Jesus Cristo: O Homem a ser imitado

O Homem a ser imitado   

A correta compreensão da pessoa de Cristo nos leva a adorá-lo melhor, servi-lo melhor e glorifica-lo verdadeiramente. A correta doutrina nos leva a um correto proceder. Infelizmente, muitos por negarem a plena humanidade de Cristo, veem-no como um exemplo distante e impossível de ser imitado. Enfatizam seus milagres, seu poder e atributos divinos, porém nunca sua moral, sua integridade, seu amor, bondade e abnegação. São os gnósticos atuais. Niebuhr afirma: “Um Deus sem ira levou homens sem pecado para um mundo sem julgamento por meio de um Cristo sem uma cruz”.[1] Na modernidade querem negar a cruz, a obediência, a santidade e imitar a Cristo, substituindo por uma espiritualidade mística onde cada um tem o seu cristo pessoal, e o vê como quer criando um cristianismo sem cruz, de auto-realização, autopromoção e sem sofrimento.

Sendo Cristo plenamente homem, seremos exatamente como ele é na glorificação. O propósito de Deus em nossa redenção é de fazer-nos “conformes à imagem de seu Filho” (Rm 8. 29). Dessa maneira destacamos algumas características do nosso Redentor, uma vez que cremos nele, e assim, como cristãos devemos imitar nele:

Amor pelo Pai

Jesus Cristo amava o Pai, e em toda sua vida podemos ver que suas atitudes e palavras visavam honrar e glorificar o Pai. Seu propósito sempre foi fazer a vontade do Pai e não a sua. Em João 14, Jesus instrui a seus discípulos sobre a vinda do Consolador pois sabia que morreria dentro de algumas horas e afirma isso aos seus discípulos. João deixa claro o porquê Jesus se sujeita àquela morte terrível: “contudo, assim procedo para que o mundo saiba que eu amo o Pai e que faço como o Pai me ordenou. Levantai-vos, vamo-nos daqui”. E assim Jesus partiu para o Getsêmani, onde seria preso de levado posteriormente para Pilatos a fim de ser crucificado.

Jesus demonstrou seu amor pelo Pai cumprindo a vontade do Pai, morrendo na cruz por nossos pecados. Ele morre porque nos ama, mas principalmente porque ama o Pai. Sua vida de obediência ao Pai, sua perseverança, todo seu ministério demonstra que o amor pelo Pai era sua maior motivação pois ele sabia qual era o grande mandamento na lei.

E um deles, intérprete da Lei, interpretando-o, lhe perguntou: Mestre, qual é o grande mandamento na Lei? Respondeu-lhe Jesus: Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento. Este é o grande primeiro mandamento” (Mt 22.35-38).

E Jesus viveu plenamente esse mandamento e todos os outros. Também nós devemos ter o mesmo amor pelo Pai, buscando cumprir sua vontade e viver os seus planos para honra-lo e glorifica-lo até o fim.

Amor pelos Irmãos

Da mesma maneira, Jesus continuou respondendo ao intérprete da lei: “O segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.39). Jesus amou a todos que encontrou sem exceção e sem acepção. Quando Jesus encontra com o jovem rico, que tem seu coração idólatra, amando mais as riquezas do que a Deus, Marcos nos revela que Jesus fitando-o, o amou (Mc 10.21a). O verbo “fitando-o” significa olhar com a mente, considerar. Jesus não apenas viu o exterior do jovem, mas seu coração cheio de pecado. E sua resposta àquele jovem foi uma resposta cheia de amor, tratando da sua real necessidade para acabar com sua idolatria. “Vai, vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro no céu; então vem e segue-me” (Mc 10.21b). Jesus amou aquele jovem e ofereceu aquilo que saciaria a sede de seu coração, porém aquele jovem foi embora.

É possível vermos o amor de Jesus em sua compaixão por todos que encontrou. Ele enxergou o vazio existencial da mulher samaritana. Ele viu a dor do coração da viúva de Naim. Jesus se compadeceu de Jairo ressuscitando sua filha. Ele teve compaixão da multidão que estava sem comer e multiplicou pães e peixes para alimentá-los. Jesus atravessa para uma terra gentílica somente para libertar um endemoninhado que era rejeitado pelos gadarenos. Jesus ao curar o leproso, não apenas purifica sua lepra, mas toca nele. Até aquele dia, durante toda sua lepra, ninguém o havia tocado. Mais que isso, ninguém havia dado um passo na sua direção.

Em João 13.1 temos: “Ora, antes da Festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. Jesus sabia que morreria, e amou os seus discípulos até o fim. A palavra “fim” (télos) significa até final mas também significa pleno cumprimento, levado ao seu propósito. Jesus os amou até a morte. O fim do amor de Cristo pelos seus foi a morte na cruz. Ele amou de forma perfeita e plena, cumprindo tudo aquilo que deveria para salva-los.

Da mesma maneira, devemos amar o próximo enxergando suas necessidades espirituais e nos compadecendo. Um coração dominado por Cristo é um coração cheio de amor e de misericórdia. Devemos dedicar-nos a amar nossos irmãos servindo-os. João nos revela, logo após dizer que Jesus amou os discípulos até o fim, que Jesus lavou os pés de seus discípulos.

Serviço

(…) sabendo que o Pai tudo confiara às suas mãos, e que ele viera de Deus, e voltava para Deus, levantou-se da ceia, tirou a vestimenta de cima e, tomando uma toalha, cingiu-se com ela. Depois, deitou água na bacia e passou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhes com a toalha que estava cingido. (…) Depois de ter-lhes lavado os pés, tomou as vestes e, voltando à mesa, perguntou-lhes: Compreendeis o que vos fiz? Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 3-5,12-15).        

Jesus Cristo foi o exemplo de serviço para nós. Em Lucas 22.27 depois de ver que seus discípulos estavam discutindo sobre qual deles seriam o maior, ele diz: “Pois qual é maior: quem está à mesa ou quem serve? Porventura não é quem está à mesa? Pois, no meio de vós, eu sou como quem serve”. Jesus utiliza um verbo grego que é “diakonõn” (aquele que serve). Jesus diz que veio para servir e para ser o menor, e da mesma maneira seus discípulos deveriam se portar. Não somos chamados a ser grandes mas pequenos. Não devemos buscar ser os primeiros mas os últimos. O cristão, quando compreende que Jesus, em sua encarnação veio para servir, se despe de qualquer desejo egoísta e passa a viver os valores do Reino de Deus, amando a Deus acima de todas as coisas e ao seu próximo como a si mesmo.

Santificação

Ao olhar para a cruz vemos o lugar onde o pecado mais se mostra odioso, e quando olhamos para a cruz, mais devemos odiar o pecado que foi o motivo da morte do nosso Redentor. Porque o amamos, devemos nos santificar. John Owen afirma em sua obra:

Cristo, como crucificado, é o grande objetivo do nosso amor ou deve ser assim (…) Na morte de Cristo, seu amor, sua graça, sua condescendência, brilham gloriosamente.[2]

John Owen continua afirmando em sua obra que, em primeiro lugar nossa alma deve apegar-se a Cristo em amor, estando sempre presente com ele. Em seguida, esse amor gera em nós uma assimilação. Ou seja, uma vez que o amamos, nos tornamos mais parecidos com ele.

O amor gera certa similaridade entre a mente que ama e o objeto amado (…) Uma mente cheia do amor de Cristo crucificado (…) irá sendo transformada segundo à imagem e semelhança desse amor.[3]

Desta forma, devemos crucificar nossa carne, mortificando o pecado em nós assim como Cristo.

Obediência

Em Hebreus 5.8-10 temos:

(…) embora sendo Filho, [Jesus] aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem, tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque.

Jesus Cristo, apesar de sua divindade, por ter uma natureza humana, teve que crescer em conhecimento, aprender como homem, uma vez que crescia em conhecimento e graça. Jesus Cristo não aprendeu a obediência porque era desobediente, ele era perfeito, sem pecado. Porém, ele só poderia cumprir toda a lei, se passasse por ela, sendo provado e aprovado. Ele teve se submeter, obedecendo e cumprindo toda a lei e por meio do seu sofrimento se submeteu perfeitamente a Deus até sua morte para remissão de nossos pecados a fim de que fôssemos salvos. Comentando esse texto Costa afirma:

A obediência de Cristo foi em favor do seu povo; ele viveu em constante harmonia com a vontade do Pai; o preço da obediência era o sofrimento; assim nosso Senhor foi batizado, submeteu-se às leis do povo, foi ultrajado, torturado, contado entre os transgressores, morto e sepultado.[4]

Paulo em Romanos 5.19 diz:

Porque, como, pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos.

A obediência de Cristo foi uma submissão ao Pai até as últimas consequências. Ele, por condescendência se colocou debaixo da lei, e cumpriu toda a lei. Jesus Cristo não cometeu nenhum pecado, e mais que isso, ele não apenas não fez nada de errado, como também tudo que fez era bom e justo. Cristo agiu perfeitamente em todos seus passos e momentos. Sua obediência era fruto do seu amor pelo Pai e por cada um de nós. A obediência de Cristo foi aperfeiçoada porque assumindo uma natureza humana, a morte na cruz não era algo que ele desejasse, mas que era necessário. Ele por obediência se submeteu e morreu na cruz por nossos pecados.

Da mesma maneira nós, porque Cristo cumpriu a lei em nosso lugar, devemos obedecê-lo e ama-lo. A nossa obediência a Deus é consequência da obediência de Cristo em nosso lugar. John Owen afirma:

Aquilo que leva a obediência de que falamos, é o amor. Este é o fundamento de tudo o que é aceitável para ele. “Se”, diz ele, “me mais, guardareis meus mandamentos”, João 14.15. Ao distinguir o amor e a obediência, ele afirma o primeiro como o fundamento do último. Ele não aceita obediência aos seus mandamentos que não procede do amor à sua pessoa.[5]

Só demonstramos nossa salvação por meio da nossa obediência à lei. Cristo não veio para aboli-la, mas cumpri-la. Ao cumpri-la, ele não nos isentou de cumprirmos os mandamentos. Só demonstramos nosso amor por Cristo se guardarmos seus mandamentos.

O cristianismo verdadeiro imita a Jesus em sua obediência ao Pai. Não se trata daquilo que nos agrada ou daquilo que nos trará benefícios, mas daquilo que agrada e glorifica ao Pai. Não se trata do nosso ponto de vista ou de percepções, mas de pronta obediência submissa a Deus, mesmo que isso nos leva à morte. C. S. Lewis escreveu sobre isso:

Estamos defendendo o cristianismo; não “a minha religião”. (…) A grande dificuldade é conseguir fazer as audiências modernas perceberem que você está pregando o cristianismo, única e exclusivamente, porque você acredita que é verdade; as pessoas sempre supõem que você está pregando porque gosta dele ou porque acha que é bom para a sociedade, ou algo desse tipo. Agora, uma distinção claramente mantida entre o que a fé, na verdade, diz e o que você gostaria que ela dissesse, ou o que você entende, ou o que você acha pessoalmente útil, ou pensa que é provável – isso força seu público a entender que você está amarrado aos resultados dos experimentos; ou seja, que você não está apenas dizendo o que gosta. Isso imediatamente o ajuda a perceber que o que está sendo discutido é uma questão sobre o fato objetivo – não jogando conversa fora sobre ideais e pontos de vista.[6]

Desta maneira, o cristão necessariamente deve viver em santidade caminhando na lei do Senhor em obediência à sua palavra. Somos chamados a glorificar a Deus tanto naquilo que não fazemos como naquilo que fazemos. Jonathan Edwards (1703-1758) afirma:

Esse comprometimento com a obediência total não significa uma mera esquivança negativa das práticas do mal. Significa também obedecer positivamente os mandamentos de Deus. Não podemos dizer que alguém é um verdadeiro cristão somente por não ser um ladrão, mentiroso, blasfemador, bêbado, sexualmente imoral, arrogante, cruel e violento. Também deve ser positivamente temente a Deus, humilde, respeitoso, gentil, pacificador, perdoador, misericordioso e amoroso. Sem essas qualidades positivas, não está obedecendo às leis de Cristo.[7]

Sofrimento

Cristo tinha plena consciência do porque de sua encarnação. Mateus registra isso:

Estando Jesus para subir a Jerusalém, chamou à parte os doze e, em caminho, lhes disse: Eis que subimos para Jerusalém, e o Filho do Homem será entregue aos principais sacerdotes e aos escribas. Eles o condenarão à morte. E o entregarão aos gentios para ser escarnecido, açoitado e crucificado; mas, ao terceiro dia, ressurgirá. (Mt 20.17-19).

Sendo o Deus que inspirou os profetas, Jesus Cristo conhecia bem o texto de Isaías 53, que fala sobre o sofrimento do Servo do Senhor. Ele sabia que esse texto falava sobre ele. Ele tinha plena consciência do que sofreria.

Muitas vezes pensamos que Cristo sofreu apenas na cruz, o que não é verdade. Cristo sofreu durante toda sua vida ao ver o pecado ao seu redor, ao ver o Templo sendo profanado, nas tentações impostas a ele, na incredulidade do povo, na traição de Judas e no abandono de seus discípulos. Cada um desses elementos intensificou seu sofrimento.

Costa afirma que na cruz, Cristo morreu como um maldito, alguém amaldiçoado por Deus, sendo totalmente santo, morreu por pecadores que eram seus inimigos.[8] No Getsêmani, Jesus teve uma angústia que poderia levar à morte por saber do peso da ira do Pai contra o pecado que viria sobre ele na cruz. Ele sofreu física e emocionalmente. Sendo Deus, e tendo todo poder, foi açoitado até perder suas forças. Cuspiram nele, lançaram sortes sobre suas vestes. Tamparam seu rosto e pediram que descobrisse quem estava lhe dando socos. Na cruz, seus inimigos continuavam insultando-o e tentando-o. Diziam: “se tem todo poder, desça da cruz”. E como um cordeiro mudo, ele não respondeu. Ele sofreu até o fim. Até a morte por nossos pecados. Para nossa salvação.

Da mesma maneira, se somos discípulos de Jesus, devemos levar a nossa cruz. Diferentemente do que muitos pregam, o cristianismo não é uma religião que nos tira o sofrimento para nos trazer uma vida melhor neste momento. Pelo contrário, ao seguir a Cristo, somos desafiados a tomar a cruz e seguir a Cristo participando de seu sofrimento, para também participarmos de sua ressurreição. Ao olhar para Cristo, somos chamados a imita-lo em seu sofrimento, não apenas no fato de sofrer, mas como sofrer. É fato que passaremos por aflições, mas Cristo diz: “tende bom ânimo, eu venci o mundo” (Jo 16.33). Devemos passar pelas aflições com coragem, com esperança e com alegria, com os nossos olhos sobre Cristo, que venceu o mundo e nos dará vitória no final. Nossa esperança não se resume a este mundo, mas está na ressurreição final quando seremos como ele é em sua humanidade. Paulo afirma:

Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós. A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus. Pois a criação está sujeita à vaidade, não voluntariamente, mas por causa daquele que a sujeitou, na esperança de que a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus. Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora. E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo. Porque na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se vê não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos. (Rm 8.18-25).

[1] NIEBUHR, H. Richard; The Kingdom of God in America; Middletown: Wesleyan University Press, 1988, p. 193.

[2] GOOLD, William (ed.); The Works of John Owen – Volume III; London: The Banner of Truth Trust, 1988, p. 563.

[3] Ibid., p. 564.

[4] COSTA, Hermisten Maia Pereira da; Creio no Pai, no Filho e no Espírito Santo, São José dos Campos: Editora Fiel, 2014, p. 323.

[5]GOOLD, William (ed.); The Works of John Owen – Volume I; London: The Banner of Truth Trust, 1987, p. 139.

[6] LEWIS, C. S.; God in the Dock; Grand Rapids: Eerdmans, 1970, p. 58.

[7] EDWARDS, Jonathan; A Genuína Experiência Espiritual; São Paulo: PES, 1993, p. 81.

[8] MATOS, Alderi Souza de; COSTA, Hermisten Maia Pereira da; Cristo e a Cruz; São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p. 85.

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