Romanos 12.3-8: Transformados para Humildade, Unidade e Serviço

Romanos 12.3-8

Contexto: 

Com base nas misericórdias de Deus ( cap. 1 a 11). 

A conjunção “porque” (gar) indica que esses versos estão diretamente aos versículos 1 e 2 onde Paulo exorta a igreja a oferecer a si mesma como sacrifício santo e agradável a Deus. A não se conformar com este século, mas ser transformados em sua mente para experimentar a boa, agradável e vontade de Deus. 

Primeiramente, a vida no corpo tem que ser transformada em todas as áreas – corpo e alma. Paulo expressa que o primeiro dever de cada membro do corpo de Cristo é a apresentação de seus corpos humanos como sacrifício vivo. Apresentar o corpo a Deus implica não apenas em evitar os pecados que são cometidos contra o corpo, mas em oferecer o corpo físico, mente e vontade para Deus e para seu serviço. Como membros do corpo de Cristo os corpos são instrumentos de justiça. Não é mais o corpo não transformado que vive, mas é Cristo vivendo na alma que faz o corpo um sacrifício vivo. Os corpos se tornam sacrifícios vivos quando eles são sinceramente dedicados com suas mentes renovadas e transformadas pelo poder do Espírito Santo, o que é aceitável a Deus.

Que vontade é essa? Somos transformados para quê? 

Para relacionamentos! 12.1-2: Em relação a Deus. 12.3-8: Em relação a nós mesmos. 12.9-17: Em relação ao próximo. 12.18-21: Em relação aos inimigos. 13: Em relação às autoridades. 14-15: Em relação a quem pensa diferente. 

Aqui temos então a vontade de Deus para como devemos nos portar internamente. E três coisas são pontuadas que devemos buscar com zelo: 

Para 

  1. HUMILDADE
  2. UNIDADE
  3. SERVIÇO
  1. HUMILDADE 

12.3: Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém, antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um. 

Paulo começa mostrando que está compartilhando um dom com essa amada igreja. Ele diz: “segundo a graça que me foi dada” (vs. 3). No vs. 6 ele diz: “tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada”. Aqui, Paulo está colocando em prática a profecia, a exortação e o ensino. Sua exortação não está baseada em sua autoridade, mas na autoridade da graça de Deus que foi dada a ele para edificar a igreja. 

Em primeiro lugar, Paulo coloca a humildade como primeira resposta do cristão quando tem sua mente transformada. 

Mt 5.3: Bem-aventurados os humildes de espírito porque deles é o reino dos céus. 

Hiperphonein: pensar além do que convém, ser arrogante.

Moderação = “Sobriedade”, “estado mental saudável”, “pensar moderadamente a respeito de si”, “exercer autocontrole” (sophonein).

Paulo afirma que a atitude de autopromoção ou de pensar de si mesmo como melhor que os outros deve ser abandonada. 

Cada membro do corpo deve ser modesto em seus pensamentos e julgar a si mesmo conforme a fé que Deus lhe deu. Essa avaliação pessoal pode ser feita apenas quando uma transformação sincera realmente aconteceu. Por outro lado, quando a transformação acontece no corpo, cada membro compreende a sua importância e as diferentes funções que cada membro executa para o benefício de todos.

Paulo está fazendo uma jogada deliberada em uma raiz grega (phronein, “pensar”), que ocorre três vezes neste verso. Em particular, Paulo está contrastando dois tipos de pensamento sobre si mesmo usando dois verbos diferentes que constroem essa raiz. Por um lado, há um orgulho excessivo que vai além do que é apropriado (ὑποφρονέω); por outro, há o auto-julgamento correto e sóbrio (σωφρονέω). Este último verbo é significativo, pois “aparece regularmente na filosofia helenista popular denotando modéstia e restrição, em termos clássicos, o meio áureo entre licença e estupidez, e uma das quatro virtudes cardeais” (Dunn, 721).

Segundo a medida da fé que Deus repartiu: se vem de Deus não há porque se gloriar. Não somos nós que conquistamos, foi Cristo quem conquistou. 

Se é Deus quem opera, por que devemos nos gloriar ou pensar mais acerca de nós mesmos? 

Spurgeon declarou: “Somos tão pequenos que, se Deus manifestasse Sua grandeza sem a Sua condescendência, seríamos esmagados debaixo de Seus pés”.

Mas Deus, decidiu manifestar-se plenamente na pessoa de Cristo. Aquele que esvaziou-se de sua glória com o intuito de servir, tabernacular conosco, e morrer por nós. Jesus no cenáculo. Sua humilhação até a morte. 

  • UNIDADE 

12.4-5: Porque assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros tem a mesma função, assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros,  

Mas, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, de quem todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor (Ef 4.15,16).

A leitura, em primeiro lugar, reflete a atitude geral dos cristãos em seu relacionamento uns com os outros. Um dos propósitos de Paulo em escrever a epístola aos Romanos era corrigir o relacionamento entre judeus e gentios.

Na igreja, os cristãos judeus estavam sendo rejeitados por um grupo maior de cristãos gentios, fato que criou uma tensão entre os dois grupos. A tensão era em relação aos crentes judeus que ainda sentiam-se obrigados a observar leis relativas a alimentação e dias sagrados (Romanos 14.2-6). Isto se tornou um ponto de debate que resultou no modo como Paulo respondeu a sua carta, especialmente quando ele explica que não há diferença entre judeus e gentios na presença de Deus. Todos são iguais. Paulo posteriormente explica o plano de salvação e justiça de Deus para a humanidade, seja para judeus ou gentios. Ele diz que não há distinção entre as raças; o ato de redenção na pessoa de Cristo é para todos. Porque todos pecaram e carecem de sua glória, pela graça de Deus, todos são justificados pela fé em Cristo Jesus (Romanos 3.22-24). A obra redentora de Deus é a base para a unidade no corpo de Cristo. Da mesma maneira a compreensão e as explicações teológicas de Paulo do método de Deus de unir diferentes raças aplicam-se a nossa situação. Embora diferentes em nossas características étnicas e aspectos, em Cristo nós encontramos unidade. Por causa desse fato, nós somos irmãos e irmãs neste vínculo cristão. Pois em Cristo nós somos muitos, todavia um só Corpo.

A ilustração usada denota a unidade e diversidade que o corpo tem. Note que diversidade é de funções e não de interpretação ou doutrina. No corpo de Cristo. A palavra de Deus é inegociável. 

Paulo usa o conceito do corpo humano para ensinar aos cristãos como eles devem viver e trabalhar juntos. Assim como as partes do corpo funcionam sob a direção do cérebro, assim também os cristãos devem trabalhar juntos sob o comando e a autoridade de Cristo (1 Coríntios 12:13; Efésios 4: 1-6). E assim em Cristo há muitos membros que formam um corpo. Nós pertencemos um ao outro, apesar de nossa cultura e tradições étnicas, tradições religiosas, línguas e status, não importando se ricos ou pobres. Nós somos um no corpo de Cristo. Os cristãos que formam o corpo de Cristo recebem vida e espírito da Cabeça que é Cristo.

Primeiro, que um corpo tem muitas partes; segundo, que as partes têm funções diferentes. Em outras palavras, “Paulo enfatiza que o corpo humano é caracterizado pela união e diversidade ”(Schreiner, 654). Paulo elabora sobre este ponto em 1 Coríntios 12.12-31, no qual ele argumenta que diferentes partes do corpo, como uma orelha, um olho ou uma mão, desempenham papéis únicos e necessários, e que juntos esses corpos diferentes partes contribuem mais para a pessoa humana do que seria possível se o corpo humano fosse, em vez disso, um ouvido gigante ou um olho enorme. É precisamente este quadro que Paulo aplica aos crentes e à igreja.

Duas outras observações podem ser feitas. Primeiro, Paulo especifica que a unidade do corpo está “em Cristo” (Eν Χριστῷ). A linguagem “em Cristo” de Paulo tem sido usada em Romanos para descrever os crentes (5.16,18; 8.1) e fala da conexão orgânica do cristão a Cristo. Assim, a noção de união mística ou orgânica com Cristo não é apenas entre um crente individual e Cristo, mas entre o corpo corporativo dos crentes e Cristo, em quem a unidade do corpo está localizada.

Segundo, Dunn faz uma observação particularmente astuta quando observa que “o ponto é que o corpo não é um, apesar de sua diversidade, mas é um só corpo em virtude de sua diversidade; sem essa diversidade, o corpo seria uma monstruosidade ”(Dunn, 725).

Ilustração:

Um fazendeiro todos os anos ganhava um Prêmio de Qualidade pelo excelente milho que colhia e levava ao festival do milho.

Um repórter decidiu fazer uma matéria sobre o assunto e acabou aprendendo algo interessante sobre o cultivo de milho.

Quando o fazendeiro lhe contou que sempre dava de sua melhor semente para seus vizinhos, ele perguntou:

– Mas, eles estão competindo com você! Porque lhes dar da sua melhor semente?

– Por causa do vento! O vento nos conecta. O vento leva o pólen de um campo a outro. Se meus vizinhos cultivam milho inferior, a polinização degradará a qualidade de meu milho. Se eu quero cultivar milho bom, eu tenho que ajudar meu vizinhos a melhorar o milho deles.

Nos alpes italianos existia um pequeno vilarejo que se dedicava ao cultivo de uvas para produção de vinho. Uma vez por ano, lá ocorria uma festa para comemorar o sucesso da colheita, a tradição exigia que nesta festa cada morador do vilarejo trouxesse uma garrafa de vinho , seu melhor vinho, para colocar dentro de um grande barril que ficava na praça central.

Entretanto um dos moradores pensou:

“Porque deverei levar uma garrafa do meu mais puro vinho? Levarei uma cheia de água, pois no meio de tanto vinho o meu não fará falta”.

Assim pensou e assim o fez.

No auge dos acontecimentos, como era de costume, todos se reuniram na praça, cada um com sua caneca, para pegar uma porção daquele vinho, cuja fama se estendia além das fronteiras do pais. Contudo ao abrir a torneira do barril, um silêncio tomou conta da multidão. Daquele barril saiu apenas água. Mas, como isso aconteceu?

Na verdade todos pensaram como aquele morador: “A ausência da minha parte não fará falta”.

  • SERVIÇO 

12.6-8: tendo, porém, diferentes dons, segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a proporção da fé, se ministério, dediquemo-nos ao ministério, ou o que ensina, esmere-se no fazê-lo, ou o que exorta faça-o com dedicação, o que contribui, com liberalidade, o que preside, com diligência, quem exerce misericórdia, com alegria. 

Paulo diz as coisas mais óbvias no sentido dos dons espirituais. Use da maneira que você deve usar, não guardá-lo, seu dom tem que servir para os outros. 

Quando Paulo fala da “graça” (χάρις) que ele recebeu, ele está ligando de volta à graça que deu origem ao seu apostolado (1.5) e olhando para a frente nesta mesma passagem para a palavra relacionada “dom ”(Χαρίσμα, 12.6). 

Embora todos tenham recebido o mesmo cháris (χάρις), Paulo irá mostrar que os crentes receberam diferentes charísma (χαρίσμα). A χαρίσμα é a evidência visível de que o χάρις de Deus está operando no povo de Deus.

Ilustração: Na Palestina existem dois mares: O Mar da Galiléia e o Mar Morto.

A água do Mar da Galilélia é doce e, em seu interior e ao seu redor, a vida é abundante.

O mesmo rio Jordão que alimenta o Mar da Galiléia desemboca em outro mar, mas, ali, no Mar Morto, não há vida, nem em suas águas nem ao seu redor.

Qual é a diferença?

A água? Não!

O solo? Não!

A diferença é que o Mar da Galiléia devolve a água que recebe do Rio Jordão, enquanto que o Mar Morto, por ficar abaixo do nível do mar, retém tudo que recebe. Com o passar dos séculos, ele foi acumulando tanto sal em seu leito que a vida ali se tornou impossível.

O mar “generoso” têm vida e proporciona a vida.

O mar “egoísta” não tem nada, só sal e solidão.

Paulo então ilustra para nós trazendo o dom e como ele deve ser realizado. 

– Profecia (eite profeteian kata ten analogian tes pisteos) – se profecia, seja segundo a analogia da fé. O que é uma profecia? Falar da parte de Deus (1Co 14.3) – exortando, consolando e edificando – pregação. 

A analogia da fé, segundo a reforma, é um princípio hermenêutico, no qual a Bíblia interpreta a Bíblia. Ela não pode ser interpretada por ciências sociais. Não é possível uma aproximação do marxismo, do capitalismo, ou de qualquer ideologia humana para interpretar as Escrituras. Se há uma exposição, que seja na analogia da fé para exortar, consolar e edificar o povo de Deus. Qualquer coisa diferente disso deve ser considerada anátema. 

Ilustração: A pregação expositiva e o discipulado na Palavra de Deus ensinando as doutrinas essenciais da fé. 

– Serviço: (diakonian en te diakonia) – se serviço, seja por meio do serviço. O serviço não deve ser realizado de forma relaxada ou sem o dom de diakonia. Se ministério, dediquemo-nos ao ministério. Não devemos nos desviar do serviço que Deus nos deu. 

Ilustração: Não devemos perder tempo naquilo que não é central. É como um médico que enquanto há pacientes morrendo está preocupado em discutir a cor da parede do hospital. Antes podemos servir com os dons que Deus nos deu. Seja por meio dos dotes culinários, dos dotes musicais, levando ou trazendo irmãos para a igreja, seja ficando com um irmão enfermo no hospital, visitando os que precisam, acolhendo os que carecem, etc. 

– Ensino: doutrina (didaskn en te didaskalia) – o que ensina o faça por meio da instrução, doutrina. Aquele que ensina deve esmerar-se no ensino. Dedicar-se ao ensino da doutrina da melhor maneira. Aqui Paulo não fala de forma apenas, mas principalmente de conteúdo. O professor deve ser um estudioso da Palavra de Deus. 

– Exortação: (parakalon en te paraklései) o que encoraja seja feito pelo encorajamento (ex. Barnabé). Seja pela exortação. Dedique-se ao encorajamento, exortação, consolação. Veja que exortação ou consolação são usados na mesma palavra, e o Espírito Santo é chamado de Parakletos (consolador ou exortador). Somos chamados a encorajar e exortamo-nos mutuamente. Assim a caminhada fica mais leve e mais fácil. 

– Contribuição: (metadidous en haplóteti) – o que dá, o faça com sinceridade, simplicidade, generosidade. Não é apenas generoso, mas simples. A viúva que deu tudo o que tinha o fez com generosidade e simplicidade. Deus não olha o que ofertamos mas como o fazemos. 

– Presidência: (hó prostámenos en spoudé) – o que lidera faça com diligência. O que é ativo em ajudar, o faça da melhor maneira, com zelo, colocando sua vida nisso. 

– Misericórdia: (hó eleón en hilaróteti) –  o que exerce misericórdia para com os necessitados, o faça com alegria, sem necessidade de ser constrangido a isso. 

Os dons espirituais que nós recebemos não são apenas para nos beneficiar, mas também para o bem de outros. Como crentes, nós somos desafiados a viver no mundo não como pessoas confusas e inúteis, mas nós devemos fazer bom uso dos dons, talentos e habilidades que Deus nos deu para beneficiar todos no corpo de Cristo (a Igreja). 

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