, aquele (o) revelou.

A palavra οὐδεὶς é traduzida como “alguém” pela ACF, porém todas as demais traduzem por “ninguém”. O termo ἐξηγήσατο tem o mesmo sentido, mas é traduzido como revelou pela ACF, ARA e Católica. Somente a NVI traduz por “tornou conhecido”. Quanto ao termo μονογενὴς θεὸς, algumas traduções seguem a leitura de manuscritos que dizem Filho Unigênito ou Único ao invés de Deus Unigênito. Porém segundo Omanson[16] é possível que copistas tenham criado essa leitura influenciados por Jo 3.16,18 e 1 Jo 4.9. Contudo, o termo Deus unigênito parece seguir o paralelo com o versículo 1 e tem fortes evidências externas a seu favor.

Estrutura do Texto

 

Por ser uma unidade genuína, o prólogo do Evangelho de João 1.1-18 é uma perícope completa respeitando os vários critérios que a delimitam. Esta coerência interna evidencia-se, sobretudo, quando em relação ao conteúdo se pode destacar um assunto central ou pensamento normativo que perpassa a perícope e que, simultaneamente, se diferencia do assunto anterior e posterior[17]. Os elementos internos, ligados e concatenados formam uma unidade textual, literária e coerente. Por ser o prólogo do evangelho, tem seu sentido completo. Também possui a estrutura bem delimitada, pois João 1.1-18 está separado do novo assunto que se inicia no v. 19. Com esta mudança de linguagem, o evangelista sai da forma de doxologia e vai para narrativa a partir do v. 19 do primeiro capítulo do Quarto Evangelho, o que caracteriza e enfatiza o limite da perícope. Outra característica que delimita o prólogo como uma perícope completa, se refere ao personagem. Em João 1.1 o personagem do Evangelista é o “Verbo”, que aparecerá também no final da perícope, v.18, como revelação de Deus. O personagem do v.19 é João Batista, que não é o que foi revelado por Deus, indicando claramente a mudança de perícope. Assim o prólogo do Quarto Evangelho se mostra de forma coesa, com as ideias ligadas verso após verso, dando continuidade e desenvolvendo um mesmo assunto: a revelação de Deus através do Verbo encarnado[18].A estrutura do Evangelho de João se difere do início dos outros evangelhos. Nota-se que o Quarto Evangelho fundamenta o cumprimento da esperança messiânica, tendo por base a encarnação do Verbo de Deus, pois “no Prólogo é revelado a, oportunidade que todos têm de receber o verbo e de se tornarem filhos de Deus; a partir de um ato de fé”[19]. Dentro do prólogo também é possível delimitarmos três divisões, sendo a primeira do versículo 1 ao 5, a segunda do 6 ao 13 e a última do 14 ao 18. 

2.1.5) Comentário

Versículo 14 – 14 Καὶ ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο καὶ ἐσκήνωσεν ἐν ἡμῖν, καὶ ἐθεασάμεθα τὴν δόξαν αὐτοῦ, δόξαν ὡς μονογενοῦς παρὰ πατρός, πλήρης χάριτος καὶ ἀληθείας·

E a palavra se fez carne e habitou entre nós, e contemplamos a sua glória, glória como do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.

João retoma a palavra Logos (λόγος) que se referiu nos versículos 1 a 3, quando demonstrou a divindade e pré-existencia do Logos Divino. Agora, o próprio Logos, como sujeito da frase, se faz carne. Segundo Pink, o inifito tornou-se finito.[20] A palavra logos era utilizada em diversos contextos no século I. Diferentemente do que diziam os estóicos ou Fílon, João tem um pano de fundo do Antigo Testamento, e o termo palavra no AT é davar. Entre seus significados está a revelação de Deus (Jr 1.4) e a poderosa criação de Deus (Gn 1.3ss e Sl 33.6). Constantemente é dito que A Palavra do Senhor veio aos profetas (Is 38.4, Jr 1.4, Ez 1.6). No salmo 33.6 diz que mediante a palavra de Deus os céus foram feitos. Em Provérbios, a Sabedoria de Deus é personificada (Pv 8.22ss), o que também pode ter sido um pano de fundo para o termo Logos neste versículo e no versículo 1. Contudo, João inclui significado nesta palavra. Aqui a Palavra Criadora de Deus em Gn 1, se torna uma criatura, fazendo-se carne e habitando entre nós. A palavra de Deus é uma pessoa, a segunda pessoa da trindade que veio para revelar plenamente a Deus.

O verbo “se fez” (ἐγένετο) é um aoristo ingressivo[21], o que nos revela uma ação no tempo pretérito, tratando que o Logos Divino, que criou o tempo, agora encarna, entrando na história, tornando-se uma criatura, mas ainda sendo o Logos. Deus e Homem. A expressão se fez carne vai contra todas as expectativas gregas. Os helenistas jamais imaginariam que Deus poderia assumir um corpo, pois suas ideias gnósticas os levavam a pensar que o material era mau. Segundo Hendriksen[22], o termo carne (σὰρξ) tem vários significados no Novo Testamento. Nesta em específico não tem a ver com natureza pecaminosa mas sim meramente a natureza humana, sujeito a fraqueza, dor, miséria e morte, porém sem pecado. Esse tipo de “carne” que o Logos assumiu em sua encarnação amorosa e condescendente.

Segundo Carson:

“Em Êxodo, Moisés ouve o nome divino falado pelo próprio Deus, e isso é seguido pela palavra escrita sobre duas tábuas de pedra. Agora, João nos diz, a Palavra de Deus, sua auto- expressão, tornou-se carne.” [23]

Campos afirma que é preciso lembrar que a encarnação de Jesus Cristo não era uma mera aparência, o que defendiam os gnósticos. Afirmavam que tinha apenas semelhança de carne. Por isso João defende que o logos se fez carne verdadeiramente. Ele revela isto até na cruz, quando a lança do soldado romano atravessa o corpo de Jesus, e dele sai água e sangue (Jo 19.34).[24] João é tão enfático em suas cartas quanto a verdadeira corporeidade de Jesus que chama aqueles que a negam de anticristos (1 Jo 4.1-3).

A Palavra fez sua habitação (ἐσκήνωσεν) entre nós também pode ser traduzida de forma mais literal como “armou seu tabernáculo”, ou “morou em sua tenda”, entre nós. O verbo está no aoristo indicativo, o que tem significado de ação transitória. Para os judeus de língua grega e outros leitores do Antigo Testamento em grego, o termo traria à mente o “skênê”, ou seja, o tabernáculo onde Deus se encontrava com Israel antes da construção do templo[25]. Agora, o Deus Todo-Poderoso decide fazer sua tenda entre o seu povo, ele se fez carne e fez sua habitação entre nós.[26] Pink diz que o fato de armar sua tenda entre nós mostra que Cristo fez seu tabernáculo entre nós e a glória deste tabernáculo não é como do primeiro, temporária, mas uma glória eterna que trouxe salvação e graça plena ao seu povo.[27]

O verbo vimos (ἐθεασάμεθα) indica uma visão cuidadosa e deliberada, que busca interpretar seu objeto, traduzido como comtemplamos. Quase como uma espécie de deslumbramento. Não é um olhar rápido ou passer de olhos, mas um olhar firme com reflexão sobre aquele a quem viram: a glória como do unigênito do Pai. A palavra glória (δόξαν) normalmente vem do termo hebraico kabôd, que quer dizer peso, e normalmente utilizado em manifestações visíveis de Deus em teofanias no Antigo Testamento.[28] Agora, a glória é manifestada na carne, em Cristo, o Logos Divino, a própria glória de Deus, o Pai, é concedida ao filho: o unigênito do Pai.

O termo unigênito também pode ser traduzido como Filho Único, ou seja, o filho único de Deus. Esse termo (monogenês) não implica que Jesus foi criado por Deus e, portanto, é uma criatura, não eterna. Segundo MacArthur, o termo não se refera a origem, mas à classe. Por exemplo, Isaque poderia ser chamado de monogenês de Abraão, pois mesmo não sendo o único filho gerado por Abraão, ele era o único filho do pacto.[29] Segundo Carson monogenês não significa filho “unigênito”, mas “singular” (da mesma maneira que Isaque é o “filho da promessa” e de acordo com Hb 11.17, Isaque é um typos de Cristo). [30]

Jesus, então é o único que tem o título de monogenês do Pai. Quanto a isso Bavinck diz:

“…o título Filho de Deus, quando aplicado a Cristo, tem um sentido muito mais profundo do que o teocrático: ele não era um mero rei de Israel, que, num determinado momento, tomou-se um filho adotivo de Deus; tampouco era chamado Filho de Deus devido ao seu nascimento sobrenatural, como queriam os socinianos e Hofman; nem era o Filho de Deus meramente num sentido ético, como outros supõem; nem recebeu esse título como um novo nome, em conexão com sua obra expiatória e sua ressurreição, como querem alguns de seus defensores, ao citar os textos de João 10.34-36, Atos 13.32, 33 e Romanos 1.4 em seu apoio; mas ele é o Filho de Deus num sentido metafísico; por natureza e desde a eternidade.” [31]

A glória revelada pelo Pai, por meio de seu unigênito, é uma glória velada em carne humana, apesar de ser totalmente clara em Cristo. A glória aqui descrita está relacionada à natureza santa de Deus manifestada em Jesus[32]. Ele manifestou os atributos divinos, sejam comunicáveis, sejam incomunicáveis. Assim como ele afirma em João 10.30: “eu e o Pai somos um”.

Esta manifestação agora é descrita no versículo como “cheio de graça e verdade” (πλήρης χάριτος καὶ ἀληθείας). Segundo Carson, se levarmos em conta que pléres é um nominativo que concorda com logos, então graça e verdade seriam descritivos da Palavra. Contudo, a palavra pléres geralmente é indeclinável (não concorda com nenhuma palavra em particular). Desta maneira, ela estaria relacionada a glória, no sentido da manifestação da glória ser percebida no Logos, uma vez que é cheio de graça e de verdade.[33]

Graça e Verdade são atributos de Deus que são totalmente ligados à salvação que é recebida por meio da verdade do evangelho e pela graça. João nos mostra que Jesus é a expressão total e plena da verdade e da graça do Pai. Segundo MacArthur, “aqueles que rejeitam a completa revelação de Deus em Jesus Cristo, estarão eternamente perdidos.”[34] A mesma glória revelada por Deus a Moisés quando passa a sua bondade diante dele, ressoando seu nome, da mesma maneira é revelada no Logos, o unigênito do Pai, aquele que se fez carne e habitou entre nós. Vimos a sua glória, sendo cheio de graça e de verdade, de maneira que Segundo Boice, ele é único em sua origem, graça, verdade, único canal para as bençãos de Deus e único filho de Deus.[35]

Versículo 15 – 15 (Ἰωάννης μαρτυρεῖ περὶ αὐτοῦ καὶ κέκραγεν λέγων· Οὗτος ἦν ὃν εἶπον· Ὁ ὀπίσω μου ἐρχόμενος ἔμπροσθέν μου γέγονεν, ὅτι πρῶτός μου ἦν·)

João testemunha acerca dele e exclama dizendo: este era o de quem eu disse, o (que) vem depois de mim, antes de mim existe, porque era primeiro do que eu.

É possível perceber o paralelo dentro do quiasmo de todo o prólogo de João 1.1-18 entre o versículo 15 e os versículos 6 a 8 quando João menciona João Batista. Nos versículos 6 a 8, o testemunho de João serve como testemunha da luz, que é preexistente. Ele prepara o caminho para que cressem. No versículo 15, João inclui um comentário parentético para inserir novamente o testemunho de João sobre a preexistencia do logos. O verbo testemunha (μαρτυρεῖ) está no presente, e é seguido pelo verbo exclama (κέκραγεν) que está no perfeito. Isso nos dá a ideia de seu testemunho como um presente histórico[36], que é utilizado para uma descrição vívida e dramática do testemunho de João, assim como ele exclama no perfeito intensivo[37] para enfatizar os resultados que esse testemunho de João produziu até os dias atuais em que escreve, e ainda hoje. Um testemunho vivo que aponta para a preexistência de Jesus e sua primazia.

O verbo vem (ἐρχόμενος) é um particípio presente, o que mostra que um acontecimento narrativo pois Jesus é seis meses mais novo do que João Batista, seu primo. Na história Cristo vem depois de João. Entre os judeus, o mais velho é maior do que o mais novo. Porém, esse verbo é seguido pelo verbo existe (γέγονεν) que é um perfeito, pois existia e continua existindo, e por fim João utiliza o verbo era (ἦν), um imperfeito, que revela a preexistencia de Jesus. Ele existia, não há um começo, ele sempre existiu. Segundo Carson[38], o propósito de João ao usar esses textos anteriores citando a lei de Moisés, é situar Jesus no final e ápice do espectro da autorrevelação de Deus ao seu povo. O apóstolo João insere o testemunho do último profeta antes de Cristo, aquele que foi profetizado por Isaías 40.3 para ser o precursor do Messias. E ele é quem afirma que Jesus, mesmo sendo mais novo, já existia desde a eternidade e por isso tem a primazia. João desaparece para que Cristo apareça (Jo 3.30), o que aponta inclusive para sua morte. Além disso, se coloca como alguém que não é digno sequer de desatar-lhe as sandálias dos pés (Jo 1.27), que era a tarefa do menor escravo da casa para lavar os pés daqueles que entravam.

Segundo Hendriksen, João declara a razão para Jesus já existir antes dele porque desde a eternidade, o logos existia como a Palavra de Deus.[39]

Versículos 16 e 17 – 16 ὅτι ἐκ τοῦ πληρώματος αὐτοῦ ἡμεῖς πάντες ἐλάβομεν, καὶ χάριν ἀντὶ χάριτος· 17 ὅτι ὁ νόμος διὰ Μωϋσέως ἐδόθη, ἡ χάρις καὶ ἡ ἀλήθεια διὰ Ἰησοῦ Χριστοῦ ἐγένετο.

Porque da sua plenitude todos nós recebemos e graça sobre graça. Porque a lei por meio de Moisés foi dada, a graça e a verdade por meio de Jesus vieram a ser.

Depois do comentário parentético do versículo 15, João inclui o porque (ὅτι) como uma consequência de Cristo ser cheio de graça e de verdade, então nós recebemos da sua plenitude. A palavra plenitude (πληρώματος) significa ser plenamente cheio, abundante. Desta maneira, em Cristo recebemos abundante graça. Não depende de nós nem de nossos méritos, mas apenas recebemos do Logos Divino. Esse verbo recebemos é um Aoristo Ingressivo[40] que nos dá a ideia da entrada em um estado de graça sobre graça. A palavra ἀντὶ poderia dar a ideia de oposição ou algo contrário, contudo não é o que João expressa. Essa graça que é abundante a ponto de sobrepujar sobre a graça levando então a mais graça é explicada no versículo posterior.

No versículo 17, o apóstolo João aponta para Moisés, no genitivo, o que nos dá a ideia de meio ou instrumentalidade pela qual Deus nos deu a lei. Já Cristo, também no genitivo, já nos dá a ideia de origem ou fonte a partir da qual a graça e a verdade vieram a existência. Os verbos utilizados também nos ensinam, uma vez que João não utiliza os mesmos verbos. Quando se trata da lei de Moisés, ele utiliza o verbo “foi dada” (ἐδόθη), já a graça e a verdade “vieram a ser” (ἐγένετο). Segundo Carson, João utiliza esses verbos “como se, segundo o ordenado e justo curso do plano divino, esse fosse o resultado natural de tudo o que havia acontecido antes”[41].

A questão colocada aqui não está no contraste entre a Lei de Moisés e a graça e verdade originadas em Jesus. Mas, nos dá a ideia de uma graça que é posterior e mais plena do que a outra, sendo a que a primeira é escatológica e aponta para a segunda.[42] Nesse versículo João não sugere que não haja graça na lei, afinal havia graça em cada sacrifício oferecido no Antigo Testemento, assim como em cada linha da lei de Moisés podemos perceber a graça e a verdade de Deus sendo revelada. A graça que vem sobre a graça no versículo 16, agora é manifestada a nós, por meio do Filho, que se encarnou para substituir a graça da antiga aliança pela graça da nova aliança. Hendriksen diz que a lei foi dada por Deus, por intermédio de Moisés e era de caráter preparatório a fim de revelar a condição de perdição do ser humano bem como para prever sua libertação.[43] Já a graça e verdade que vieram a ser por meio de Jesus Cristo, são providas por sua obra expiatória.

Versículo 18 – 18 θεὸν οὐδεὶς ἑώρακεν πώποτε· μονογενὴς θεὸς ὁ ὢν εἰς τὸν κόλπον τοῦ πατρὸς ἐκεῖνος ἐξηγήσατο.

Ninguém jamais viu a Deus, o Deus unigênito, que está no seio do Pai, aquele (o) revelou.

O versículo começa dizendo que ninguém jamais, em qualquer momento viu a Deus. O verbo viu (ἑώρακεν) é um perfeito ativo que nos dá a ideia de que ninguém jamais teve um contato direto com Deus, afinal Ele é espírito e invisível. Ninguém no Antigo Testemento pôde contemplar a Deus no sentido de ver sua face pois Ele mesmo diz que a Moisés quando o pede para ver sua face que qualquer homem que visse sua face morreria (Ex 33.20). Moisés apenas vê a “forma” do Senhor (Nm 12.8). Quando percebemos a teofania em Isaías 6, a visão que o profeta tem do Senhor é terrível. Mas ainda assim, podemos perceber em João 12.41 que Isaías viu a glória de Jesus, revelada a ele naquele momento. Uma vez que ninguém jamais viu o Pai, mas o Filho é quem o revela e “é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15).

O termo monogenês (μονογενὴς) já tratado no versículo 14, volta aqui no 18, mostrando que o Deus unigênito, a segunda pessoa da trindade, aquele que está no seio do Pai. O verbo está (ὢν) é um particípio presente, ou seja, é simultâneo ao tempo da ação verbo principal[44] revelou (ἐξηγήσατο) que é um aoristo médio. Ou seja, Cristo revelou o Pai, tendo intenção e propósito de revelá-lo, e enquanto revelava, ele estava também no seio do Pai. A palavra seio (κόλπον) é usada em textos como Lucas 16.22s quando trata de Lázaro no seio de Abraão, e em João 13.23 quando o discípulo amado estava “conchegado” (no seio de) a Jesus. Todas essas expressões nos dão ideia de um lugar especial, ou seja, mais próximo da pessoa mais importante no banquete no caso do discípulo amado ou no lugar reservado especialmente para Lázaro. No versículo 18, vemos que o unigênito, o único e amado filho, está no seio do Pai, em um sentido de dependência e amor mútuos. Somente aquele que conhece totalmente pode torná-lo conhecido como vemos em Mateus 11.27 (“ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”).

O verbo (ἐξηγήσατο) é um aoristo na voz média. O filho tem interesse em revelar o Pai. Além disso, ele revelou de uma vez por todas, ele é o ápice da revelação de Deus e a revelação plena. Ele é a imagem do Deus invisível a quem ninguém jamais viu. Essa palavra grega significa contar ou narrar no Novo Testamento e dela vem a palavra exegese em Português. Tanto F. F. Bruce[45] quanto Hendriksen[46] afirmam que o Filho é o “exegeta” do Pai. Ele torna possível para o homem ver a Deus, pois ele mesmo diz em João 14.9 “Quem me vê a mim, vê o Pai”. Jesus é a Palavra de Deus, a Exegese de Deus, a revelação do próprio Deus. Quem o vê, vê plenamente ao Pai. Ele não apenas revelou a Deus em alguns momentos ou com meras palavras, no seu andar, no seu falar, sua obra, ensino e vida explicitaram quem é Deus e revelaram a Deus de forma plena e definitiva dentro do progresso da revelação.[47] Jesus é o ápice da revelação de quem é Deus para o homem.

 

2.1.6) Mensagem para a Época da Escrita

A mensagem do evangelho de João como um todo para seus destinatários primários é descrita por ele: “para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus e para que, crendo, tenhais vida em seu nome” (20.31). João utiliza o verbo acreditar cerca de uma centena de vezes[48]. O apóstolo tinha o desejo de revelar a verdadeira identidade de Jesus como o Deus Encarnado (1.1, 14; 8.23,58; 10.30; 20.28) assim como o Messias (1.41; 4.25,26) e Salvador do mundo (4.42). Enfatiza também a corporeidade de Jesus, onde mostra Jesus morrendo fisicamente e verdadeiramente. Utiliza linguagem física por causa do proto-gnosticismo que visa combater. Neste texto João deseja que seus leitores compreendam que o Senhor Jesus veio em carne, e qualquer que contradissesse isso era considerado anticristo (1 Jo 4.1-3). Seu objetivo é que entendam que o Logos Divino é o Deus unigênito que revela plenamente o Pai. A Revelação de Deus atinge assim o seu auge na pessoa de Jesus Cristo, como testemunham as palavras do evangelista no v. 18: “Ninguém jamais viu a Deus, o Deus unigênito, que está no seio do Pai, aquele (o) revelou.”. É este o Verbo encarnado que vem iniciar a nova criação, instaurar a nova aliança, e dar Vida em abundância (Cf. Jo 10:10; 1:4).

 

2.1.7) Mensagem para todas as Épocas

A mensagem de João 1.14-18 para hoje é de suma importância para a igreja em todas as épocas para combater heresias cristológicas, reconhecendo que o Filho é o Deus encarnado, bem como por meio dele podemos conhecer a Deus pois é a expressão exata do ser de Deus. Cristo revela o Pai em sua encarnação, modo de vida (habitação entre nós) e por meio da glória manifestada por meio dele em sua graça e verdade. Diante disso a igreja pode ter esperança em um Deus que é Emanuel (Deus conosco) certos de sua bondade e misericórida para com seu povo, um Deus que se faz presente e que se revela com o propósito de redimir e transformar seu povo por meio da verdade pela graça.

 

2.1.8) Teologia do Texto

2.1.8.1) Implicações para a Teologia Bíblica

O Logos

João utiliza a ideia de Logos para afirmar a divindade de Jesus. Neste caso, há uma paralelo com a Teologia do Antigo Testamento, que dá base para o ensino de João com relação ao Logos. É necessário entendermos também o significado da palavra grega logos no quarto evangelho. Muitos tem tentado explicar esse conceito baseado no uso helenístico do termo ou mesmo nos conceitos filosóficos de Filo. É possível vermos influência do conceito judaico de Palavra (davar) de Deus ou da Sabedoria onde revela a personificação da sabedoria em Provérbios 7.8, porém não é uma mera extensão deste conceito. Ladd nos mostra que João revela em sua doutrina do Logos sua preexistência pessoal e sua encarnação e isso não tem qualquer sentido existente nem no contexto judaico, nem no contexto helênico.[49] Percebemos que João nos revela algo mais dentro do progresso da revelação. Ele nos traz significados teológicos para o conceito de logos e podemos destacar dois conceitos pelo menos: a preexistência de Jesus (o logos) e sua divindade.

O Messias

Em João 1.17 Jesus é chamado de Cristo. Este não é um sobrenome de Jesus, mas o propósito de João, de que cressem ser Jesus, o Cristo. O evangelho faz ressoar ser ele o Cristo (messias em hebraico) em Jo 1.41, quando André diz a Pedro que encontraram o Messias. Natanael em Jo 1.49 diz que Jesus é o Filho de Deus e o Rei de Israel.[50] João nos traz o ensinamento de que o Rei esperado pelos judeus havia encarnado, porém ele não é apenas um libertador politico, mas o Filho de Deus, o Deus unigênito, para salvar seu povo, não apenas da escravidão de Roma, mas dos seus pecados.

O Filho Divino

Como filho de Deus, ou unigênito do Pai, Jesus não é apenas um homem escolhido e iluminado, mas faz parte da própria divindade. O unigênito está no seio do Pai (Jo 1.18) nos mostra sua unidade com o Pai, revelada em todo o evangelho (“eu e o Pai somos um” Jo 10.30). Além disso, no evangelho de João é possível perceber sua divindade revelada em Jo 1.1-18 ao longo das suas afirmações contendo as palavras EU SOU.[51] No Antigo Testamento essas palavras são a representação do nome de Deus (YHWH). Quando Jesus fala aos judeus, ele atribui a si mesmo o nome de Deus, mostrando que são um. Em Jo 6.35 ele diz: “EU SOU o pão da vida.” Em Jo 8.12 “EU SOU a luz do mundo”. Em 10.7 “EU SOU a porta das ovelhas”, 10.11 “EU SOU o bom pastor”, 11.25 “EU SOU a ressurreição e a vida”, 14.6 “EU SOU o caminho, a verdade e a vida”, 15.1 “EU SOU a videira verdadeira”. Além desses textos, em João 8.58 ele diz: “Antes que Abraão existisse, EU SOU.” Em português não há sentido para estas palavras, porém em hebraico, apontam para o nome de Deus.[52] E os judeus entenderam isso, de tal maneira que pegaram em pedras para atirarem em Jesus por se igualar a Deus.

 

2.1.8.2) Implicações para a Teologia Sistemática

Geração Eterna de Jesus

Em João 1.14, monogenês é usado como substantivo. Em João 1.18, traduzimos como Deus unigênito, enquanto a NIV (New International Version) erra em traduzir (“God is the One and Only” – “Deus é Um e Único”)[53], pois segundo Campos, Jesus não é o único Deus, mas “gerado de Deus (e assim verdadeiro Deus) que o capacita a tornar Deus conhecido”. O termo monogenês então aponta para a geração eterna de Jesus tanto nos versículos 14 como no 18.

Humanidade de Jesus

O verso 14 aponta para a plena humanidade de Jesus. Ele se fez carne, o que significa que se fez homem apontando então para a doutrina do vere homo, verdadeiramente homem.[54] Jesus era ao mesmo tempo Homem e Deus no tempo. Sua natureza humana é perene porém é temporal, ou seja, ela acontece no tempo quando Jesus nasce. Porém ele é Deus desde toda a eternidade. Hodge diz que muitos negaram a encarnação do verbo para dizer que ele era Deus.[55] Porém, ele enfatiza que a encarnação de Jesus é a grande doutrina fundamental do evangelho, pois “Todo aquele que confessa que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanence nele e ele em Deus”. Ou seja, todos que negam a encarnação do filho, também negam o Pai.

Divindade de Jesus

O Logos é o revelador de Deus. No Antigo Testamento o YHWH manifestado é chamado de Palavra de Deus, e a ele atribuem as perfeições e existência divina (Sl 33.6, 119.89, Is 40.8, Sl 107.20, 147.18).[56] Assim João denomina Jesus como logos e ensina que o filho eterno, existia antes de João mesmo sendo mais novo do que ele (Jo 1.1,2, 15, 8.58). O verbo era (êv) do versículo 1, um imperfeito, aponta para sua existência antes da criação, antes da fundação do mundo, tal verbo é contrastado com se fez (egêneto), que mostra a sua humanidade que ocorre no tempo. Segundo Hodge, o logos manifestou a sua glória, “a qual não poderia pertencer a nenhum outro, a não ser aquele que é o eterno Filho de Deus, da mesma substância com o Pai.”[57]

Eternidade do Logos

É possível percebemos a eternidade em Jesus no verso 15 quando João testemunha dele dizendo que ele existia antes dele. Esse versículo faz eco com o versículo 1 e 2 e com João 8.58. Todos eles apontam para a eternidade de Cristo. Antes que tudo existisse, Jesus já existia. Ele é desde a eternidade. Isso também aponta para o fato de ser criador. No versículo 2, diz que sem ele, nada do que foi feito se fez. Ou seja, ele é a palavra criador de Deus em Gênesis 1. Ele existe antes de toda a criação. Ao demonstrar a eternidade de Jesus, João mostra que ele manifesta atributos incomunicáveis de Deus, sendo então o próprio Deus.

O progresso da revelação de Deus

No versículo 17 é dito que Lei veio por meio de Moisés e a graça e a verdade por meio de Jesus. Hodge afirma que o Pacto da Graça é revelado por Deus tanto na Aliança Mosaica como na Nova Aliança. Esse versículo aponta para esse progresso, não como alianças diferentes, mas como uma renovação agora plena e perfeita. A primeira aponta para a última.[58] A doutrina da igreja sempre foi de que o plano da salvação permaneceu o mesmo desde o princípio. O Messias, a promessa de libertação, a graça e misericórdia de Deus. Porém, em Cristo a revelação é plena.

 

2.1.8.3) Implicações para a Teologia Prática

Segundo Campos, a não compreensão de Cristo em sua encarnação e quanto a sua divindade leva a um não entendimento de como a nossa salvação se processou.[59] Quando se ignora essas doutrinas perde-se a oportunidade de conhecer melhor a Deus, bem como seu plano em relação a Cristo para redenção de sua igreja. Uma crença em um Jesus meramente místico, não-humano, leva-os a imaginar que não é possível sermos semelhantes a ele, conformes à sua imagem, reduzindo o padrão de santidade e vivendo um “gnosticismo” cristão.

É interessante saber que Cristo será visto por nós, e não somente isso, seremos como Ele é. Campos diz[60] que seremos exatamente como ele é, segundo sua natureza humana (1 Jo 3.2,3).

 

3) Sermão

Título do Sermão: Jesus é a Exegese de Deus

Tema: Jesus é a exegese do Pai: na encarnação e habitação entre nós, em graça e verdade, apontado pela lei (Moisés) e profetas (João Batista).

Doutrina: Cristologia

Necessidade: Os cristãos precisam conhecer a pessoa do Redentor em sua duas naturezas para compreenderem melhor a sua obra. Ele é Deus e Homem. Encarnou e viveu entre nós para revelar o Pai. Em Cristo, conhecemos a Deus.

Imagem: Em Apocalipse 21.23 diz que na Nova Jerusalém, não haverá mais sol, pois Deus será a sua luz, e o Cordeiro a sua lâmpada. Vemos a luz por meio da lâmpada. Portanto, podemos entender que quem vê a Cristo, vê o Pai.

Objetivo: Causar uma mudança na percepção de quem é Jesus, na beleza do Redentor, para adorá-lo melhor, servi-lo melhor, e ter sua vida totalmente voltada para ele. Tudo se trata dele e não de nós.

Esboço:

Introdução

Os testemunhas de Jeová afirmam que Jesus não é Deus, ele é a criatura mais exaltada de Deus. Uma espécie de mestre-de-obras de Deus na criação. Porém, o que diz João sobre quem é Jesus? Hoje falaremos sobre Jesus como sendo aquele que revela plenamente ao Pai. A exegese de Deus. Ele é a expressão exata do ser de Deus. Sendo portanto, plenamente Deus e plenamente homem.

Pontos e Subpontos

  • Jesus é a Exegese de Deus na Encarnação

Jesus, como homem manifesta a glória de Deus. Nos milagres, nos atributos incomunicáveis que manifesta, no seu caráter, ensino e ações.

  • Jesus é a Exegese de Deus em graça e verdade

Graça e Verdade apontam para o Plano da Redenção. A Salvação é pela verdade do Evangelho e pela graça e misericórdia de Deus.

  • Jesus é a Exegese de Deus profetizada na Lei e pelos Profetas

A graça e verdade de Deus são vistas na lei de Moisés, e essa aponta para Cristo. João Batista também testemunhou sobre quem é ele.

Conclusão e Aplicação

Em Cristo vemos a Deus como ele é. O Salvador do Mundo. Aquele que veio para salvar seu povo por meio da sua graça e verdade. Ele nos revela a Deus em sua misericórdia e bondade, que nos escolheu e nos redimiu em Cristo. Aquele que veio em carne para pagar por nossos pecados, sendo o próprio Deus.

Diante disso devemos:

  • Reconhecer sua divindade: Se Ele é nosso Deus, devemos reconhece-lo como Senhor, ou seja, fazer tão somente sua vontade, não a nossa.
  • Reconhecer sua humanidade: Ele se fez carne e habitou entre nós. Isso nos leva a sermos seus imitadores em sua humanidade. Ser como ele é, agir como ele agiu.
  • Buscar conhecer mais plenamente a Cristo e a palavra de Deus. Na leitura da bíblia no Antigo e Novo Testamentos em prática devocional e oração.

 

Conclusão

O Logos Divino revela o caráter gracioso do Pai em sua missão encarnada e salvífica (Jo 1.14). Ele é o unigênito do Pai, aquele que revela plenamente o Pai. Diante disso, conhecer Jesus e permanecer com ele significa conhecer a Deus e permanecer com Deus. Jesus é o revelador do Pai, é a exegese do Pai. Olhamos para Cristo e vemos o homem mais perfeito que já existiu, sem nenhum defeito, glorioso. Aquele que em seus passos não houve qualquer erro. Ele habitou entre nós e vimos sua glória, por meio dos milagres, de seu caráter santo, e de atributos divinos manifestados nele. Ele é eterno, imutável, onisciente e tem todo poder. Ele é o criador de todas as coisas. É o autor e consumador de nossa fé. O Justo e Justificador, ele é Deus e Homem, o Sacerdote e o Sacrifício, o Princípio e o Fim. Para ele devemos viver, nele nos mover e glorificar a ele, o Deus unigênito, o responsável pela salvação de seu povo.

Bibliografia

[1] BRUCE, F. F., João: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2000, p.11

[2] CARSON, D. A., MOO, Douglas J., MORRIS, Leon, Introdução ao Novo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 1997, p. 161s

[3] CARSON, D. A., O Comentário de João. São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 28

[4] Ibid, p. 28

[5] CARSON, D. A., MOO, Douglas J., MORRIS, Leon, Introdução ao Novo Testamento, São Paulo, Vida Nova, 1997, p. 191

[6] CARSON, p. 86

[7] Ibid., p. 87

[8] MACARTHUR, John., The Macarthur New Testment: John 1-11, Chicago, Moody Publishers, 2006, p. 18

[9] WILLIAMS, Derek. Dicionário Bíblico Vida Nova. São Paulo: Vida Nova, 2000, p. 146.

[10] Ibid., p. 146.

[11] CARSON, D. A., O comentário de João, São Paulo, Shedd Publicações, 2007, p. 111

[12] Ibid., p. 113

[13] CARSON, D. A., O comentário de João, São Paulo, Shedd Publicações, 2007, p. 103

 

[14] ALEXANDER, H. E., O Evangelho segundo João, São Paulo, Ação Bíblica do Brasil, p.19

[15] Versão Ave Maria

[16] OMANSON, Roger L.; Variantes Textuais do Novo Testamento, Sociedade Bíblica do Brasil, Barueri, 2010, p. 165

[17] WEGNER, U. Exegese do Novo Testamento: manual de metodologia. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: Paulus, 1998, p. 85

[18] Ibid. p. 87,88

[19] CARSON, D. A., O comentário de João, São Paulo, Shedd Publicações, 2007, p. 113

 

[20] PINK, Arthur W., Exposition of the Gospel of John – Volume One – John 1 to 7, The Zondervan Corporatin Grand Rapids, Michigan, 1978, p. 32

[21] WALLACE, Daniel B, Gramática Grega, São Paulo, Editora Batista Regular, 2009, p. 558

[22] HENDRIKSEN, William, Comentário do Novo Testamento – João, São Paulo, Editora Cultura Cristã, p. 118, 119

[23] CARSON, D. A., O comentário de João, São Paulo, Shedd Publicações, 2007, p. 127

[24] CAMPOS, Heber Carlos de; As Duas Naturezas do Redentor, Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2014, p. 386s

[25] Ibid., p. 127

[26] BOOR, Werner de; Evangelho de João I: Comentário Esperança, Editora Evangélica Esperança, Curitiba, 2002, p. 43

[27] PINK, Arthur W., Exposition of the Gospel of John – Volume One – John 1 to 7, The Zondervan Corporatin Grand Rapids, Michigan, 1978, p. 38

[28] Ibid., p. 45

[29] Ibid., p. 51

[30] BEALE, G. K. e CARSON, D. A.; Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo, Vida Nova, São Paulo, 2014, p. 532

[31] BAVINCK, Herman; The Doctrine of God, Grand Rapids, Michigan, 1951, p. 270

[32] MACARTHUR, John; The MacArthur New Testment: John 1-11, Moody Publishers, Chicago, 2006, p. 49

[33] CARSON, D. A., O comentário de João, São Paulo, Shedd Publicações, 2007, p. 129

[34] MACARTHUR, John; The MacArthur New Testment: John 1-11, Moody Publishers, Chicago, 2006, p. 52

[35] BOICE, James Montgomery, The Gospel of John, The Zondenvan Publishing House, Michigan, 1985, p. 87

[36] WALLACE, Daniel B.; Gramática Grega, Editora Batista Regular, São Paulo, 2009, p. 526

[37] Ibid., p. 574

[38] BEALE, G. K. e CARSON, D. A.; Comentário do Uso do Antigo Testamento no Novo, Vida Nova, São Paulo, 2014, p. 531

[39] HENDRIKSEN, William, Comentário do Novo Testamento – João, São Paulo, Editora Cultura Cristã, p. 124

[40] WALLACE, Daniel B, Gramática Grega, São Paulo, Editora Batista Regular, 2009, p. 558

[41] CARSON, D. A., O comentário de João, São Paulo, Shedd Publicações, 2007, p. 134

[42] BEASLEY-MURRAY, George R., Word Biblical Commentary Vol. 36 – John, Waco: Work Books, 1983, p. 15

[43] HENDRIKSEN, William, Comentário do Novo Testamento – João, São Paulo, Editora Cultura Cristã, p. 125

[44] WALLACE, Daniel B, Gramática Grega, São Paulo, Editora Batista Regular, 2009, p. 625

[45] BRUCE, F. F., João: Introdução e Comentário. São Paulo: Vida Nova, 2000, p.50

[46] HENDRIKSEN, William, Comentário do Novo Testamento – João, São Paulo, Editora Cultura Cristã, p. 126

[47] BOOR, Werner de; Evangelho de João I: Comentário Esperança, Editora Evangélica Esperança, Curitiba, 2002, p. 50

[48] MACARTHUR, John., The Macarthur New Testment: John 1-11, Chicago, Moody Publishers, 2006, p. 18

[49] LADD, G. E. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2009, p. 359

[50] Ibid., p. 362

[51] Ibid., p. 369

[52] Ibid., p. 369

[53] Na NVI no Brasil, o termo foi traduzido como Deus Unigênito.

[54] ELWELL, Walter A., Enciclopédia Histórico Teológica da igreja Cristã – Volume 2, Vida Nova, São Paulo, 1992, p. 21

[55] HODGE, Charles, Teologia Sistemática, Hagnos, São Paulo, 2001, p. 380

[56] Ibid., p. 377

[57] HODGE, Charles; Teologia Sistemática, Hagnos, São Paulo, 2001, p. 378

[58] Ibid., p. 757

[59] CAMPOS, Héber Carlos de, As Duas Naturezas do Redentor, Editora Cultura Cristã, São Paulo, 2014, p. 131

[60] Ibid., p. 132

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