Mateus 5.38-42: A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena

Mateus 5.38-42: A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena 

Introdução:

Duas Histórias:

O Conde de Monte Cristo

No livro, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, o personagem central é acusado injustamente por três falsos amigos.

Por causa disso é atirado na masmorra no dia do seu casamento. Ali fica durante doze anos. Perde a esposa, a juventude, os bens, tudo.

Quando finalmente consegue fugir da prisão, dedica sua vida a vingar-se de seus detratores. Vai atrás de um por um e consegue arruinar a vida de todos.

No final da história, apesar de concluir sua vingança, ele descobre que com aquilo não conseguia aliviar as dores do seu coração. Tornara-se uma pessoa amarga e infeliz. Arruinara a vida de seus inimigos, mas não pudera impedir que eles destruíssem a sua. Como diria a sabedoria em Chaves: A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena.

 

Dona Cleonice

Em 2015, Magno Fonseca leite foi assassinado em Cachoeiro do Itapemirim com três tiros nas costas em um latrocínio. Seus assassinos foram presos. Sua mãe, Cleonice, foi até a delegacia e encontrou com os dois assassinos de seu filho.

A dona de casa e outros familiares estiveram na delegacia e conversaram com os criminosos. Um deles admitiu que estava drogado. Após a confissão, Cleonice respondeu: “E por que vocês usam isso? Aí vocês saem da prisão, continuam na droga e fazem a mesma coisa com outra pessoa”.

Chorando muito, na delegacia, um dos criminosos fez uma promessa à Cleonice: “Vou fazer mais não, tia. Você pode ter certeza. Dá uma abraço, tia. Me perdoa”, disse.

Emocionada, a mãe de Magno segurou as mãos dos acusados e os abraçou.

“Eu vou confiar em vocês e vou confiar em Deus. Vocês não podem fazer isso com ninguém, nem com a família de vocês. A dor que eu estou sentido é tão grande…Meu coração ainda cabe um pouquinho de perdão para vocês”, disse Cleonice, antes de sair da delegacia.

Com coração aliviado e a certeza de ter feito a coisa certa, Cleonice disse não ter vergonha de abraçar os homens que mataram seu filho. Ela afirmou que, embora tenha perdoado os criminosos, não acredita que eles tenham sido sinceros.

“Acho que eles não estão arrependidos, que me pediram perdão por medo, porque estavam dentro de uma delegacia. Mas eles são uns pobres coitados, vítimas das drogas. Deus é quem vai julgá-los pelo que fizeram. Eu sou muito religiosa e meu filho também era. Os perdoei por ele, porque o Magno faria isso”, afirmou.

O fato de não nos vingarmos e agirmos com amor, não significa que haverá impunidade perante a lei. Significa apenas que não faremos justiça com as próprias mãos, antes, deixamos que aqueles que nos afligiram sejam punidos pela lei e não por nós. Caso contrário, estaremos retribuindo o mal com o mal, e sendo tão transgressores da lei quanto nossos inimigos.

 

Contextualização:

Bem-aventuranças

Sal e Luz

Jesus veio para cumprir a lei

Como cumprir a lei?

  • não matarás
  • não adulterarás
  • não se divorciar
  • não jurar em falso
  • não se vingar

Vocês ouviram o que foi dito:

“Olho por olho, dente por dente”. É errado esse texto? Não.

Êxodo 21.22-24: Se homens brigarem, e ferirem mulher grávida, e forem causa que dê à luz prematuramente, porém sem maior dano, aquele que feriu será obrigado a indenizar segundo o que lhe exigir o marido da mulher; e pagará como os juízes lhe determinarem. Mas se houver dano grave, então darás vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé…

Levítico 24.19,20: Se alguém causar defeito em seu próximo, como ele fez, assim lhe será feito: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente, como ele tiver desfigurado a algum homem, assim se lhe fará.

Olho por olho e dente por dente trata de uma punição justa. Nem aquém do necessário, nem além do necessário. (Ex: Levi e Simeão se vingam pelo estupro de Diná, e matam todos os homens de Siquém).

A questão é:

Em um contexto de injustiça. Devo buscar justiça própria ou devo sofrer o dano?

Esse texto não pode ser usado em defesa de uma resitência. No âmbito pessoal é não resistência. Tampouco contra guerras, pois a questão é de cunho individual e não nacional.

Os fariseus usavam esse contexto para defender e justificar a retribuição e vingança pessoais.

Jesus está indo de encontro a esse pensamento. Ele combate o pensamento farisaico. “O que ele diz é: não te vingues a ti mesmo, porém, deixa que a justiça seja administrada publicamente”.

A própria lei do Senhor dizia isso:

“Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Lv 19.18.

“Não digas: vingar-me-ei do mal; espera pelo Senhor”. Pv 20.22.

“Não digas: como ele me fez a mim, assim lhe farei a ele; pagarei a cada um segundo a sua obra”. Pv 24.29.

O contexto dessa passagem é: “amai os vossos inimigos”. O texto paralelo em Lc 6.29,30 é logo na sequência da afirmação de Cristo sobre amar os inimigos.

Jesus está afirmando: Não resistais ao perverso com medidas que emanem de uma disposição que é o oposto do amor, do perdão, da brandura, da tolerância.

Eu porém vos digo:

Não resistais (colocar-se contra) ao perverso.

Quatro situações de amor ao inimigo:

1) Quem te ferir a face direita, dê-lhe a esquerda.

Bem-aventurados os mansos

O primeiro exemplo é direcionado ao insulto. No mundo antigo, o tapa com as costas da mão era uma forma de insultar o outro. A pessoa era grandemente desonrada por um tapa como esses. Jesus diz que, mesmo quando insultado, o cristão não deve se vingar, antes, deve estar disposto inclusive a dar a face esquerda, que não era apenas para desonra para nesse caso uma agressão física.

Jesus não está dizendo que não podemos nos defender. A questão não é apanhar e ficar calado, mas não buscar uma vingança contra quem nos agrediu. Devemos estar dispostos a sofrer o dano ao invés de provocar o dano. Podemos sim nos defender, e podemos sim defender os nossos familiares em face de agressões ou tentativas de agressões.

O que Jesus nos ensina é que os cristãos serão perseguidos pelos perversos, e nesses casos, não devem buscar vingança, mas suportar e estar preparados não apenas para receberem injúrias mas até agressões.

Pedro nos afirma sobre Cristo:

“Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo para seguirdes os seus passos, o qual não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca; pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente”. 1Pedro 2.21-23

2) Quem demandar sua túnica, dê-lhe a capa.

Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça

Jesus, agora fala sobre questões judiciais. Quando um israelita estava envolvido judicialmente em uma causa contra um outro israelita, ele poderia exigir como penhor a capa da outra pessoa, caso esta não tivesse como pagar a dívida.

Entretanto, a lei não permitia ao pobre dormir desprovido de sua capa (Dt 24.10-13), antes ela precisava ser devolvida antes do por do sol. A lei protegia o pobre da injustiça e opressão.

Porém, ao mesmo tempo, Jesus ensina que aquele que tem uma dívida, deve fazer o máximo que puder para resolver a situação. Devemos pagar nossas dívidas mesmo que isso nos cause dano, pois isso é de bom testemunho. Se pedirem sua capa, entregue também a túnica. Ou seja, esteja disposto a resolver, nem que para isso você tenha que entregar tudo que tem. Devemos resolver antes de chegar às vias judiciais, ter um espírito voltado para a resolução dos conflitos. Jamais um cristão pode trocar de carro, deixando de pagar uma dívida que já possui, e ainda contraindo outra. Isso é a quebra desse mandamento do nosso Senhor.

 

3) Quem te obrigar andar uma milha, vai com ele duas.

Bem-aventurados os pacificadores.

Suportar as exigências com paciência

No contexto da época, um soldado romano poderia exigir que um civil carregasse bagagens militar por grandes distancias. Isso acontece quando os soldados obrigam Simão Cireneu a carregar a cruz de Jesus. Essa obrigação era desconfortável e penosa. Ninguém queria viver um dia de serviço forçado e gratuito. Jesus diz, que se a lei dos homens não nos faz pecar contra Deus, mesmo que pareça injusta, devemos estar dispostos a cumpri-la ao máximo.

 

4) Dá a quem te pede, e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes.

Bem-aventurados os misericordiosos.

Nesse caso, Jesus está falando sobre a misericórdia individual e não em termos de igreja. Ele diz que se alguém próximo de nós nos pedir algo, não devemos virar as costas. Aqui, Cristo inclui os nossos inimigos. Pois quem viraria as costas para um amigo? Nesse caso, mesmo um inimigo, quando precisar daquilo que é necessário para sua sobrevivência, devemos ajuda-lo se está ao nosso alcance.

No contexto judaico, todas as dívidas eram perdoadas a cada sete anos. De modo que muitos não emprestavam quando se estava no último ano com medo de não receberem mais o seu dinheiro. Contudo, a lei diz em Deuteronômio 15.9-11:

“Guarda-te não haja pensamento vil no teu coração, nem digas: Está próximo o sétimo ano, o ano da remissão, de sorte que os teus olhos sejam malignos para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada, e ele clame contra ti ao SENHOR, e haja em ti pecado. Livremente, lhe darás, e não seja maligno o teu coração, quando lho deres; pois, por isso, te abençoará o SENHOR, teu Deus, em toda a tua obra e em tudo o que empreenderes. Pois nunca deixará de haver pobres na terra; por isso, eu te ordeno: livremente, abrirás a mão para o teu irmão, para o necessitado, para o pobre na tua terra”.

Da mesma forma, devemos emprestar, se temos condições, ao nosso irmão que estiver em apuros. Não é o caso de emprestar grandes quantias de dinheiro, mas aquilo que é necessário para sua sobrevivência e de sua família.

Conclusão:

O menino ficou extremamente bravo com o coleguinha que o insultou. Diz a seu pai que o odeia e que deseja todo o mal do mundo para ele. O pai pega um saco de carvão e diz para o menino atirar em um lençol branco como se fosse seu coleguinha. Depois de descarregar toda a sua raiva, ele percebe que estava muito mais sujo do que o lençol.

Paulo nos diz em Romanos 12.17-21:

“Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem”.

Somos chamados a oferecer flores ao invés de pedras. Oferecemos apenas o que temos em nós. As pessoas ao seu redor, tudo o que elas têm às vezes é falta de graça, humilhação, palavras duras, pedradas. Nós somos chamados a quebrar o ciclo vicioso, vencendo o mal com o bem.

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